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Entendendo Bolsonaro

Desembarque de Moro definirá o que há de lavajatismo no bolsonarismo

Entendendo Bolsonaro

25/04/2020 00h49

Bolsonaro x Moro: o racha será essencial para compreender a real força do bolsonarismo (Crédito: Adriano Machado/Reuters)

* Igor Tadeu Camilo Rocha

A enorme crise enfrentada pelo governo Bolsonaro após a demissão do ex-ministro Sergio Moro será chave para compreendermos, no longo prazo, a real capilaridade do que se entende por bolsonarismo.

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Como já ressaltei em artigo para o blog, o bolsonarismo possui uma natureza desarmônica, o que dificulta bastante um maior entendimento do fenômeno. Alguns nortes são possíveis, entretanto.

Pode-se dizer, de início, que o bolsonarismo é mais que seguir as ideias e práticas de Bolsonaro. Engloba esse aspecto, claramente, mas está longe de se resumir a ele.

Trata-se de um fenômeno político multifacetado, construído a partir de uma onda de extrema direita que se abateu sobre o Brasil nos últimos anos, convergindo nele uma série de racionalidades que misturam conservadorismo, um marcado senso punitivista e um amplo individualismo, de dimensões ético-políticas, e também marcante no âmbito de políticas econômicas, por exemplo.

Por ser mais amplo, portanto, é inevitável que as recentes crises políticas – e a demissão de Moro é, sem dúvidas, a principal delas – tragam à tona um aspecto fundamental: a disputa entre figuras-chave da direita pela herança dos múltiplos capitais políticos construídos em torno do bolsonarismo.

É em razão disso que desvincular-se de um iminente desastre é, também, um cálculo, tão racional quanto apostar na reversão do mesmo.

Tal postura já estava demonstrada, por exemplo, em declarações da deputada Janaina Paschoal – figura do campo lavajatista – , quando se manifestou pelo afastamento imediato de Bolsonaro diante de sua participação em atos políticos em plena pandemia da Covid-19, ou ainda de deputados, antes da base bolsonarista, buscando pautar ações de impeachment no Congresso.

Neste sentido, chama atenção, na crise entre Bolsonaro e Moro, a participação de atores como os governadores de Rio de Janeiro (Witzel) e São Paulo (Doria). Segundo Moro, um dos pontos de interferência do presidente na Polícia Federal seria justamente a cobrança por ações que afetassem os dois governadores, hoje adversários nesta disputa pelo capital político bolsonarista.

O que tudo isso mostra é que o bolsonarismo, mesmo que organize convergências de interesses e agendas de muitos e variados atores da política brasileira, nunca mostrou ser um todo coerente como alguns analistas, seja críticos ou entusiastas dele, um dia pensaram que fosse.

Por exemplo, o bolsonarismo e sua linguagem bélica, de campanha permanente, sempre busca por antagonistas diferentes a todo momento, e eleger antigos aliados como adversários se tornou uma tópica repetida, sobretudo pelo governo.

No momento, muitos de seus apoiadores esboçam uma certa polarização entre apoiar Moro ou Bolsonaro, ensaiando uma querela dentro da própria agenda, o que, no longo prazo, nos ajudará a compreender a real capilaridade desse fenômeno.

Moro chegou a Brasília como uma espécie de reserva moral, ética e racional de um governo que tem na sua figura central a imagem de Jair Bolsonaro, e sua total inobservância de qualquer decoro quanto a funções públicas. Sua imagem construída no processo da Lava Jato, mais ou menos arranhada pelos vazamentos publicados pelo The Intercept, foram fundamentais para sustentar a frágil retórica anticorrupção da agenda Bolsonaro.

Afinal, o ex-juiz foi responsável pela condenação do ex-presidente Lula, troféu importante para uma retórica antipetista que é constituinte dessa agenda conservadora do bolsonarismo.

Mais que isso, fundamental para associar a oposição ao governo, sobretudo uma feita mais à esquerda, a práticas de corrupção. O capital político de Moro é associar sua imagem ao combate à corrupção e a grupos retoricamente associados a ela, bem distribuídos no espectro político que comporta oposições ao atual governo.

Para além de preservar este capital, a sua saída trará consigo o apoio de importantes aliados de Bolsonaro? Possivelmente. Contribui para isso o recente aceno do presidente ao chamado Centrão, um provável turning point no sentido de delimitar qual a parcela de lavajatismo de que se nutre o bolsonarismo.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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