Entendendo Bolsonaro http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo. Wed, 13 Nov 2019 00:07:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O Lula que saiu da prisão ainda é um enigma http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/o-lula-que-saiu-da-prisao-ainda-e-um-enigma/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/o-lula-que-saiu-da-prisao-ainda-e-um-enigma/#respond Tue, 12 Nov 2019 20:13:44 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=541

(Crédito: Henry Milleo/AFP)

*Rodrigo Ratier

A liberdade de Lula é positiva para o Brasil. Em termos de Justiça, anula, ainda provisória e parcialmente, os efeitos de um processo farsesco. Lula deve uma estátua a Glenn Greenwald, trombeteiro do que já era quase impossível esconder: a Lava Jato agiu como grupo político – braço mais evidente do Partido da Justiça, na expressão de André Singer –, tendo Sergio Moro como chefe e Jair Bolsonaro como principal beneficiário.

Veja também

Em termos democráticos, repõe, ainda provisória e parcialmente, voz à principal liderança progressista do país. Durante os 580 dias em que permaneceu preso, nenhum sucessor aproveitou, efetivamente, o silêncio forçado.

A comoção por sua libertação indica que Lula saiu de Curitiba maior do que entrou, conforme definiu Elio Gaspari. A paralisia anterior mostra que a esquerda nunca dependeu tanto de uma estrela solitária para brilhar.

O Lula que sai da prisão é também uma incógnita. As primeiras falas públicas, às portas da Polícia Federal em Curitiba e, no sábado passado, em São Bernardo do Campo, trazem o óbvio: baterias voltadas contra Jair Bolsonaro.

Já se exumou o equívoco que é tratar as duas figuras como extremos. Lula e o PT fizeram no máximo um governo de centro-esquerda, combinando políticas redistributivas com vida tranquila para o capital financeiro e eventual composição com velhas oligarquias.

Já o período Bolsonaro se apoia no tripé autoritarismo (a trinca militares-Moro-família Bolsonaro), fundamentalismo (Weintraub-Damares-Araújo) e ultraliberalismo (Tereza Cristina, Salles e sobretudo Guedes). Posicionado na extrema-direita, atrai críticas até de figuras como Doria e Huck.

O fato de ambos reivindicarem um posicionamento de centro só se justifica num debate público descalibrado à direita. Um centro “real”, equidistante dos extremos do espectro político, seria vizinho de Lula e estaria a anos-luz de Bolsonaro. Assim, que o petista bata no quase ex-pesselista é uma não-notícia. Novidade seria se passasse um pano.

O resto ainda são dúvidas. Qual projeto de país Lula vai apresentar e defender daqui por diante? Nas caravanas antes de sua prisão, o ex-presidente priorizou o legado de seus mandatos, enfatizando a melhoria econômica das camadas pobres da população.

Ecos dessa posição apareceram no discurso do último sábado, quando o petista se disse pronto para lutar “para que o trabalhador possa ter o direito de ir a um cinema, de ir a um teatro, de ter um carro, de ter uma televisão, de ter um computador, de ter um celular, de ir num restaurante, e de poder, todo final de semana, reunir a família, fazer um churrasco, tomar uma cervejinha gelada”.

A lista de exemplos se acomoda às representações de mundo do lulismo, entendido aqui como pacto social-conservador ou reformismo fraco, na definição de André Singer. É possível enxergar esse fenômeno político como uma faca de dois gumes: se por um lado conferiu condições de governabilidade a Lula, por outro, resultou em seu enfraquecimento.

A ênfase na inclusão pelo consumo teria sobrepujado as ideias de organização e mobilização popular. Estas se encontravam no nascimento do PT, gestado na confluência do sindicalismo, das comunidades eclesiais de base e das universidades públicas e confessionais.

Correndo o risco da simplificação, a opção lulista significou investir na inclusão sem “conscientização”  para definir melhor, sem o fortalecimento dos mecanismos de participação cidadã na política, do associativismo a experiências de orçamento participativo.

Se aceitarmos a definição de Vladmir Safatle para o pensamento de esquerda  combate a todas as formas de desigualdade somada à luta pela soberania popular , teremos nas gestões Lula um esquerdismo “manco”.

Quando deixa de ser um partido capilarizado na base para se transformar em máquina eleitoral, o PT consegue sucesso no curto prazo, mas acaba punido em contexto de crise por uma população que entende as conquistas recentes, do Bolsa Família ao acesso à universidade, como decorrências de seu próprio mérito  e não fruto de políticas públicas ou luta coletiva.

Lula dá pistas de que vê a mobilização social como central para o avanço da esquerda. Os atores privilegiados, porém, seguem os mesmos. “Eu tô disposto, junto com Haddad, com Freixo e com a Luciana, do PCdoB, com a Benedita, com a Gleisi, com dirigentes sindicais, a percorrer esse país”, enumerou em São Bernardo.

Pôr em marcha a estratégia das caravanas pode ser estratégia viável eleitoralmente, mas é possível que a esquerda precise de mais do que ganhar eleições para sobreviver no longo termo.

Nos estratos mais baixos da pirâmide social, o vácuo deixado pelo refluxo dos sindicatos, CEBs e movimentos sociais tem sido ocupado pelas igrejas evangélicas e pelas mídias sociais. São elas que de fato estão presentes no dia a dia do povo.

Formas de ser, agir e pensar mais conservadoras e individualizantes  teologia da prosperidade, máquina bolsonarista de notícias falsas e/ou hiperpartidarizada etc.  circulam com mais desenvoltura e recorrência pelas camadas populares que as ideias que sustentam a esquerda.

O petista pede gente “formada no meio do povo brasileiro”, mas hoje não é lá que a esquerda está. Conseguirão os atores tradicionais virar esse jogo? Lula indica a necessidade de algo mais ao pedir “a juventude nas ruas” e citando as pautas feminista, antirracista e LGBT. As condições e motivações para a participação dos jovens, porém, ainda carecem de contornos mais nítidos.

Conforme relata o Blog do Sakamoto, para MST e MTST, Lula será agora mais combativo, com menos conciliação com outros setores. Seria uma guinada em sua trajetória política. Desde os tempos de sindicalista, a negociação tem sido sua estratégia base.

A conjuntura nacional também é um entrave – a eleição de Bolsonaro evidencia o fortalecimento do conservadorismo liberal no país. Desde junho de 2013, a direita vem tendo sucesso em pautar o debate público, forçando a esquerda a uma pauta basicamente reativa.

Proposições clássicas do campo – reforma agrária, taxação de bancos, quebra de monopólios nas comunicações – enfrentarão o desafio adicional do agendamento do debate social no contexto mais adverso das últimas décadas.

Como se vê, o retorno de Lula ao xadrez político apresenta desafios de forma e conteúdo para que sua mensagem seja modulada e encontre condições de navegar  e seduzir  a opinião pública. Em São Bernardo, o ex-presidente prometeu um desenho mais definitivo num futuro “pronunciamento ao povo brasileiro”, daqui 20 dias.

*Rodrigo Ratier é professor do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (SP), doutor em Educação pela USP e blogueiro do UOL.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
Libertação de Lula é bom negócio para o bolsonarismo http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/09/libertacao-de-lula-e-bom-negocio-para-o-bolsonarismo/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/09/libertacao-de-lula-e-bom-negocio-para-o-bolsonarismo/#respond Sat, 09 Nov 2019 11:10:19 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=538

(Crédito: Sergio Lima / AFP)

*Murilo Cleto

Esta sexta (8) marcou um capítulo decisivo na disputa política brasileira, com o ex-presidente Lula deixando a prisão após 19 meses detido em Curitiba.

A decisão ocorre após o resultado do julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta (7) que barrou a permanência na prisão de condenados em segunda instância, como é o caso do petista.

Veja também

Com algumas poucas exceções, como é o  nada desprezível  caso do vice-presidente Hamilton Mourão, o bolsonarismo assistiu ao episódio de maneira comportada para os seus padrões, com o presidente Jair Bolsonaro se aproveitando do assunto apenas para cometer mais um ataque diário a jornalistas – no caso, à jornalista Natuza Nery, que cobria a soltura do ex-presidente.

É importante lembrar: pelo menos na atual conjuntura, a soltura do ex-presidente é um bom negócio para Bolsonaro. Primeiro porque Bolsonaro é uma cria do caos. Com Lula solto, as redes sociais convulsionam e o PT volta a ser o centro das atenções.

A despeito da cobertura crítica ao governo e das revelações trazidas à tona pelo The Intercept Brasil e demais parceiros, a imprensa brasileira continua sendo majoritariamente simpática à Lava-Jato.

Segundo, porque a libertação de Lula pode unir, mesmo que momentaneamente, boa parte dos antipetistas hoje francamente divididos – inclusive dentro do PSL, o partido do presidente. Ainda que a identificação à sigla não interesse a Bolsonaro, lhe serve muito bem o papel de antagonista do PT, em torno do qual orbitam demais figuras de menor envergadura política.

Foi assim que ele venceu as eleições em 2018. E é assim que ele pretende chegar em 2022. O terço que atualmente o apoia não é – ele sabe muito bem disso – suficiente para elegê-lo, assim como tampouco é o terço petista para eleger o representante do lulismo.

A estratégia é muito clara: manter vivo o espectro do petismo para restar como única opção para derrotá-lo nas urnas daqui a três anos. E, nesse sentido, nada melhor do que “Lula livre”.

Mas, além disso, também há razões mais imediatas para que Bolsonaro desejasse, ainda que secretamente, a libertação do ex-presidente. Hoje já não é segredo para ninguém que o Planalto está em guerra com os demais poderes. Essa é uma guerra que é operada principalmente em termos performáticos.

E, para os bolsonaristas, a performance conta muito. Aqui ela serve não para uma ruptura institucional imediata. O AI-5, com o qual Eduardo Bolsonaro tanto “sonha” – termo preciso usado pelo presidente –, não é uma realidade no horizonte próximo.

O que o bolsonarismo pretende mesmo é de outra natureza: é desidratar aos poucos as instituições de freio e contrapeso, exatamente aos moldes húngaros. E, para isso acontecer, é preciso desmoralizá-las, constrangê-las, esvaziar sua legitimidade, para, através mesmo de mecanismos institucionais, soterrá-las.

Um dos principais alvos dessa estratégia é, por razões consideravelmente óbvias, o STF. Bolsonaro sabe que precisa de uma Corte subserviente para emplacar sua agenda.

E talvez o exemplo mais emblemático desse quadro seja a postura dos bolsonaristas quanto à chamada PEC da Bengala, que foi aprovada em 2015 para que Dilma Rousseff não pudesse nomear, por uma improvável mas legítima coincidência, cinco ministros do Supremo no mesmo mandato.

Então a idade de aposentadoria compulsória dos membros da Corte subiu, repentinamente, de 70 para 75 anos. Bolsonaro, como deputado na ocasião, votou a favor. Agora a base governista da Câmara articula uma revisão da proposta que, se efetivada, dá ao presidente a possibilidade de emplacar não dois, mas quatro ministros já no primeiro mandato.

O gesto se espelha numa iniciativa semelhante do partido Lei e Justiça, na Polônia. Com Lula solto graças a uma decisão do STF, os ânimos contra a Corte se acirram e as chances de avanço da pauta ficam substancialmente maiores.

Se Lula livre revigora a autoestima da esquerda, não se pode negar, da mesma forma, que, para o discurso bolsonarista, a sua libertação é um ótimo negócio.

*Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. É também pesquisador das novas direitas, professor, escritor e palestrante.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
Bolsonaro é o maior “Lula livre” do país http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/bolsonaro-e-o-maior-lula-livre-do-pais/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/bolsonaro-e-o-maior-lula-livre-do-pais/#respond Thu, 07 Nov 2019 02:04:06 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=526

(Crédito: Reprodução)

*Murilo Cleto

O Supremo Tribunal Federal retoma nesta quinta (7) o julgamento que pode reverter o atual entendimento da Corte sobre a possibilidade de prisão antecipada – ou seja, já a partir da condenação em segunda instância. No dia 24, o placar anotou 4×3 em favor da manutenção da regra. Mas, entre os que ainda não votaram, só a ministra Cármen Lúcia deve defendê-la.

Veja também

Segundo o Conselho Nacional de Justiça, 4,8 mil presos podem ser libertados enquanto aguardam o julgamento dos seus recursos. Mas é evidentemente sobre o ex-presidente Lula que estão voltados todos os holofotes no momento. Lula já foi condenado pelo STJ, mas ainda recorre. Então, se houver mudança, em breve ele estará fora da Superintendência da Polícia Federal de Curitiba.

Bolsonaristas estão alvoroçados com a possibilidade. Ainda que não tenha exatamente mudado de posição desde o julgamento de um habeas corpus do petista, no ano passado – quando votou pela permanência de Lula na cadeia –, Rosa Weber foi severamente atacada nas redes sociais como uma espécie de traidora.

Uma avalanche de falsificações das mais grosseiras sobre a ministra e seus familiares circulou com intensidade após o voto que, agora, pode garantir a liberdade do ex-presidente.

Antes disso, blogueiros alinhados com o governo e mesmo lideranças importantes, como o general Villas Bôas – atualmente assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República –, pressionaram a Corte.

Villas Bôas já havia sido mais explícito quando do julgamento do habeas corpus de Lula: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais. Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais”.

Muitos viram, com um bocado de razão, uma ameaça bastante consistente de golpe militar. Na ocasião, ele ainda era comandante do exército.

Mas o fato é que, pelo menos na atual conjuntura, a soltura do ex-presidente é um bom negócio para Bolsonaro. Primeiro porque Bolsonaro é uma cria do caos. Com Lula solto, as redes sociais convulsionam e o PT volta a ser o centro das atenções.

A despeito da cobertura crítica ao governo Bolsonaro e das revelações trazidas à tona pelo The Intercept Brasil e demais parceiros, a imprensa brasileira continua sendo majoritariamente simpática à Lava-Jato.

Segundo, porque a libertação de Lula pode unir, mesmo que momentaneamente, boa parte dos antipetistas hoje francamente divididos – inclusive dentro do PSL, o partido do presidente. Ainda que a identificação à sigla não interesse a Bolsonaro, lhe serve muito bem o papel de antagonista do PT, em torno do qual orbitam demais figuras de menor envergadura política.

Foi assim que ele venceu as eleições em 2018. E é assim que ele pretende chegar em 2022. O terço que atualmente o apoia não é – ele sabe muito bem disso – suficiente para elegê-lo, assim como tampouco é o terço petista para eleger o representante do lulismo.

A estratégia é muito clara: manter vivo o espectro do petismo para restar como única opção para derrotá-lo nas urnas daqui a três anos. E, nesse sentido, nada melhor do que “Lula livre”.

Mas, além disso, também há razões mais imediatas para que Bolsonaro deseje, ainda que secretamente, a libertação do ex-presidente. Hoje já não é segredo para ninguém que o Planalto está em guerra com os demais poderes. Essa é uma guerra que é operada principalmente em termos performáticos.

E, para os bolsonaristas, a performance conta muito. Aqui ela serve não para uma ruptura institucional imediata. O AI-5, com o qual Eduardo Bolsonaro tanto “sonha” – termo preciso usado pelo presidente –, não é uma realidade no horizonte próximo.

O que o bolsonarismo pretende mesmo é de outra natureza: é desidratar aos poucos as instituições de freio e contrapeso, exatamente aos moldes húngaros. E, para isso acontecer, é preciso desmoralizá-las, constrangê-las, esvaziar sua legitimidade, para, através mesmo de mecanismos institucionais, soterrá-las.

Um dos principais alvos dessa estratégia é, por razões consideravelmente óbvias, o STF. Bolsonaro sabe que precisa de uma Corte subserviente para emplacar sua agenda.

E talvez o exemplo mais emblemático desse quadro seja a postura dos bolsonaristas quanto à chamada PEC da Bengala, que foi aprovada em 2015 para que Dilma Rousseff não pudesse nomear, por uma improvável mas legítima coincidência, cinco ministros do Supremo no mesmo mandato.

Então a idade de aposentadoria compulsória dos membros da Corte subiu, repentinamente, de 70 para 75 anos. Bolsonaro, como deputado na ocasião, votou a favor. Agora a base governista da Câmara articula uma revisão da proposta que, se efetivada, dá ao presidente a possibilidade de emplacar não dois, mas quatro ministros já no primeiro mandato.

O gesto se espelha numa iniciativa semelhante do partido Lei e Justiça, na Polônia. Com Lula solto – e isso pode ser hoje, amanhã ou depois –, especialmente graças a uma decisão do STF, os ânimos contra a Corte se acirram e as chances de avanço da pauta ficam substancialmente maiores.

Se não passar, segue firme a campanha anti-Supremo. Na pior das hipóteses, para os bolsonaristas, continua viva a performance antiestablishment. E de repente vêm mais vídeos de hienas por aí.

Bolsonaro, evidentemente, nunca vai admitir. Mas ele é, sem dúvidas, o maior “Lula livre” do país.

*Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. É também pesquisador das novas direitas, professor, escritor e palestrante.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
Plano A do bolsonarismo é minar instituições, e não a ruptura http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/plano-a-do-bolsonarismo-e-minar-instituicoes-e-nao-a-ruptura/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/plano-a-do-bolsonarismo-e-minar-instituicoes-e-nao-a-ruptura/#respond Wed, 06 Nov 2019 02:02:06 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=522

(Crédito: Adriano Machado/Reuters)

*Clóvis Gruner

Hienas, quando acossadas, reagem em bando e agressivamente, atacando de maneira furiosa quem as ameaça. É o instinto de sobrevivência animal, do qual depende a segurança da alcateia.

Apesar da comparação com o leão naquele vídeo inclassificável, de tão constrangedor, Bolsonaro vem se portando cada vez mais como uma hiena acuada desde, principalmente, a última semana.

Veja também

Em uma sequência de eventos, ligados entre si de diferentes maneiras, o próprio presidente, ou seus colaboradores mais próximos, atacaram e intimidaram os veículos de comunicação (os escolhidos dessa vez foram a Rede Globo e a Folha); mobilizaram o aparato estatal para desmentir e intimidar publicamente um porteiro; obstruíram a justiça, se apropriando de provas de uma investigação em curso; e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ameaçou um “novo AI-5” em caso de uma “radicalização” da esquerda.

São algumas expressões de uma verdadeira máquina de coação e ameaças que se tornou o governo Bolsonaro. A retórica não é nova; Bolsonaro construiu sua campanha a partir dela, não raro com a condescendência de muitos veículos de informação, que insistiam (e ainda insistem, de certa forma) em tratar suas declarações simplesmente como “polêmicas” e “controversas”.

Como notou o historiador Murilo Cleto, em artigo para este blog na quarta-feira da última semana, em apenas três episódios recentes, Bolsonaro tensionou ainda mais as instituições, na tentativa de empurrá-las para o corner e deslocar o centro do debate “mais um pouco em direção ao extremo”.

Um dia antes, em sua coluna na Folha, o economista Joel Pinheiro da Fonseca se perguntava se Bolsonaro está a planejar um golpe, chamando a atenção para a escalada da retórica beligerante como uma estratégia de mobilização na guerra dos “patriotas conservadores” contra tudo e todos que ameaçam o país.

Mas como disse acima, ainda que mais virulento, nada disso é realmente novo. Ele não era candidato ainda, mas viajava o país com recursos públicos quando vociferou que, em um futuro governo seu, “as minorias se submetem à maioria, ou desaparecem”.

Em seu pronunciamento após o primeiro turno, além de acusar uma fraude eleitoral inexistente, condicionou a unificação do país ao fim de “toda forma de ativismo”. A “escória vermelha”, disse à época, precisava escolher entre o exílio ou a prisão, e aniquilá-la era a condição para melhorar o Brasil. Sua eleição, ele a comemorou com um discurso em que, entre outras coisas, prometeu mandar a oposição para a “ponta da praia”.

Diferente do que defendiam os bem-intencionados, não se tratava apenas de um “discurso de campanha”. Presidente, Bolsonaro não apenas recrudesceu a retórica truculenta, mas deu início a um processo de aparelhamento das instituições políticas de que o pedido do ministro Moro à Procuradoria Geral da República semana passada é apenas a face mais recente e mais perversamente visível.

Ambas as estratégias – a retórica truculenta e o aparelhamento das instituições – são complementares e fundamentais à escalada autoritária que estamos a testemunhar.

Uma tradição historiográfica que inicia em Hannah Arendt e se estende até historiadores como Robert Paxton e Michael Mann insiste na tese de que a eficácia do fascismo europeu dos anos de 1930 residiu também na capacidade de contrapor, à racionalidade política das democracias liberais, o irracionalismo característico das massas.

O culto ao líder, o elogio da força física e da violência política, em um ambiente de instabilidade e crise, sedimentaram um tipo de unidade que não tardou a reconhecer, na democracia e suas instituições, a razão de um declínio que era, principalmente, moral.

Uma das características de Bolsonaro é que ele conjuga elementos desse fascismo histórico – a irracionalidade, o personalismo, o elogio da força física e da violência, a moralização da política e a fabricação do inimigo, por exemplo –, a formas de autoritarismo cultivadas no terreno fértil de nossa própria história: a escravidão, experiência histórica estruturante do nosso racismo; a violência estatal contra movimentos sociais; o esquecimento da ditadura; a cordialidade, raiz de nossa baixa tolerância à democracia.

Nesse sentido, ganha outro significado a discussão sobre se Bolsonaro está ou não preparando um golpe. É verdade que ele já deixou claro seu afeto por regimes e líderes autoritários – e seus elogios às ditaduras brasileira e chilena, suas homenagens à memória de Stroessner e Ustra e as alegadas afinidades com o príncipe saudita estão aí como testemunho eloquente de suas simpatias políticas.

Mas um golpe não se constrói apenas com o apoio das redes sociais e alguns tuítes. Sem o respaldo institucional, como em 64, Bolsonaro corre o risco de amargar o final melancólico de um Jânio Quadros.

Por outro lado, tuítes e lives no Facebook mobilizam afetos e constroem um ambiente político mais propício a um governo que, sem suporte para um putsch, pode ainda assim destruir o que sobrou de uma democracia que nunca foi reconhecida exatamente por sua robustez.

Em tempos nos quais avançam, a passos largos, os chamados “populismos autoritários”, mais que um golpe à moda antiga, a destruição das instituições democráticas e a restrição de direitos podem ser estratégias ainda mais eficientes de consolidação de um governo autoritário.

*Clóvis Gruner é historiador e professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
Acuado, Bolsonaro aposta últimas fichas na radicalização http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/30/acuado-bolsonaro-aposta-ultimas-fichas-na-radicalizacao/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/30/acuado-bolsonaro-aposta-ultimas-fichas-na-radicalizacao/#respond Wed, 30 Oct 2019 04:42:55 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=518

Em live direto da Arábia Saudita nesta terça (29), o presidente Jair Bolsonaro insultou a TV Globo, em resposta a reportagem do Jornal Nacional (Crédito: Reprodução)

*Murilo Cleto

Na noite desta terça-feira (29), o Jornal Nacional fez uma das revelações mais bombásticas do caso Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018 no Rio de Janeiro. Segundo os registros da portaria do condomínio onde Bolsonaro e o principal suspeito do crime têm casa, Élcio de Queiroz – o outro suspeito – conseguiu entrar na propriedade depois de interfonar para a casa do então deputado federal pedindo autorização.

Isso tudo poucas horas antes de, segundo a polícia, ter dirigido o Cobalt que emparelhou o veículo em que estavam Marielle, o motorista Anderson e mais uma assessora. Embora o porteiro afirme ter ouvido uma voz que identificou como sendo à do “Seu Jair”, a Câmara dos Deputados registra sua presença em Brasília.

Veja também

Seja como for, Bolsonaro sentiu o golpe. Mesmo tarde da madrugada na Arábia Saudita, subiu o tom – já naturalmente bélico – para atacar o Ministério Público, o governador Wilson Witzel, a Rede Globo, o próprio partido e o PSOL. Aos berros, chamou a veiculação de “patifaria” e ameaçou não renovar a concessão pública da TV Globo, mais uma vez acusada de agir contra o Brasil. Bolsonaro também pediu para falar antes com o delegado que conduz as investigações.

É difícil saber o quanto há de consistente nessas ameaças. O fato, no entanto, é que os últimos dias têm sido de intensa radicalização. Um ano depois de vir à tona o vídeo em que ensina alunos de um cursinho a como fechar o Supremo Tribunal Federal, Eduardo Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara para ameaçar os que têm a pretensão de se revoltar contra o governo como ocorre no Chile. Olavo de Carvalho também tem figurado com frequência nas redes de Eduardo e Carlos com uma retórica de eliminação pura e simples do pensamento dissidente.

Na segunda-feira (28), o presidente chegou a se desculpar pela publicação de um vídeo em que hienas, representadas por diversas instituições e inimigos imaginários da presidência – como STF, “isentões” e, de novo, a Globo –, cercam o leão, que seria Bolsonaro.

Não é preciso elaborar muito para notar que, nesse caso, as desculpas foram puro jogo de cena. Bolsonaro apagou o vídeo, mas parte significativa do círculo mais próximo do presidente o manteve no ar e Filipe Martins, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, reforçou o seu conteúdo atacando – diretamente do terceiro andar do Palácio do Planalto – o que chama de “establishment”.

O objetivo é claro: empurrar as instituições para o corner, com pequenos gestos de moderação para evitar reações muito enérgicas. Uma semana depois, Bolsonaro volta a atacá-las, eventualmente recua um pouco, se desculpa mais uma vez. E de novo. E de novo. Até que, na utopia bolsonarista, não tenha mais com quem se desculpar. Nesse processo, o centro do debate já se deslocou mais um pouco em direção ao extremo.

Tudo isso a poucos dias de o Supremo decidir o destino de alguns milhares de presos – incluindo o ex-presidente Lula – que recorrem de sentenças condenatórias, com grandes chances de o entendimento atual ser revertido em favor dos réus.

Bolsonaristas se articulam para manifestações por todo o país. Em todas as que aconteceram desde o período eleitoral, desfilaram naturalmente pedidos explícitos de golpe. O histórico bolsonarista é quilométrico nesse sentido. Que eles gostariam de executá-lo, já não restam mais dúvidas. Resta saber até onde eles estão dispostos a ir rumo a esse objetivo.

Desde os primeiros dias de governo, Bolsonaro só tem perdido apoio. Hoje ele não é unânime nem no próprio partido – aliás, longe disso. Os escândalos acumulam-se rapidamente, um atrás do outro. Acuado, o presidente partiu para a radicalização. Na melhor das hipóteses, intimida os outros poderes e emplaca sua agenda autoritária. Na pior, cai atirando e posando como vítima do sistema. É bom prestar atenção no que vem por aí.

*Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. É também pesquisador das novas direitas, professor, escritor e palestrante.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
“Lula livre” na Argentina serve ao bolsonarismo e sua gramática da guerra http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/lula-livre-na-argentina-serve-ao-bolsonarismo-e-sua-gramatica-da-guerra/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/lula-livre-na-argentina-serve-ao-bolsonarismo-e-sua-gramatica-da-guerra/#respond Tue, 29 Oct 2019 01:42:21 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=496

O então candidato à presidência argentina Alberto Fernández faz gesto de “Lula livre” enquanto aguarda apuração do pleito que lhe garantiria vitória nas eleições de domingo (Crédito: Reprodução)

*Rafael Burgos

As eleições argentinas do último domingo (27) chancelaram o retorno ao poder da esquerda kirchnerista, representada pela chapa de Alberto Fernández, presidente eleito, e Cristina Kirchner, ex-presidente que retornará ao poder, agora como vice.

Veja também

No país vizinho, que vive enorme crise econômica e social, a transição de governo se iniciou da maneira mais civilizada possível, com o atual presidente Maurício Macri, de centro-direita, posando para foto ao lado do esquerdista Fernández, após convidá-lo para um café da manhã.

É sinal de um país ainda imune ao ar dos tempos, ou, em outras palavras, de nação que, mesmo em profunda crise, resiste à degradação institucional.

Embora de situação econômica muito menos dramática que a Argentina, não se pode, infelizmente, observar a mesma resistência em território brasileiro. O presidente Jair Bolsonaro lamentou o resultado das eleições no país vizinho e se recusou a cumprimentar o presidente eleito, a quem já havia chamado de “bandido de esquerda“.

Foi neste ambiente que, por aqui, ganhou ares de inusitado alarme uma declaração de Fernández no dia do pleito. O domingo era, também, aniversário do ex-presidente Lula, assim, o então candidato não perdeu a oportunidade de aderir publicamente ao “Lula livre”, se aproveitando da boa imagem que o petista ainda preserva no continente.

Foi gesto suficiente para mobilizar o bolsonarismo, que, como de hábito, deixou de lado o bom senso para ganhar de presente a verossimilhança.

Em viagem ao Oriente Médio, Bolsonaro chamou de “afronto [sic] à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro” o gesto de solidariedade de Fernández ao ex-presidente Lula.

No Twitter, o chanceler Ernesto Araújo aproveitou para lembrar os argentinos, desavisados, de que será sempre possível trilhar o caminho da incivilidade e fazer das relações entre países vizinhos um eterno campo de disputa entre o “bem” e o “mal”.

A linguagem de cunho maniqueísta, própria à religião, expressa a contaminação da política pela gramática da guerra, algo que muito serve ao bolsonarismo e suas pretensões de uso arbitrário da máquina do Estado.

Na obra “Nervous States – Democracy and the Decline of Reason” (“Estados Nervosos – Democracia e o Declínio da Razão”, em tradução livre), publicada neste ano, o sociólogo William Davies examina um novo contexto global de crescente predomínio dos instintos sobre as mediações institucionais que caracterizam, ou caracterizavam, as democracias liberais.

Um mundo que privilegiava a lógica e os fatos estaria dando lugar a outro dirigido por emoções como o medo e a ansiedade, que transcendem o âmbito privado para compor uma esfera pública acelerada e que nos convida a decisões imediatas, garantindo à democracia um aspecto de combate.

Em artigo para o jornal New York Times, Davies chama atenção para a presença crescente das metáforas de guerra no discurso político contemporâneo:

Uma maneira de entender os levantes da década passada, manifestados no populismo político e no aumento das conversas sobre “pós-verdade” e “notícias falsas”, é como fruto da penetração da mobilização e da propaganda bélica em nossas democracias

William Davies, sociólogo britânico 

Há um padrão na retórica da extrema direita que hoje disputa o poder por vias democráticas em variados países do globo, e este é o de apelar a caricaturas para descrever o adversário enquanto um radical extremista.

E, nessa disputa pela validade de caricaturas, seria difícil imaginar um cenário mais propenso ao discurso bélico do bolsonarismo do que a volta do velho kirchnerismo ao poder do outro lado da fronteira, com uma pitada de “Lula livre” para atiçar os ânimos da base.

Na tarde desta segunda, o ex-astrólogo e youtuber Olavo de Carvalho, ideólogo do governo, publicou breve vídeo para falar do Foro de São Paulo, acusando o ex-presidente Lula de roubar para “salvar da destruição o movimento político mais homicida, mais monstruoso, mais inumano que a humanidade já conheceu”.

É esta mesma ideia do Foro que fundamenta a hostilidade de Bolsonaro ao kirchnerismo, temente de novas ações para a formação de uma “grande pátria bolivariana”, em suas palavras.

Em conversa com o blog, o diplomata Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Europa e ex-ministro da Fazenda (1994) e do Meio Ambiente (1993-1994), demonstrou preocupação com o cenário entre os dois países, ressaltando que “a relação com a Argentina é seguramente uma das mais importantes do Brasil”.

Ricupero disse ainda que, no atrito com o país vizinho, é o Brasil que tem mais a perder:

“A maior parte da exportação brasileira de manufaturados, justamente os de maior valor agregado, se destinam ao mercado argentino. No caso dos automóveis, a porcentagem supera os 60%. Salvo raros períodos, o Brasil tem sempre mantido saldo superavitário no comércio com a Argentina, por isso mesmo tem mais a perder do que o país, que apresenta déficit”, destacou.

Ainda assim, não parece haver interesse nacional capaz de frear a disposição do bolsonarismo para se aproveitar da eleição de Fernández, um presente que o destino lhe oferece enquanto caricatura, como oportunidade para investir na paranoia e no isolamento internacional pretendido por sua diplomacia.

A força do discurso junto à sua base será sempre tanto maior quanto mais verossímil for o cenário que pinta ameaças desestabilizadoras. É de “Lula livre” que precisa o bolsonarismo para alimentar a sua gramática da guerra e para validar os memes catastrofistas que pintam, com sinal trocado, aquilo que mais se deseja ao país: caos para prosperar.

*Rafael Burgos é jornalista, autor do TCC “Donald Trump: a redenção pelo regresso”.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
De Junho a Bolsonaro, documentário revela o fim de um Brasil conciliador http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/de-junho-a-bolsonaro-documentario-revela-o-fim-de-um-brasil-conciliador/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/de-junho-a-bolsonaro-documentario-revela-o-fim-de-um-brasil-conciliador/#respond Mon, 28 Oct 2019 03:47:33 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=486

(Crédito: Reuters)

[RESUMO] Em “O Mês Que Não Terminou”, o debate se houve golpe ou não é meramente figurante. A força do mais novo documentário sobre a crise no Brasil está na sua capacidade de costurar, a partir de uma gama nada linear de referências, uma consistente linha de hipótese sobre a ascensão do bolsonarismo e de fornecer subsídios para pensar inclusive a onda de protestos no Chile enquanto a eleição de Bolsonaro faz o seu primeiro aniversário.

*Murilo Cleto

Em meio a uma das mais intensas ondas de protesto na América do Sul e o primeiro aniversário da eleição de Jair Bolsonaro no Brasil, o longa-metragem “O Mês Que Não Terminou” estreou semana passada na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

O objetivo do documentário é, como sugere o título e esclarece a narração inicial de Fernanda Torres, tomar Junho de 2013 menos como passado e mais como um conjunto de “lições que podemos tirar do sentido geral desse acontecimento”. Embora a direção do filme tenha sido dividida com Raul Mourão, responsável pela inclusão de videoartes contemporâneas que – junto a imagens dos protestos e entrevistas com especialistas – eventualmente acompanham o texto, o roteiro é do ensaísta Francisco Bosco.

Em “O Mês Que Não Terminou”, o debate se houve golpe ou não em Dilma é meramente figurante. E talvez resida aí o seu maior trunfo. Na sua crítica ao filme na Folha, Joelmir Tavares diz que ele é “honesto com os fatos e evita concessões à esquerda ou à direita”.

Em que pese a precisão da primeira afirmação, a força do mais novo documentário sobre a crise no Brasil está justamente na sua capacidade de costurar, a partir de uma gama nada linear de referências – que vão de Joel Pinheiro da Fonseca a Tales Ab’Saber; de Laura Carvalho a Samuel Pessoa –, uma consistente linha de hipótese sobre a ascensão do bolsonarismo nesse contexto muito específico da Nova República. Nova República que nem existe mais – pelo menos nos termos em que a conhecemos.

No fim das contas, o longa é uma boa oportunidade que Bosco encontrou para reapresentar algumas de suas ideias sobre a crise no Brasil já elaboradas nos primeiros capítulos de “A vítima tem sempre razão?” (Todavia, 2017) e no ensaio “Junho de 2013 foi de sonho democrático a pesadelo autoritário”, publicado na Folha pouco depois da greve dos caminhoneiros, em 2018 – alguns trechos inclusive estão no filme.

Recupero os primeiros textos não por acaso. No injustiçado “A vítima tem sempre razão?”, o debate de fôlego promovido por Bosco entre cultura, intelectualidade e política acabou sendo ofuscado pelo título controverso do livro e pelas acusações de que, com ele, o autor estaria querendo pautar as lutas identitárias no Brasil.

Mas há, ali, um passeio fundamental pela história do país que ajuda a tomar Junho de 2013 como o símbolo de uma grande ruptura. Grosso modo, o que Francisco Bosco faz nos primeiros capítulos do livro é demostrar como a tradição conciliatória no Brasil, representada sobretudo pela cultura – no enaltecimento da natureza; na celebração da miscigenação; na pacificação pelo futebol –, passa por um longo processo de desgaste, possivelmente iniciado pela tradição historiográfica inaugurada nos anos 1940 por Caio Prado Jr.

Nos anos 1980, essa tendência passa a ser verificada pela geração de intelectuais que quebraram a tradição dos grandes explicadores do Brasil em nome de recortes cada vez mais específicos – de classe, cor e gênero – com ênfase não na conciliação, mas no conflito; não nas continuidades, mas nas rupturas.

Na cultura, esse movimento se faz sentir através da ascensão dos Racionais MC’s, que rejeitam fortemente o aspecto agregador de uma música que realizou aquilo que, através da política, a sociedade brasileira não foi capaz ou não quis realizar, transformando as diferenças em diversidade.

E não se trata de pensar os Racionais aqui como apologistas das desigualdades. Pelo contrário. Bosco recupera, no livro, uma fala de Chico Buarque dizendo que o rap era um forte indício do fim da canção. Ou, pelo menos, “da canção tal como conhecemos”. E sobre isso não havia exatamente um juízo de valor, mas um diagnóstico: de fato o que os Racionais fizeram foi seguir a política anticordial dos movimentos negros nos Estados Unidos para, como diz Bosco, “numa forma seca, franca e direta […] capturar o sentido da violência brasileira”. Nela, não há espaço para o encontro, para a miscigenação.

Num vídeo mais recente, Mano Brown manda um recado para ricos que fazem rap: “Playboy tem que cuidar do dinheiro do pai, dos negócios do pai, da herança. Deixa o rap com o sofredor, com o favelado, para quem não teve opção de vida, que nem eu. O rap é uma arma. O rap não é uma roupa brilhante, não, e uma corrente de ouro. O rap é para você se vingar dos putos. É a melhor arma”. Esse é o exato oposto, se houver um, de Gilberto Freyre.

Foi no governo Fernando Henrique Cardoso que essa perspectiva racialista passou a orientar políticas públicas no Brasil. Um dos expoentes da tradição sociológica oitentista da USP, FHC criou o Grupo de Trabalho Interministerial para Valorização da Mulher Negra e o Programa Nacional dos Direitos Humanos para o que entendia como “discriminação positiva” na iniciativa privada, além de outras ações afirmativas. Em 2002, já deixando o Planalto, Fernando Henrique lançou o Programa Nacional de Ações Afirmativas. Lula criou, alguns anos depois, a Secretaria da Igualdade Racial, implementou o Estatuto da Igualdade Racial e instituiu cotas nas universidades federais. Dilma e Temer – o último bem menos – seguiram a tradição.

Para Bosco, foram necessários mais três fatores para que essa tradição anticordial ainda incipiente fosse aprofundada: Junho, o colapso do lulismo e as redes sociais digitais. É essa rede que, segundo o autor, constitui o “novo espaço público brasileiro”. Esse novo espaço é caracterizado por uma tremenda rejeição à conciliação que caracterizou o lulismo, da famosa “carta ao povo brasileiro” às inúmeras concessões políticas que mantiveram ou aprofundaram aquilo que Marcos Nobre chamou de “peemedebismo” – essa força imobilista que, de um lado, garantiu a evolução de indicadores socioeconômicos e a estabilidade política, mas, de outro, produziu uma “cidadania afastada” que restringiu a vivência democrática ao voto.

Outro grande símbolo desse “céu (que) nunca foi azul” – metáfora escolhida por Bosco no livro e retomada para nomear a primeira parte do filme – é a “agenda Fiesp”, o “passo ao lado” da “valsa brasileira” radiografada pela economista Laura Carvalho: Dilma fez exatamente o que exigiam as entidades patronais para afastar de vez o fantasma da crise do capitalismo que rondava o Brasil desde pelo menos 2009. Isso não impediu que algumas delas tenham sido as principais fiadoras do impeachment. A Fiesp avisou e, de fato, não pagou pato algum.

“O Mês Que Não Terminou” se distancia aqui de outras obras que passeiam pela crise. Enquanto algumas tomam as alianças petistas com figuras notoriamente corruptas ou regressivas da política brasileira como uma espécie de desvio de rota, o roteiro de Francisco Bosco deixa bem claro que elas se tratam, no fundo, da espinha dorsal que sustentou o lulismo como a maior força política do país no início do século 21. E aqui esse diagnóstico não serve como álibi.

Em que pesem as diferentes pautas que estiveram nas ruas em 2013, Junho significou tanto a “emergência da sociedade civil como agente político relevante” como a “inauguração de uma cultura social do engajamento”. O que era o país do futebol se converteu, do dia para a noite, numa grande Ágora em que, dessa vez, os 11 escalados na ponta da língua são os ministros do Supremo e não mais os titulares da seleção brasileira.

Junho representou, nesse sentido, a versão brasileira do que o documentário apresenta como o fim da “grande moderação”, vislumbrado desde pelo menos 2011 no Ocidente através do Occupy ou dos Indignados de Madri, por exemplo. Por isso, é difícil pensá-lo como algo além de uma forte reação à crise mundial do capitalismo e à financeirização da vida. E aí que esses eventos, diversos em muitos aspectos, podem encontrar um ponto de contato.

No documentário, o filósofo Marcos Nobre usa a metáfora do compasso para descrever a relação das democracias contemporâneas com o neoliberalismo:

Esse movimento de globalização do neoliberalismo na década de 1990 era um movimento que exigia que todos os países fossem para o centro. O centro definido como ‘você não desafia certos princípios de política econômica que são impostos a todos os países’. E daí você estabelece a partir daí como se fosse a ponta seca de um compasso: aí você faz o giro e você diz: ‘olha, até aqui você pode ir; essa é a tua margem de manobra. Então assim, se você for muito de esquerda ou muito de direita você está fora do jogo. Você nunca vai conseguir o poder’. É essa a ideia”.

Marcos Nobre, professor de filosofia da Unicamp

Essa percepção também ajuda a entender o levante popular ainda pulsante no Chile. Se é verdade, por um lado, que o Chile apresenta índices socioeconômicos invejáveis para o restante da América Latina, é verdade também, por outro, que o país tornou-se um dos mais caros para se viver; que o sistema de capitalização dá direito a aposentadorias irrisórias; que se paga por tudo, como Saúde e Educação. E que por isso tudo os chilenos estão excessivamente endividados.

Seria fácil responsabilizar o presidente Sebastián Piñera por esse quadro, mas, ainda que ele tenha sido projetado pelos Chicago Boys de Pinochet à custa de muito sangue derramado, duas décadas de governos de esquerda não foram o suficiente para desarticulá-lo. Quantas mais seriam necessárias? Sem esse ponto de clivagem, é provável que nem com todas as que estão por vir.

Assim como ninguém sabe o que vem depois dos protestos no Chile, ninguém era capaz de prever com precisão o que viria depois de Junho. O fato é que ambos também estão descritos no filme por Marcos Nobre: “Esse ciclo de revoltas democráticas que vai de 2011 até 2013… elas têm uma característica comum, todas essas revoltas. Quer dizer: ‘olha, essa maneira de funcionar da democracia, ela não mais nos representa’”.

E, ao contrário do que se diz, Junho trouxe resultados imediatos. “O Mês Que Não Terminou” lembra: o aumento das passagens em Rio de Janeiro e São Paulo foi revogado; processos de remoção foram suspensos; a Aldeia Maracanã ficou em pé. Nos anos seguintes, vários foram os movimentos que, inspirados por Junho, se estabeleceram definitivamente no debate público nacional. Sobre eles, Bosco tem uma ótima sacada: “O MBL não é menos Junho que o MPL, O Escola Sem Partido não é menos Junho do que os estudantes secundaristas que ocuparam as escolas públicas do país”.

Diferentemente do que alardearam os meios de comunicação à época – de críticos (e até perseguidores) a entusiastas do movimento –, não há apenas um Junho legítimo. Junho era aquilo tudo mesmo: confuso, complexo; mas, acima de tudo, um basta.

Por uma série de razões, o que tinha tudo para ser o fim desse capitalismo desregulamentado acabou por virar o seu reforço, como diz a citação no filme ao filósofo Rodrigo Nunes. No Brasil, as forças de oposição acabaram por se articular em torno de uma “parlamentada” que não foi capaz de oferecer à sociedade a ruptura que ela tanto demandava – pelo contrário. E em 2017, principalmente após os áudios de Temer com Joesley Batista, ganhava corpo a alternativa extremista que sagrou-se vitoriosa nas eleições mais atípicas que esse país já teve.

O bolsonarismo foi capaz de liderar uma nem tão sólida mas muito potente correlação de forças que congregaram o lavajatismo – que foi quem vampirizou a energia anticorrupção de 2013 –; o fundamentalismo cristão; o mercado; militaristas; e demais reacionários até pouco tempo sem qualquer expressão. O PSL foi só o fiador dessa aventura. E, como demonstram os últimos eventos, é o elo mais fraco dela, dada a conjuntura.

Como a grande força que emergiu desse novo espaço público, o bolsonarismo é um grande desafio à análise política brasileira. Porque ao mesmo tempo em que é isso, ele é também um grande esforço em apagar – inclusive através da memória (basta ver algumas das produções das novas direitas acerca da história mais ou menos recente do Brasil) – a explicitação de alguns desses conflitos. Só lhe resta a paranoia anticomunista. A escravidão? Já acabou faz tempo, bola para frente; a ditadura militar? Ou matou pouco, ou não foi assim tão violenta como dizem. O bolsonarismo, no fim das contas, é uma tentativa de pacificação que se fez pelo conflito.

Tudo isso para dizer que evidentemente Junho não criou Bolsonaro, pelo menos não como alguns intelectuais do petismo ainda insistem. Junho não criou o fascismo no Brasil. Junho foi um basta. O que a sociedade brasileira e sua classe política fizeram dele é o que mais deveria preocupar. Porque foi exatamente isso que criou Bolsonaro.

Mesmo que haja muito para sentir falta daquele Brasil de 2013 e que a polarização tenha de fato piorado a qualidade do debate público no país, a suposição de que o caminho para o retorno do bom senso na política – seja ele o que for – é o retorno ao centro como estava posto antes da crise é inviável.

“O que este realismo não entende”, diz Rodrigo Nunes na mais consistente crítica até aqui de Bacurau – longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles –, “é que as condições materiais e políticas para aquele consenso deixaram de existir: não há retorno possível. O único caminho possível hoje é na direção de redefinir o centro, criar um novo consenso”. Junho foi um basta. E quem entendeu isso primeiro foi a extrema direita. Se Junho não terminou, ainda tem jogo.

*Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. É também pesquisador das novas direitas, professor, escritor e palestrante.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0
Com “ideólogos do caos”, extrema direita constrói um projeto global http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/com-ideologos-do-caos-extrema-direita-constroi-um-projeto-global/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/com-ideologos-do-caos-extrema-direita-constroi-um-projeto-global/#respond Thu, 24 Oct 2019 03:04:51 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=480

O ex-estrategista da campanha de Donald Trump, Steve Bannon, discursa ao lado da principal líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen (Crédito: AP)

*Cesar Calejon 

O que Donald Trump, Roger Stone, John Bolton, Steve Bannon e Robert Mercer, por exemplo, possuem em comum com o Brasil? Todas estas figuras, exceto o presidente dos Estados Unidos, são totalmente desconhecidas no País e influenciaram, direta ou indiretamente, o rumo das eleições presidenciais brasileiras de 2018 de forma substancial.

Veja também

Eleito em 2016, Trump ofereceu a referência ideal de um homem de negócios branco, bem-sucedido, misógino, racista, agressivo e que, ainda assim, foi capaz de se tornar “o líder da maior nação do mundo”. Para o brasileiro médio, que usa os Estados Unidos como modelo, este foi um aspecto fundamental para tornar Bolsonaro muito mais palatável. Foi elementar para fortalecer o estereótipo do sujeito tradicional (conservador), meritocrata, provedor e que deve ser forte para “vencer a qualquer custo”.

Com uma tatuagem do rosto de Richard Nixon, ex-presidente estadunidense, estampada nas costas, Roger Stone, um dos principais consultores políticos da campanha de Trump em 2016, foi talvez a figura central responsável por estimular estes tipos de raciocínios na população mais conservadora dos Estados Unidos e, consequentemente, do Brasil e de outras partes do mundo em seguida.

Em seu livro, intitulado Stone’s Rules: How to Win at Politics, Business and Style (Regras do Stone: como vencer em política, negócios e estilo), Stone elaborou uma série de regras para sintetizar todo o pragmatismo da sua filosofia de vida e de trabalho, entre as quais o autor ressalta que “é melhor ser infame do que totalmente desconhecido”, vale absolutamente tudo para vencer e que um bom político nunca deve admitir nenhum erro, mas sim negar tudo e lançar-se imediatamente ao contra-ataque.

“Você tem que ser ultrajante para ser notado e vencer”, diz Stone, que se autointitula “um jogador sujo” e “o inventor” das campanhas falsas e difamatórias nas disputas políticas. Soa familiar?

Roger Stone foi detido pelo FBI em janeiro de 2019 em sua residência, na Flórida (EUA), acusado de mentir aos investigadores estadunidenses sobre os esforços dos principais assessores de campanha de Trump para descobrir e-mails que o governo russo roubou da campanha da democrata Hillary Clinton, em 2016. O caso inclui obstrução de justiça e adulteração de testemunhas.

Stone é o exemplo clássico do que eu chamo de “ideólogo do caos”: burocratas com décadas de experiência na máquina política norte-americana que utilizam uma filosofia absolutamente utilitarista (e ultrajante) para causar impacto junto às massas e viabilizar a atuação de nações (e grupos muito poderosos) no sentido de influenciar os rumos políticos de outros países. Apesar disso, nos dias atuais, basicamente todas as principais potências do mundo utilizam recursos similares para exercer influência sobre a percepção pública e as eleições de outras sociedades. São os jogos dos estados modernos.

Por exemplo, no livro As entrevistas de Putin, do cineasta Oliver Stone, o presidente russo afirma que “os nossos parceiros europeus e norte-americanos conseguiram tirar proveito do descontentamento do povo ucraniano. Em vez de tentarem descobrir o que de fato acontecia, eles decidiram apoiar o golpe de estado”, diz Putin, que por sua vez é acusado pelos Estados Unidos de interferir diretamente nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, favorecendo o então candidato republicano Donald Trump. A eleição presidencial estadunidense de 2016 foi muito apertada e ter amigos no Kremlin pode ter significado a diferença entre a derrota e a vitória para Trump.

“Sabemos acerca das ONGs que atuavam na Ucrânia. Sabemos que Victoria Nuland, subsecretária de Estado para a Europa Oriental, acho, era muito ativa no apoio à mudança do governo. Sabemos que o senador John McCain foi visto em manifestações com líderes extremistas, incluindo alguns neonazistas. Sabemos que a National Endowment for Democracy, que também é uma ONG muito influente, era muito ativa ali. Paul Jershman, que era o presidente dessa fundação, fez discursos muito enfáticos, defendendo uma Ucrânia independente. E sabemos que o bilionário George Soros, financiador de hedges, também estava muito envolvido no apoio a grupos ucranianos”, escreve o cineasta Oliver Stone, referindo-se à atuação do seu próprio governo (EUA) e do bilionário Soros no sentido de desestabilizar o governo ucraniano entre os anos de 2013 e 2014.

Este caso, que ficou conhecido no Ocidente como a Revolução Ucraniana de 2014 (assim como no Brasil, entre 2013 e 2014 também houve inúmeros protestos na Ucrânia) representa bem o xadrez, todos os tipos de agentes clássicos destes jogos de estados modernos e como cada qual se movimenta no tabuleiro para avançar as suas posições, explorando os ímpetos preexistentes em determinada população.

“Em meu filme Snowden, me foi contada a seguinte história: em 2007 e 2008, Snowden servia no Japão e a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) pediu para os japoneses espionarem sua população. Os japoneses disseram ‘não’, mas nós (estadunidenses) os espionamos assim mesmo. Mas não paramos nisso. Como conhecíamos o sistema de comunicação japonês, instalamos malwares na infraestrutura civil, para a eventualidade de o Japão deixar de ser nosso aliado. Snowden também descreveu situações semelhantes no Brasil, no México e em muitos países europeus. É bastante surpreendente que façamos isso com os nossos aliados”, lamenta Oliver Stone em seu livro.

Jogos de estados das sociedades civis modernas: conquiste a opinião pública seja como for, por meio do ódio e do medo caso esta abordagem funcione, para vencer. Mas, para fazer isso, é preciso estar presente, escutar, observar, entender e manipular o que as pessoas sentem de forma mais ou menos coletiva em certa sociedade. Ainda no dia 29 de novembro de 2018, cerca de um mês antes de ser empossado, o então presidente-eleito Jair Bolsonaro recebeu em sua casa, no Rio de Janeiro, o então 27º assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos. John Bolton, conhecido por avançar sugestões ultraconservadoras, tais como o fim das Nações Unidas e o não cumprimento das regras internacionais, por exemplo, ficou na casa do presidente brasileiro por menos de uma hora em reunião que foi realizada a portas fechadas.

Em março de 2002, Bolton, que então ocupava o cargo de Subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional no governo Bush, conseguiu derrubar o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, que era o diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), em Haia, na Holanda. Bolton foi um dos principais defensores da tese de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa para justificar a invasão do país pelos EUA, o que aconteceu em 2003.

“Quando anunciei que teríamos dois novos membros, Iraque e Líbia, os americanos ficaram alucinados. Eles sabiam que faríamos inspeções no Iraque e isso demonstraria que Saddam não tinha armas químicas. Como já tinham planos de invadir o país, disseram-me que eu não tinha o direito de aceitar os dois países sem antes consultar os Estados Unidos”, disse Bustani à Folha em entrevista publicada no dia 30 de março de 2018. Bolton é outro típico “ideólogo do caos”.

Mais um exemplo de como tais conselhos que visam a estimular o medo e o ódio presentes em determinada população foram explorados por grupos externos pode ser verificado com o estudo de caso do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

No dia 26 de junho de 2016, os britânicos foram às urnas e votaram pela retirada do Reino Unido do bloco da União Europeia. “Uma sombria operação global envolvendo big data, amigos bilionários de Trump e as forças díspares da campanha Leave (em favor da saída da UE) influenciaram o resultado do referendo da UE. Agora, a Grã-Bretanha se dirige às urnas novamente, mas o nosso processo eleitoral ainda está apto para servir o seu propósito?”, questionou a jornalista Carole Cadwalladr em seu texto publicado pelo jornal inglês The Guardian, no dia 7 de maio de 2017.

De acordo com Cadwalladr, um ex-funcionário da empresa Cambridge Analytica lhe contou os detalhes de como estas operações funcionam. “Em janeiro de 2013, um jovem pós-graduado americano estava passando por Londres quando foi chamado pelo chefe de uma empresa onde ele havia estagiado anteriormente. A empresa, SCL Elections, foi comprada por Robert Mercer, um bilionário oculto de hedge funds, renomeada como Cambridge Analytica e ficou famosa como a empresa de análise de dados que influenciou as campanhas de Trump e do Brexit”, introduz o texto da jornalista.

Nesta matéria, o ex-funcionário da Cambridge Analytica explica como o Brexit foi influenciado pelo que ele chama de “Psyops: Operações psicológicas. Os mesmos métodos que os militares usam para efetuar a mudança do sentimento em massa. É o que eles querem dizer com ‘corações e mentes’. Nós estávamos apenas fazendo isso para ganhar as eleições nos tipos de países em desenvolvimento que não têm muitas regras”, afirma o entrevistado.

O resultado do Brexit derrubou o mercado financeiro e causou descrença em todo o planeta. No começo da madrugada seguinte à votação, manhã na Ásia, a libra esterlina atingiu o menor valor em relação ao dólar em mais de três décadas. Na Ásia, as Bolsas despencaram em Seul (-4,09%), Tóquio (-7,22%) e Hong Kong (-4,67%). Mesmo com todo este caos, o The Movement e o seu idealizador, Steve Bannon, que também foi o estrategista-chefe da campanha de Trump em 2016, estavam apenas começando.

Em entrevista publicada pela Folha, no dia 29 de outubro de 2018, Bannon, que manteve um contato próximo com Eduardo Bolsonaro durante todo o período eleitoral, diz que Jair Bolsonaro é um “líder populista nacionalista brilhante” e vai trazer o The Movement ao Brasil.

“Estou muito focado em transformar o The Movement em algo global e o Bolsonaro é parte disso. Passei muito tempo estudando o Brasil e acompanho de perto a política”, afirmou Bannon, que possui esta aliança internacional de bilionários, plutocratas, tecnólogos e líderes políticos da “ultra-direita liberal”, com Donald Trump (EUA), Robert Mercer (EUA), Matteo Salvini (Itália), Giorgia Meloni (Itália), Luigi Di Maio (Itália), Geert Wilders (Holanda), Marine Le Pen (França), Mischaël Modrikamen (Bélgica), Sebastian Kurz (Áustria), Viktor Orban (Hungria), Nigel Farage (Reino Unido), Recep Erdogan (Turquia) e Rodrigo Duterte (Filipinas), por exemplo. Algumas das mentes mais conservadoras do planeta.

Ao que tudo indica, processos similares deverão ocorrer novamente ao redor do mundo em 2020.

*Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais e escritor, autor do livro “A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI”.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

 

]]>
0
Racha no PSL ilustra natureza desarmônica do bolsonarismo http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/19/racha-no-psl-ilustra-natureza-desarmonica-do-bolsonarismo/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/19/racha-no-psl-ilustra-natureza-desarmonica-do-bolsonarismo/#respond Sat, 19 Oct 2019 16:52:04 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=475

(Crédito: Agência Brasil)

*Igor Tadeu Camilo Rocha 

É notável a dificuldade de acompanhar o assunto que tem tomado centralidade no debate político brasileiro nas últimas semanas: a crise no PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Seria tema de mais alguns artigos para comentar as várias declarações e fatos impactantes, envolvendo do presidente do partido ao da República, passando por vários parlamentares e mesmo ex-filiados à legenda.

Veja também

Diante disso, cabem aqui algumas reflexões sobre a crise, em si, do partido do atual governo, e outros elementos tocantes a ela.

Em primeiro lugar, a crise poderia receber diversas adjetivações, exceto a de “surpreendente”. Chama atenção o fato de haver, bem difundida entre diversas pessoas e setores, alguma surpresa nos embates que têm sido vistos e amplamente noticiados.

Talvez a surpresa seja decorrente de uma percepção particular sobre o bolsonarismo: a de considerá-lo como uma “seita”. Seita, aqui, no sentido que o termo tinha na Idade Moderna, derivado do substantivo latino secta, que a definia como “modo ou gênero (ou filosofia) de vida” e, no Directorium Inquisitorum, escrito em 1376 e republicado em 1578 pelo inquisidor Francisco de La Peña, o qual a definia como aqueles que escolhiam e seguiam obstinadamente algo considerado heterodoxo.

Dito de outra forma, há uma maneira de se ver o bolsonarismo como um grupo que segue uma determinada doutrina univocamente. Tendo a vê-lo, contudo, de maneira diferente: no caso, não como um corpo doutrinal político coeso e coerente, mas como um fenômeno que articula rejeições – às instituições democráticas liberais, como imprensa, universidades, especialistas, partidos tradicionais, etc. – e uma afirmação antissistêmica, que funciona como poderoso catalizador de frustrações, materiais e simbólicas, de uma sociedade periférica no capitalismo tardio – a brasileira.

Dito isso, vejo que o que melhor articula bolsonaristas entre si seja uma prática política, calcada nas rejeições e afirmação mencionadas no parágrafo anterior, somada a um corpo mais ou menos coerente de ideologias pró establishment – ultraliberalismo econômico, maior ou menor conservadorismo social – e, claro, um senso de oportunidade diante das possibilidades abertas na cena política brasileira com a irrupção, em 2013, do acordo que era vigente na vacilante democracia liberal brasileira.

Assim, é possível esboçar duas razões complementares para se pensar a crise no PSL. Episódios como a suposta fusão com o DEM ou a procura de Bolsonaro por uma saída jurídica do PSL e manter algumas prerrogativas deixam claro que existe o interesse no fundo partidário. Este deve ser imenso, uma vez que o partido, “nanico” até as eleições de 2014, experimentou um crescimento vertiginoso nas eleições de 2018 sob a onda conservadora do bolsonarismo.

Não menos importante, citando alguns parlamentares como exemplo, dentre eles o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), passando pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) – um dos cinco deputados suspensos pela sigla – ao deputado Delegado Waldir (PSL-GO) – líder do partido na Câmara, hoje no centro da disputa interna que racha a sigla -, deve-se perguntar como e até quando poderão seguir o fluxo da onda conservadora que levou o bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

É possível que algumas figuras vislumbrem na atual crise um momento de se desvincular de um iminente desastre. Também é possível que outras prefiram permanecer e se aferrar mais ao bolsonarismo, apostando vislumbrar novos horizontes dessa mesma onda conservadora nas eleições de 2020. Certamente, também é provável haver incontáveis tons de cinza entre uma posição e outra que somente um exame mais minucioso dos embates que vem acontecendo poderia responder de maneira mais incisiva.

Uma breve conclusão que se pode tomar é que a onda conservadora do bolsonarismo é um campo de disputa de diversos agentes políticos, sendo o PSL parte dele. Uma parte talvez muito menor do que os números de deputados eleitos pelo partido em 2018 pareceu, um dia, mostrar. A legenda PSL nunca pareceu, em si, parte orgânica do bolsonarismo e ele não dá qualquer sinal do contrário.

Uma última consideração é sobre uma visão, a meu ver, irrealista, de parte da oposição sobre a crise no PSL. Há uma narrativa de que a crise, se não derrubará o governo, ao menos significará um entrave significativo para o avanço de sua agenda.

Não parece, entretanto, um cenário muito factível. Esta seria a situação do “melhor mundo possível” na leitura de conjunto de uma oposição que mais resiste do que pauta debates políticos. Isso porque, como dito acima, a prática política e o “mínimo comum ideológico” dos bolsonaristas (e diversos autoproclamados ex-bolsonaristas também) permanecem intactos. O que os desune não são parâmetros ideológicos ou a agenda, mas a disputa pelo ângulo mais favorável para se aproveitar de uma onda conservadora.

Além disso, instabilidades por deficiente articulação de base governista são comuns não somente no Brasil, mas em todos os países que encontram dificuldades e barreiras estruturais para preservar suas instituições democráticas. Porém, tais processos, em algum momento, se estabilizam. Em cenários hipotéticos, o PSL poderia se rearticular internamente, ou mesmo se submeter a uma fusão com outro partido, ou ainda a despeito das legendas haver rearranjos de forças políticas para conduzir determinada agenda.

De toda forma, não obstante os múltiplos cenários possíveis, o fenômeno bolsonarista segue revelando a todos a sua natureza desarmônica e reativa, um misto de rejeição antissistêmica com oportunismo eleitoral. Restam mais três anos. Qual será o futuro?

*Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

 

]]>
0
“Bolsonaristas fazem teatro por prisão após 2ª instância”, diz historiador http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/bolsonaristas-fazem-teatro-por-prisao-apos-2a-instancia-diz-historiador/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/bolsonaristas-fazem-teatro-por-prisao-apos-2a-instancia-diz-historiador/#respond Thu, 17 Oct 2019 14:24:47 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=461

(Crédito: Reuters)

[RESUMO] Para avançar sua agenda autoritária e atiçar suas bases, bolsonarismo espera “fato novo” com eventual revisão da prisão após segunda instância pelo STF (Supremo Tribunal Federal). A decisão em benefício de Lula e de condenados pela Lava Jato é tudo de que precisam o presidente e seu entorno para reafirmarem o discurso “contra o sistema”, ou, em outras palavras, contra as instituições democráticas do país.

*Murilo Cleto

A partir de hoje (17), o Supremo Tribunal Federal volta a discutir a viabilidade da prisão após o esgotamento de recursos interpostos por um condenado em segunda instância.

Em 2009, quando se dedicou pela primeira vez ao tema, a Corte entendeu que a privação de liberdade só se daria depois do trânsito em julgado, prevalecendo o princípio da presunção de inocência. Há três anos, no entanto, no auge da crise política que ainda hoje assola o país, o ministros voltaram atrás.

Veja também

A tendência é que a disputa seja acirrada: os ministros Barroso e Fux, por exemplo, consideram uma nova revisão um retrocesso no combate à corrupção; Lewandowski e Marco Aurélio Mello tratam-na como necessária para garantia de direitos fundamentais do acusado.

É possível que o presidente da Corte, Dias Toffoli, seja obrigado a desempatar com um voto de minerva – ele defende uma tese intermediária de prisão após condenação pelo STJ, uma espécie de terceira instância.

Seja como for, o núcleo duro do bolsonarismo está a todo vapor nas redes sociais. Do blogueiro Allan dos Santos ao general Villas Bôas – este último, também assessor do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República – a pressão sobre os ministros do STF aumentou nos últimos dias.

Entre os articulistas da autoproclamada “mídia independente” – “independente da verdade”, para citar o teórico do Direito Horacio Neiva –, a ameaça é de golpe. Golpe mesmo, com menção ao AI-5 e tudo.

Mas a pressão bolsonarista por prisão após segunda instância é só teatro. É claro que trata-se de um estrato consideravelmente punitivista da sociedade brasileira, sedento por mais encarceramento e, especialmente, pela anulação política e social do ex-presidente Lula – paciente indireto das ADCs avaliadas agora pelo Supremo.

Mas o núcleo duro do bolsonarismo é muito mais do que isso. Ele é sobretudo um esforço para tensionar as relações do Planalto com as demais instituições, frequentemente desmoralizando-as para o avanço desenfreado da sua agenda autoritária. Porque é assim que as democracias morrem hoje – e não como no AI-5 de 1968.

Nos atos pró-governo dos últimos meses, o STF foi um dos alvos preferenciais. Mas havia pouco para reclamar da Corte. Pelo contrário: o ministro Dias Toffoli, um dos alvos preferidos do bolsonarismo durante as eleições, se engajou numa aliança entre os poderes e chegou a decidir em favor da família Bolsonaro no caso Queiroz.

O presidente se viu obrigado a recuar e abrir mão da tão reivindicada “Lava Toga”. Recentemente, o escritor Olavo de Carvalho chegou a dizer que o grande inimigo da direita no Brasil não é a corrupção, mas sim o Foro de São Paulo. Não é fácil ser antiestablishment no governo.

A revisão do entendimento pela prisão após segunda instância pode gerar o fato novo de que o bolsonarismo tanto precisa para, de um lado, manter vivo o tão necessário espectro do petismo e, de outro, atiçar as bases para novas campanhas contra os ministros do Supremo.

Dessa forma os bolsonaristas podem continuar brincando de antiestablishment enquanto os bons resultados não aparecem na economia – e em lugar nenhum.

Que a pressão não gere nem efeito sobre a Corte nem um novo AI-5, não tem tanto problema. A questão é performar para pelo menos acuar os demais poderes e colocar o golpe no horizonte de expectativas. O que vier a partir disso é lucro – certamente não para a democracia brasileira.

*Murilo Cleto
é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Cultura e Sociedade. É também pesquisador das novas direitas, professor, escritor e palestrante.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

]]>
0