Entendendo Bolsonaro http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo. Mon, 14 Sep 2020 17:53:59 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Trump vence no BID graças a Itamaraty acéfalo http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/trump-vence-no-bid-gracas-a-itamaraty-acefalo/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/14/trump-vence-no-bid-gracas-a-itamaraty-acefalo/#respond Mon, 14 Sep 2020 17:50:31 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1499

Indicado por Donald Trump, Mauricio Claver-Carone, advogado e funcionário público americano, foi eleito presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no último sábado (12)

Vinícius Rodrigues Vieira

Apoiado pelo Brasil de Jair Bolsonaro, o candidato de Donald Trump à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o estadunidense Mauricio Claver-Carone venceu no último sábado as eleições para comandar a instituição. Rompeu-se, assim, uma tradição que já perdurava desde a fundação do BID, em 1959: contando com quase um terço de capital estadunidense, o banco seria, numa concessão aos aliados de Washington, sempre comandado por um cidadão de um país latino-americano. O que ganhamos com isso?

Claver-Carone prometeu a integrantes do governo brasileiro lançar para a América Latina um Plano Marshall —alusão ao conjunto de projetos bancados pelos Estados Unidos (EUA) para reconstruir a Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Talvez Bolsonaro e seu chanceler Ernesto Araújo não saibam, mas, em sua concepção original, o BID era uma forma de compensar a América Latina pela ausência à mesma época de um grande programa de desenvolvimento regional, apoiado por Washington.

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Mais que uma concessão do nosso “grande irmão” do Norte, o BID foi a resposta do então presidente estadunidense Dwight Eisenhower à proposta de seu colega brasileiro Juscelino Kubistchek, em 1958, de os EUA lançarem uma Operação Pan-Americana, para combater a miséria na América Latina e, assim, amenizar a imagem negativa daquele país na região.

Ou seja, há seis décadas esperamos um Plano Marshall para a América Latina. Ele não veio quando, na percepção de Washington, o espectro do comunismo rondava o hemisfério ocidental no pico da Guerra Fria. Afinal, apoiar golpes de Estado, como o que deu origem à nossa ditadura militar, em 1964, era uma opção menos custosa à época.

Na visão de Bolsonaro e simpatizantes, hoje é o espectro do “comunismo” chinês que ronda a região e que, segundo os afeitos a teorias conspiratórias, teria provocado a pandemia. Porém, mesmo assim, pouco provavelmente teremos investimento estadunidense em massa, via BID, para nos recuperarmos economicamente no pós-covid. Ainda que Trump não seja reeleito em novembro, os EUA estarão focados em recuperar sua economia e, em caso de vitória do democrata Joe Biden, buscarão reconstruir pontes com a Europa, região mais crucial para conter a ascensão de Pequim.

Assim, a eleição de Claver-Carone é apenas mais um exemplo da submissão do Brasil aos EUA desde que Bolsonaro assumiu a presidência. Cabe destacar que, do ponto de vista de um governo assumidamente de direita, como é o caso da administração Bolsonaro, faria todo sentido aliar-se aos estadunidenses para ter um candidato conjunto ao BID. Isso porque Argentina e Mexico — os dois outros grandes países latino-americanos além do Brasil — estão sob governos à esquerda e procuraram adiar a eleição com o apoio de países europeus que, embora não possam tomar empréstimos do BID, contribuem para o banco.

Ademais, a China tornou-se tão poderosa na América Latina, financiando projetos e concedendo empréstimos, que se torna óbvio sob a lógica realista das relações internacionais que Brasil e EUA — os dois gigantes do hemisfério ocidental — se unam para conter a influência da principal potência emergente. Conforme sugeri acima, oferta de crédito para o desenvolvimento é uma das estratégias mais eficazes no pós-guerra de formação de alianças políticas.

Entretanto, o que não se encaixa neste quebra-cabeça geopolítico é o fato de o Brasil ter aceitado um candidato americano enquanto poderia ter barganhado a posição com Trump. Depois de, sob governos de esquerda, termos virado periferia chinesa, exportando produtos primários e, assim, fortalecendo domesticamente setores conservadores — como é o caso daqueles associados ao agronegócio —, cabia, sim, uma reaproximação com Washington para contrabalancear a influência de Pequim na América Latina.

Mas Bolsonaro faz uma política externa pior que a do PT ao sugerir que temos de escolher entre dois senhores — China ou EUA —, enquanto o Brasil tem todas as condições de ser senhor de si mesmo. Como diz o ditado, quando a cabeça não pensa, o corpo padece. O Planalto e o Itamaraty estão acéfalos, e o Brasil, na antessala da UTI para tratar, com chances reduzidas de sucesso, sua crise político-econômica.

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na pós-graduação da FGV


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Bolsonarismo projeta nos adversários o espelho de seus vícios http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/11/bolsonarismo-projeta-nos-adversarios-o-espelho-de-seus-vicios/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/11/bolsonarismo-projeta-nos-adversarios-o-espelho-de-seus-vicios/#respond Sat, 12 Sep 2020 02:33:21 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1495

(Crédito: Adriano Machado)

* Igor Tadeu Camilo Rocha

Na sua live semanal da última quinta (9), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), entre já costumeiras bizarrias, chamou a atenção por mais uma fala lamentável. Nela, dentro de um contexto de muitas piadas sexistas e defesa de trabalho infantil, dirigiu um comentário de duplo sentido, de teor sexual, a uma menina de dez anos que estava ali presente. Tratava-se de uma criança youtuber, que se apresenta como “repórter e apresentadora”.

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Não vem ao caso aqui discutir o teor da “piada” feita, a qual, segundo especialista ouvido pelo UOL, viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Nº 8069, de 13 de julho de 1990). Pretendo, em vez disso, pensar nas reações ao episódio. Nesse caso específico, é preciso problematizar a aparente zona de tensão que talvez se espere que surja quando uma figura política da extrema direita faz um comentário aludindo a tema sexual e dirigido a uma criança de dez anos, dentro de um contexto em que a mesma extrema direita usa o abuso sexual infantil e a sexualização de crianças como arma de ataque contra adversários políticos.

Pergunto: o quanto de abjeção Bolsonaro causou a seus eleitores e bases de apoio, sobretudo as mais reacionárias e moralistas, quando fez uma “piada” sexual a uma menina daquela idade? Antecipo a resposta, a qual espero, ao final do texto, explicar com maior detalhamento: nenhuma. E isso diz muito sobre a visão de mundo da extrema direita no geral, o que inclui o bolsonarismo.

É uma característica da extrema direita contemporânea ter na sua prática política completa uma repetição daquilo que acusa a esquerda de fazer. Nesse caso, tratam-se de acusações geralmente sem conexão com a realidade, baseadas em caricaturas que articulam teorias conspiratórias, fake news, além de um vasto campo de informações produzidas e reproduzidas nos vários ecossistemas de circulação de suas ideias e pressupostos, nos quais formam suas visões de mundo e identidades políticas. A prática dessa extrema direita, muitas vezes, imita a caricatura que ela mesma faz de seus adversários políticos – a esquerda, sobretudo, mas progressistas, centro-direita também inclusos – com a diferença dela ser de sinal oposto.

É melhor explicar esse ponto através de exemplos. Vejamos o movimento de extrema direita Escola sem Partido. Sua premissa central é baseada numa caricatura, construída em cima de uma teoria conspiratória de que os sistemas de ensino, fundamental e superior, teriam sido hegemonicamente tomados pela esquerda. Esta, através do controle dos professores, materiais didáticos e das versões hegemônicas dos conteúdos e interpretações deles (nos quais se inclui temas diversos como a teoria da evolução das espécies, a forma geoide da Terra ou o consenso sobre o nazismo ser de direita) doutrinaria os alunos e, assim, progressivamente, imporia seus valores sobre toda a sociedade.

E qual é a solução proposta pelo Escola sem Partido contra a doutrinação da esquerda nas escolas? Pois bem, a alternativa é assumir o controle dos sistemas de ensino, perseguindo e intimidando professores “doutrinadores” (somente de esquerda), alterando livros didáticos e interferindo diretamente no seu conteúdo, além de modificar profundamente os currículos segundo suas premissas ultraconservadoras. Em suma, combate-se o que o movimento chama de uma doutrinação à esquerda com outra fundamentalista, de extrema direita.

Outro bom exemplo está na narrativa dos programas policialescos, que ocupam grades de televisão e rádio desde o final da ditadura militar e são importantíssimos para que entendamos as formas de pensar do bolsonarismo.
Basicamente, tais programas apresentam a narrativa de que estamos no pior dos mundos, no qual se predomina uma violência e criminalidade onipresentes em um tempo/espaço tomado pela degeneração de todos os valores humanos. Segundo essa mesma narrativa, protege-se permanentemente aqueles que agem contra as leis e contrato social em detrimento do cidadão comum, ou “cidadão de bem”, que vive ilhado com seus valores tradicionais – trabalho, família, patriotismo, moral cristã, entre outros – num mar de corrupção.

E qual solução colocam no horizonte? Uma violência também onipresente, só que controlada pelo ethos do cidadão de bem, conformando o todo da sociedade aos valores com os quais se manteve ilhado durante todo o tempo, ainda que seja necessário usar de meios contrários às leis ou a qualquer contrato social – vingança, abuso de força policial, jurídica e estatal etc.

Alguns debates das últimas semanas sobre a PEC 32, a proposta apresentada pelo governo sobre a reforma administrativa, trazem também apontamentos nesse sentido. Durante muitos anos, diversos setores da direita brasileira (não somente a extrema) apontam para alguns vícios do funcionalismo público no Brasil, como a manutenção de privilégios de algumas categorias ou de o setor servir como cabides de empregos a governos e partidos em diversos contextos. A proposta apresentada pelo governo, contudo, preserva categorias do topo do setor público – ministros de tribunais superiores, procuradores, militares, etc. – além de atacar a estabilidade, abrindo brechas justamente para se criar cabides de empregos na administração pública, ao gosto de quem estiver no poder.

Nesse mesmo ponto, observo que a propaganda de Bolsonaro durante a campanha de 2018, na qual se contrapunha indicações ideológicas às técnicas, prometia ministros com capacidade reconhecida em detrimento de indicações políticas. Porém, não é preciso ir muito além de um Abraham Weintraub para dizer que o alinhamento ideológico ao bolsonarismo, e não qualquer mérito técnico comprovado, seja critério central para tais indicações.

Em suma, são muitos os exemplos de como a extrema direita opera criando uma caricatura com a qual enquadra e reduz seus adversários políticos a ela e, uma vez no poder, faz algo idêntico, só que segundo suas premissas ideológicas. E esse é um elemento central: sintetiza a visão de mundo maniqueísta da extrema direita, verificada no bolsonarismo. Fazer o que acusam os adversários de fazer, imitando sua forma e invertendo o sinal do conteúdo, é a essência de várias ações desse campo ideológico.

Voltemos aos exemplos: a doutrinação do Escola sem Partido, o aparelhamento implícito na PEC 33 ou a violência onipresente segundo os valores dos programas policiais possuem um caráter de reificação dos projetos de sociedade que permeiam as racionalidades bolsonaristas. Se a doutrinação conspiratória da esquerda é o problema que o Escola sem Partido se ergue contra, a correção desse problema seria doutrinar segundo negacionismos científicos, reacionarismo e ultraliberalismo econômico; se o problema então é um aparelhamento à esquerda que corrompe o Estado, outro à extrema direita corrigiria seus rumos; se a violência da criminalidade é um pesadelo, a violência perpetrada, conduzida e universalizada pelo cidadão de bem, patriota, branco, cristão e trabalhador seria um sonho. E assim vai, nos inúmeros exemplos citados e noutros possíveis.

Nesse mesmo sentido, não importa quantas milhões de vezes pergunte-se no Twitter sobre os R$ 89 mil recebidos pela primeira-dama, pois o raciocínio também vale para todas as formas de corrupção: se a corrupção é representada como a imoralidade suprema, o pior dos mundos e sinal de completa degeneração do tecido social quando serve de arma política contra adversários, ela é irrelevante ou um mal necessário se ela reificar a mudança desejada segundo o ideal bolsonarista de sociedade e Estado.

E o que isso tem a ver com a “piada” de teor sexual feita por Bolsonaro e dirigida à menina de 10 anos? No caso, o fato de que, assim como a corrupção e tantos outros exemplos, o episódio de sexualização da infância será irrelevante para a narrativa que direciona essa prática a seus detratores.

Em 2017, o caso do Queermuseu em Porto Alegre desencadeou uma onda de ataques de grupos de extrema direita, como o MBL, ou liderados por políticos do mesmo campo como Alexandre Frota e outros vários pelo Brasil, a museus e exposições de arte por todo o país. A acusação central que era feita pautava-se na premissa de que as peças exposição não se tratavam de arte, mas, sim, de incentivo ou prática de abuso ou sexualização infantil.

A recente teoria conspiratória do QAnon ou a acusação divulgada nas eleições de 2018, na qual o pseudo-filósofo Olavo de Carvalho afirmava que um livro do então candidato Fernando Haddad (PT) defendia incesto e pedofilia, mostram o potencial de uso político do tema. O mesmo pode-se dizer de outra tese conspiratória, da chamada “ideologia de gênero”.

Associar adversários ao abuso sexual infantil tem, politicamente, um duplo efeito: primeiro, o de levar o adversário nas urnas e no debate político para um campo além da política, colocando-o como inimigo, nesse caso, baseado na natural abjeção que o abuso sexual de crianças causa e deve causar nas pessoas. Um segundo, complementar ao primeiro, é o de fanatizar e criar coesão na sua própria base, que se une em torno de um sentimento quase religioso não baseado na ideia política de superar o adversário no campo democrático, mas sim na necessidade de eliminá-lo enquanto mal social.

Diante disso, Bolsonaro dificilmente será associado por essa extrema direita a qualquer sexualização da infância. Pelo contrário, ele permanece, no imaginário político dela, associado à defesa da infância contra esse problema. Essa extrema direita projeta os problemas do abuso infantil e sexualização de crianças sempre nos que estão opostos a eles no campo político. Em especial, projeta esses problemas sociais naqueles que defendem a educação sexual nas escolas como forma de identificar, denunciar e prevenir o abuso infantil. Necessário pontuar que o atual presidente antagoniza com tais figuras desde quando era deputado.

Cerca de 70% dos casos de violência sexual contra crianças acontece em casa, tendo familiares ou adultos de confiança e com acesso às crianças vítimas de abuso como seus agentes. Juntamente a isso, existe um consenso entre entidades de proteção à infância e adolescência, além de acadêmicos que estudam o tema, sobre a importância da escola no sentido de prevenir o abuso sexual infantil.

Mas Bolsonaro representa o projeto de esvaziar a escola de qualquer função social além de repasse mecânico dos conteúdos das disciplinas. Dessa forma, atuar contra a sexualização de crianças, nessa visão de mundo da extrema direita, é tarefa da família – o mesmo ambiente, como disse, no qual acontecem 70% dos casos. Trata-se de uma ideia de privatizar uma função do poder público, da sociedade e dos sistemas de ensino. E quando um crime dessa natureza for identificado, a violência do “cidadão de bem” como forma de aplacar a abordagem do problema pela chave do pânico moral é a solução posta no horizonte. É preciso entender que nessa chave maniqueísta a própria existência desse tipo de crime e de outros tem função importante na construção dos discursos, que é o de atiçar pânico moral e senso de justiça baseado no ódio ao outro e vingança.

A fala de Bolsonaro, inclusive, tem atravessado a ela alguns outros pontos do pensamento maniqueísta da extrema direita. Por exemplo, uma condenação à “piada” sexual dirigida à criança pode ser jogada no campo do “politicamente correto”, seguido de um típico “antigamente todo mundo fazia esse tipo de piada com crianças e ninguém reclamava” – e, obviamente, esse passado era melhor que hoje, já que, segundo a mesma visão, o abuso infantil seria produto de uma degeneração moderna.

Para concluir, devemos ter em vista a complexidade do problema: a visão de mundo maniqueísta do bolsonarismo, que atribui pesos e medidas diferentes para as mesmas ações, torna inútil denunciar certos episódios como o da live de quinta. Afinal, estamos falando de uma força política que se alimenta, precisamente, da crítica recebida por adversários, em regra impermeável às suas narrativas coesas.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

* * *

Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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No 7 de Setembro, Bolsonaro reinventa mito da identidade nacional http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/08/no-7-de-setembro-bolsonaro-reinventa-mito-da-identidade-nacional/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/08/no-7-de-setembro-bolsonaro-reinventa-mito-da-identidade-nacional/#respond Wed, 09 Sep 2020 01:44:39 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1490

Presidente Jair Bolsonaro faz pronunciamento de 7 de Setembro (Crédito: Reprodução)

* Bruno Frederico Müller

No último 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, o presidente Jair Bolsonaro conduziu mais um pronunciamento em rede nacional, no qual fez o que os mistificadores fazem de melhor: criou uma falsa linearidade histórica, com o propósito de reinventar a mitologia da identidade brasileira, centrada nas ideias de miscigenação e liberdade.

A identidade nacional começou a ser desenhada com a miscigenação entre índios, brancos e negros. Posteriormente, ondas de imigrantes se sucederam, trazendo esperanças que em suas terras haviam perdido. Religiões, crenças, comportamentos e visões eram assimilados e respeitados.

Jair Bolsonaro

A exaltação da miscigenação não é nada de novo na nossa história. Começa com o mito do Império falando do encontro dos povos que formaram o Brasil, os europeus, africanos e indígenas, como se não houvesse hierarquia entre eles, como se uns não tivessem sido escravizados e outros exterminados, e culmina nos trabalhos de Gilberto Freyre e o mito da democracia racial.

Já o mito da luta pela liberdade vem da ideologia da Guerra Fria, em que a liberdade se tornou sinônimo de capitalismo liberal, e culmina no discurso da extrema-direita americana contemporânea, na qual o fascismo brasileiro se espelha. Nos dois casos, trata-se de uma retórica que foi criada, alimentada e aperfeiçoada pelas Escolas Austríaca e de Chicago, berços do neoliberalismo, e que dizem que liberdade significa cortar impostos dos mais ricos e programas sociais dos mais pobres, deixar os desempregados e os mais vulneráveis à sua própria sorte, pois o Estado de bem-estar social é “o caminho da servidão”, e patrocinar golpes de Estado contra governos de esquerda.

Foi dessa forma que Bolsonaro conseguiu a proeza de colocar, numa falsa linha de continuidade, a independência do Brasil, a participação (hesitante e medíocre) do Brasil na Segunda Guerra Mundial e o Golpe de Estado de 1964.

Uma independência oligárquica que manteve a escravidão, uma adesão de conveniência às potências aliadas por uma ditadura que passou quase dez anos flertando com o fascismo e um golpe de Estado que depôs um presidente com uma agenda que visava transformar o Brasil numa democracia plena, projeto interrompido pela imposição de uma ditadura de 21 anos, sob pretexto do combate ao comunismo. Três momentos de reafirmação da adaptável e antidemocrática cultura política das elites brasileiras, mistificados como símbolos da gloriosa e vitoriosa luta de um povo pela liberdade. Está criado o mito fundador do fascismo brasileiro.

Fiquei curioso para saber quem foi que redigiu o discurso, pois certamente o presidente não tem a destreza necessária para articular essas ideias. Eu apostaria em Filipe Martins, o olavista integrante do Gabinete do Ódio e recentemente promovido assessor chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais da Presidência.

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Não há grandes novidades nesse discurso para quem vem estudando o bolsonarismo antes mesmo dele chegar ao poder, e alertando desde o início para o fato de que este governo é uma coalizão de liberais e fascistas. Ainda assim, o pronunciamento chama atenção pelo fato de que pela primeira vez a ideologia bolsonarista foi minimamente sistematizada. Assim como chama atenção porque esta é a milionésima prova de que, não, o governo Bolsonaro não foi domesticado e, não, a influência olavista não foi neutralizada.

No entanto, parte dos liberais na oposição segue se surpreendendo com o governo, demonstrando que não o compreende. Alimentam falsas interpretações que o dividem em “núcleos” (militar, tecnocrático e ideológico), o que lhes permite adiar a pressão pela destituição de um governo antidemocrático que já cometeu dezenas de crimes de responsabilidade e desobrigar-se de fazer a mesma autocrítica que cobram da esquerda – separando artificialmente os liberais no governo dos radicais de direita, em vez de tentar entender porque tantos liberais se sentem confortáveis nessa coalizão.

Trata-se de um comportamento conveniente, já que, dessa forma, eles podem continuar criticando o governo e apoiando suas “reformas” liberais, que seguem a mesma linha elitista, antidemocrática, demofóbica e assassina do fascismo escancarado da dita “ala ideológica”.

Nesse mesmo fim de semana, porém, o que mais captou a atenção da esquerda foi a entrevista do cantor e compositor Caetano Veloso em que ele abjurou seu próprio passado liberal, sob influência do historiador Jones Manoel, que vem ganhando proeminência nas redes sociais advogando teses revisionistas sobre a ditadura de Josef Stalin, contribuindo para sua reabilitação e de seu regime genocida e totalitário. Os dois fenômenos não são paralelos.

A radicalização antidemocrática de parte da esquerda é uma resposta direta ao avanço da extrema-direita no Brasil. Alguns insistem na irrelevância de falar dessa extrema-esquerda ou “falsa simetria” da comparação, porque, sim, a extrema-direita hoje é muito maior, mais forte, e está no poder. Mas não podemos descuidar de combater também os mitos e revisionismos da esquerda autoritária, sob pena de a democracia ser esmagada, num horizonte não tão distante, pela pressão dos extremistas – mesmo que um desses extremistas sirva apenas de pretexto para os outros.

O pior aspecto deste pronunciamento do 7 de Setembro é que, ao se apropriar de um valor iluminista – a liberdade – e de um costume que só é bem-vindo em sociedades livres – a miscigenação – o fascismo brasileiro promove uma distorção que tem como um dos resultados uma reação em sentido contrário, emotiva, instintiva, de rejeição destes valores e costumes, pela esquerda. Essa rejeição não é nova, vem da ascensão do identitarismo de esquerda, que com seus atos e discursos relativiza a liberdade de expressão, defende a censura e os julgamentos virtuais e encara a miscigenação como um apagamento das identidades minoritárias.

Mas à medida que liberdade e miscigenação passam a ser marcadores da identidade nacional fascista, a tendência é que a esquerda, em vez de disputar o sentido desses conceitos e denunciar a forma fraudulenta com que a extrema-direita os emprega, reforce e amplie seu flerte com o autoritarismo e até com o totalitarismo – é aqui que stalinismo e identitarismo se encontram, numa coalizão tão perigosa quanto a dos liberais e fascistas.

A novíssima esquerda que surge com o identitarismo e a reabilitação do stalinismo é totalitária na medida em que se pauta não pela liberdade, pela separação entre público e privado, pelo reconhecimento do direito ao pensamento divergente, mas pela urgência em transformar radicalmente a sociedade, valendo-se de mecanismos de controle e vigilância e pela estigmatização e perseguição da divergência – que será sempre liberal e fascista (não nos sentidos descritivos rigorosos que empregamos nas ciências sociais, mas como vagos insultos políticos), racista, machista, homofóbica, LGBTfóbica, com o objetivo de deslegitimar qualquer oposição e interditar o debate.

Esta novíssima esquerda já existia, mas agora avança como uma forma de identidade reativa e irracional ao sequestro que o liberal-fascismo fez dos valores iluministas, da liberdade, da humanidade universal, e até da igualdade. Essa atitude não nos levará a lugar nenhum. Mais do que saber o que ela quer ser, a esquerda precisa descobrir o que ela precisa ser no Século XXI para, ao mesmo tempo, ser alternativa tanto ao liberalismo quanto ao fascismo – separados ou coligados –, e não cometer os mesmos erros que cometeu no Século XX.

* Bruno Frederico Müller é doutor em História pela UERJ, escritor e tradutor.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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“Sem coordenação nacional, a situação seguirá piorando”, diz pesquisadora http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/01/sem-coordenacao-nacional-a-situacao-seguira-piorando-diz-pesquisadora/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/09/01/sem-coordenacao-nacional-a-situacao-seguira-piorando-diz-pesquisadora/#respond Tue, 01 Sep 2020 03:00:44 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1485

“Nenhum outro país trocou a liderança na gestão da Saúde durante a pandemia” (Crédito: IEA/USP).

* Cesar Calejon
Quando a pandemia causada pela covid-19 estiver efetivamente encerrada – ao que tudo indica, em algum ponto do segundo semestre de 2021 – e os pesquisadores voltarem os seus esforços para entender como o Brasil registrou sozinho um número maior de óbitos causados pela doença do que todos os seus vizinhos sul-americanos somados, haverá três aspectos elementares a serem aprofundados.

O primeiro deles é o simbolismo presidencial, que ao longo de toda a pandemia negou a ciência e as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) junto à população brasileira; o segundo, a ausência da coordenação federativa, como resultado da falta de liderança e articulação da administração Bolsonaro nos âmbitos federal, estadual e municipal para a formulação de políticas públicas (de saúde e civil) eficazes; e o terceiro será a subnotificação de casos, devido aos baixíssimos níveis de testes que foram realizados na população brasileira e à morosidade do governo federal em adquirir os reagentes necessários para viabilizar o processo em ampla escala.

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Para aprofundar este debate com o devido respaldo científico, esta semana o blog conversou com Lorena G. Barberia, professora livre-docente do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e pesquisadora atuante na linha de frente do combate à pandemia.

“Estamos realizando várias pesquisas para avaliar as respostas do governo federal, (governos) estaduais e municipais (frente à pandemia). A nossa pesquisa mais recente foca na resposta das políticas de saúde e nas medidas de contenção da pandemia”, introduz a professora, que vem colaborando com pesquisadores internacionais da Universidade de Oxford.

“Na ausência de vacinas e medicamentos para curar os infectados, a OMS recomendou o aumento do distanciamento físico e a adoção de medidas econômicas e sociais que ajudassem a população a sobreviver em meio à crise e a permanecer em casa. Desde março, o boletim mais recente que produzimos mostra que o governo federal adotou medidas para fragilizar as políticas estaduais e municipais voltadas a aumentar o distanciamento físico”, explica Barberia.

De acordo com ela, as administrações federais prévias, que foram conduzidas por diferentes partidos políticos, foram mais capazes de articular respostas coordenadas para as crises sanitárias do que a atual gestão brasileira.

“No gerenciamento de uma pandemia, um país precisa ativar um sistema de emergência com regras e responsabilidades bem definidas. No Brasil, os enfrentamentos das pandemias mais recentes foram conduzidos com estratégias claras do governo federal, de modo a orientar o SUS (Sistema Único de Saúde) e coordenar a ação dos estados e municípios. Foi assim nos casos da AIDS, do H1N1 e da SARS, que deram crédito ao Brasil no plano internacional. No caso da covid-19, isso não aconteceu. O governo federal não apresentou qualquer estratégia elaborada para combater a pandemia no âmbito nacional”, garante a pesquisadora.

“Além das ações mais evidentes de intervenção na saúde da população”, prossegue ela, “como a criação de hospitais de campanha, a habilitação de leitos de UTI COVID-19 e a manutenção de unidades de saúde básica, o governo federal também possui outras atribuições na gestão de emergências de saúde. Ao comparar (a gestão de Jair Bolsonaro) com outras federações, torna-se evidente que os casos de sucesso se destacam por ter coordenação no nível nacional, ainda que os governos subnacionais tenham um papel importante na implementação e até na definição de prioridades dentro de seus territórios”.

A pesquisadora da USP conta que vem estudando as respostas de países que obtiveram resultados mais eficazes contra a doença, como Argentina, Alemanha e Canadá, e casos mais problemáticos, como os EUA e México. “Todas são federações, ou seja, países nos quais os governos subnacionais têm maior autonomia”, ressalta.

Sobre quais seriam os pontos preponderantes para explicar o êxito dos países estudados, ela aponta: “várias diferenças importantes. No caso do Brasil, houve a troca do ministro da saúde duas vezes e o atual responsável, o general Eduardo Pazuello, está no cargo há cerca de noventa dias como interino. Os outros países não trocaram a liderança na gestão da pasta durante a pandemia”.

“Além disso, as nações que lidaram com a pandemia de forma mais eficiente desenvolveram rapidamente a capacidade de testagem, adquiriram tecnologia e a habilidade de divulgar estes protocolos foi coordenada pelas autoridades sanitárias nacionais desde as primeiras semanas de janeiro de 2020 ao longo dos seus territórios”, enfatiza Barberia.

Segundo ela, no caso do Brasil, a capacidade de testagem foi concentrada em São Paulo e Rio de Janeiro, inicialmente, e demorou a chegar ao resto do país.

“Houve testagem em massa e rastreamento de contatos desde o início (da pandemia) em vários destes países. Houve alta coordenação nas medidas adotadas pelos governos subnacionais e o governo federal exerceu um papel importante em coordenar essas respostas nestes países”, explica a professora.

“Ao fazermos essa comparação com outros países, fica evidente que o Brasil tem um número bem maior de óbitos do que os outros países pelas falhas que apontamos acima: falta de testagem, falta de apoio às medidas recomendadas pela OMS, falta de liderança e coordenação de políticas de saúde para todos os níveis da nação. O governo federal brasileiro adotou políticas que estão absolutamente na contramão das medidas recomendadas pela OMS”, aponta Barberia.

Ainda de acordo com ela, as mensagens transmitidas à população por meio do simbolismo presidencial vêm agudizando a crise sanitária no Brasil.

“O presidente fala contra as medidas que têm sido comprovadas cientificamente para evitar e diminuir a transmissão do vírus pela OMS. Dessa forma, as falas da liderança geram confusão na população sobre se há que aderir ou não ao distanciamento físico, a usar máscaras, tomar certo tipo de medicação, a evitar aglomerações e procurar ficar em casa, por exemplo”, ilustra a pesquisadora.

“As nossas pesquisas que analisam a evolução da pandemia na federação ajudam a entender como chegamos a superar 100 mil, mas também alertam que podemos adotar políticas para diminuir o número de casos e óbitos. Quando se observa o número de novas mortes por milhão de habitantes, o Brasil desponta em primeiro lugar com 33 novos óbitos, colocando-se à frente dos EUA, que registraram 24 novos óbitos entre 2 e 8 de agosto. Sem coordenação nacional no enfrentamento da pandemia, a situação vai continuar piorando”, conclui Barberia.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro “A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI” (Lura Editorial).


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Bolsonarismo enxerga raça como entrave a seu projeto de nação http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/31/bolsonarismo-enxerga-raca-como-entrave-a-seu-projeto-de-nacao/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/31/bolsonarismo-enxerga-raca-como-entrave-a-seu-projeto-de-nacao/#respond Mon, 31 Aug 2020 13:25:42 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1479

Mais “centrista”, o novo bolsonarismo se desloca da supremacia branca pregada por Ernesto Araújo. Temos um vácuo de projeto nacional, a ser preenchido por uma aliança entre brancos e não brancos de centro e centro-esquerda (Joédson Alves/EFE).

[RESUMO] O bolsonarismo raíz claramente flerta com aspectos do nacionalismo branco e concebe o Brasil como um país essencialmente cristão. À medida que o presidente Jair Bolsonaro adota um centrismo de fachada, há espaço para o ressurgimento da democracia racial como mito. Apenas uma aliança entre centro e esquerda, diversa entre brancos e não brancos, e que rejeite modelos importados de combate à discriminação pode impedir tal processo. A real batalha das forças democráticas contra o bolsonarismo não é pelo bem-estar material dos mais pobres, mas pela alma da nação.

Vinícius Rodrigues Vieira

Agosto termina carregado de simbolismos para a luta contra o racismo. Iniciados em maio, após a morte brutal de George Floyd por um policial, os protestos que denunciam a violência policial contra negros nos Estados Unidos ganharam nova força após a abordagem covarde de oficiais de segurança pública no Estado do Wisconsin contra Jacob Blake, também afro-americano, que ficou paraplégico. Chadwick Boseman, intérprete do super-herói africano Pantera Negra — também rei da futurista Wakanda — faleceu de câncer em 28 de agosto, mesmo dia em que, 57 anos antes, Martin Luther King fez seu discurso histórico em que expressou sua visão de uma América em que todos seriam tratados sem distinção de cor ou raça, gerando comoção ao redor do mundo.

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E o Brasil? O que temos a ver com isso? Em meio a seu simulacro de moderação política, o presidente Jair Bolsonaro deu sinais de, muito embora ainda não ver questões raciais como centrais aos debates sobre nacionalidade no Brasil, reconhecer que existe racismo no país. Oportunisticamente, Bolsonaro move-se para o centro da questão racial, tal como na condenação da discriminação sofrida por um motoboy em Valinhos.

Embora seja aparentemente bem intencionada, a fala de Bolsonaro ecoa como um grito que silencia a luta contra a discriminação racial. Por um lado, o presidente deixa de se alinhar a uma concepção pré-Freyriana — isto é, antes da defesa da miscigenação conforme detalhado na obra de Gilberto Freyre, após a publicação de seu clássico Casa Grande e Senzala, em 1933 — de identidade nacional, que vê o Brasil como essencialmente ocidental. Tal postura foi sobretudo expressa pelo chanceler Ernesto Araújo, conforme expliquei em análise de seu discurso de posse, em janeiro de 2019, e no manifesto do Aliança pelo Brasil, o partido bolsonarista em formação.

Por outro, Bolsonaro vê na afirmação de identidades étnicas — pelo menos as de negros e indígenas — uma tentativa de divisão do país. Afinal, os governos do PT — inimigos mortais do bolsonarismo — promoveram políticas de ação afirmativa com base em cor ou raça, além de terem desenvolvido políticas específicas para quilombolas e povos indígenas. Seria interessante saber se Bolsonaro também tem reservas aos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) espalhados em regiões dominadas pelo agronegócio que, segundo relatos, segregam patrões brancos, oriundos do Rio Grande do Sul, dos trabalhadores pardos e pretos locais do Centro-Oeste e do Matopiba — a última fronteira da soja, na junção dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Na lógica bolsonarista que flerta (mas não se casa) com o centro, o Brasil é predominantemente ocidental, sendo esse traço principal expresso na religião, haja vista que, somados, católicos e outros segmentos do cristianismo somam aproximadamente 90% da população. Segundo tal leitura, podemos ter não brancos entre os brasileiros, desde que não sigam tradições culturais de origem africana ou impactadas pelos povos do outro lado do Atlântico Sul. Não à toa, no Rio de Janeiro, Estado com grande proporção de evangélicos e base eleitoral principal da família Bolsonaro, os relatos de destruição de terreiros — muitas vezes promovidos por traficantes — se avolumaram nos últimos anos.

No país do bolsonarismo pretensamente centrista, não há espaço para manter cotas raciais na pós-graduação, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em resposta à consulta apresentada pela deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) e pelo Educafro (entidade que sempre esteve na vanguarda das demandas por cotas), estabeleceu uma reserva para candidatos negros, proporcional à sua participação nas chapas a partir de 2022.

Talvez surjam na Justiça Eleitoral, tal como nas universidades, as chamadas comissões de verificação de autodeclaração — que se assemelham a tribunais raciais. Não obstante as controvérsias cercando essas comissões, algum controle deve ser necessário para evitar desvio dos fundos. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, teria direito a recursos do fundo por ter se declarado como pardo em 2018, classificação depois corrigida. Para o IBGE, não há a categoria negro. Negro equivaleria a soma de pretos e pardos.

À esquerda, o fundo é visto como vitória, muito embora equiparação de pardos a negros silencie outras identidades, como aquela de descendentes de índios e brancos — o alto percentual de pardos em estados da região Norte indica que pardo é também uma categoria escolhida por tais mestiços.

Aliás, esse debate remete às desigualdades entre brancos de origens distintas e à relativa boa situação econômica de grupos que, todavia, são culturalmente discriminados. Ao escrever este artigo, dei-me conta de que todos meus chefes em 18 anos no mercado de trabalho ostentavam sobrenomes japoneses, judaicos, italianos ou alemães. A exceção foi um “Santos”, descendente de, digamos, uma família “bem relacionada” do Maranhão.

No melhor do meu conhecimento, um silêncio quase sepulcral na academia sobre as eventuais desigualdades entre brancos no Brasil, decorrentes de sua origem étnica. Um dos poucos trabalhos desenvolvidos nessa seara é um texto para discussão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), do pesquisador Leonardo Monasterio, que indica que brancos com sobrenome ibérico têm ganhos médios menores que aqueles com sobrenomes alemães ou italianos.

Antes disso, com base em dados da antiga pesquisa mensal de emprego, de junho de 1998, parcialmente disponível no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi identificado que, dos brancos, aqueles com ancestralidade árabe e judaica são os mais ricos. Na rabeira, vinham os que descendem de alemães, em tese mais claros e, portanto, mais valorizados pelo fenótipo na lógica racista que ainda governa as relações sociais no Brasil.

Porém, diferentemente dos autodeclarados brancos, mas com ancestralidade italiana ou portuguesa, “alemães” estavam há 20 anos concentrados nos estados do Sul, menos ricos que São Paulo, cujas lavouras de café receberam milhares de migrantes da Itália. Há, portanto, desigualdades regionais misturadas às raciais. Os dados sobre renda não estão disponíveis online, mas foram por mim citados no livro Democracia Racial, do Discurso à Realidade: Caminhos para a Superação das Desigualdades Sociorraciais Brasileiras (Paulus, 2008).

Tais diferenças por ancestralidade entre brancos nos levam, portanto, a levantar a hipótese de que brancos brasileiros praticam o que no contexto americano é denominado “etnicidades opcionais”, conceito desenvolvido pela pesquisadora Mary Waters, segundo o qual brancos assumem sua ancestralidade caso queiram já que estão “diluídos” após dolorosos processos de assimilação. Fácil, portanto, criticar os irmãos negros por louvarem Wakanda enquanto, no íntimo, os irmãos brancos orgulham-se dos legados encarnados em Roma, Madrid, Lisboa e demais capitais ocidentais dos países de seus ancestrais.

Ao relatar os fatos acima, não estou cometendo, segundo Bolsonaro, o pecado de dividir o povo brasileiro. Este é segmentado, aliás, como são as populações de todos os países do mundo, inclusive aqueles que, após séculos de tentativa de unificação cultural e linguística, como na Europa, ainda possuem identidades étnico-raciais significativas.

Ironicamente, a tese de Bolsonaro sobre sermos um povo único não se sustenta em sua própria chapa. O vice-presidente Hamilton Mourão declarou-se indígena ao TSE, tendo, de fato, ancestrais no Estado do Amazonas. Como ele mesmo disse em agosto de 2018, “[e]stá aí essa crise política, econômica e psicossocial (…) Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. E eu sou indígena, meu pai era amazonense. E a malandragem é oriunda do africano. Então esse é o nosso cadinho cultural”.

Mais que expressão do bolsonarismo raíz, a fala de Mourão reflete o centrismo nas relações raciais brasileiras — isto é, seu normal. Todo mundo que vem de família mestiça sabe disso. A prole branca, quiçá loira, e descrita como bela e inteligente, restando outros adjetivos aos morenos (isso fica mais óbvio quando se nasce claro e sua pele muda). Como escreveu Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, eivado de algum preconceito, “Portugal é por excelência o país europeu do louro transitório ou do meio-louro. Nas regiões mais penetradas de sangue nórdico, muita criança nasce loura e cor-de-rosa como um Menino Jesus flamengo para tornar-se, depois de grande, morena e de cabelo escuro.

A mestiçagem, neste centrismo racialista que precede o bolsonarismo e tem suas origens no varguismo, seria uma estratégia para, como ainda ouvimos por aí, “evoluir a raça”. Conceito sociológico, é tido como biológico ainda pela maioria da população, tornando-se, portanto, incômodo para os que procuram um consenso forçado. Não à toa, para o bolsonarismo raíz, o cerne da nacionalidade reside na religião, em contraponto ao elogio à mestiçagem e sincretismo da era pós-Vargas, atualizado no pós-democratização na forma de um multiculturalismo à brasileira, com raça sem etnicidade.

A esquerda, no combate ao unitarismo bolsonarista e ao centrismo racialista, busca dotar a raça de etnicidade. Parece-me impossível não ver essencialismo em setores do movimento negro que defendem não apenas o resgate da cultura afro e suas contribuições para a cultura nacional, mas o discurso (muitas vezes implícito) que todos de pele escura devem praticá-la.

Trata-se de um birracialismo que ecoa a lógica anglo-saxã, herdeira do puritanismo protestante que, combinado ao iluminismo, gerou a obsessão de categorizar o mundo, inclusive os indivíduos. Como também expliquei em Democracia Racial, com base em referências secundárias, as noções contemporâneas de raça e nação surgem no contexto pós-reforma. O Brasil evangélico também parece estar interessado em colocar as coisas em seu devido lugar, como sugere a manifestação — ora implícita, ora ostensiva — de lideranças ditas cristãs contra elementos da cultura nacional, notadamente o Carnaval, festa em que o sincretismo — goste-se dele ou não — expressa-se em sua plenitude.

Tentativas do catolicismo à esquerda de reconhecer a mestiçagem e, portanto, o sincretismo, acabaram sufocadas pelo avanço do birracialismo em seu campo ideológico e, à direita, pelas denominações evangélicas. Dom Pedro Casaldáliga, o bispo vermelho que também nos deixou em agosto, fez em parceria com Milton Nascimento e Pedro Tierra em 1982 o disco Missa dos Quilombos, uma obra magistral desde o ponto de vista cultural, demonstração cabal de que, mais que expressão de um “projeto de branqueamento” das elites, a mestiçagem e o sincretismo podem servir de base para a construção de uma nação inclusiva. Como argumentado pelos pesquisadores Antonio Luigi Negro e Ana Cristina Rocha, em Salvador, nossa Roma Negra, a cultura negra e sincrética se impôs sem, porém, implicar em mudanças na hierarquia econômica-racial.

O Brasil não foi construído com base numa oposição birracial cultural, entre brancos e não brancos. Dito isso, muito embora o birracialismo seja uma construção estrangeira, quando o Estado se manifesta no micro-nível, quem é branco fica claro. Como se diz, no Brasil, a polícia sabe quem é negro ou não. Enquanto escrevia este texto, nossos George Floyds e Jacob Blakes sofriam experiências terríveis nas mãos de autoridades e de seus pares, reduzindo, assim, as chances de que se tornem Chadwick Boseman — ou seja, cidadãos bem-sucedidos, respeitados independentemente de sua raça. De fato, segundo o Atlas da Violência, entre 2008 e 2018, a taxa de homicídios entre pretos e pardos subiu quase 12%, havendo movimento inverso entre brancos, indígenas e amarelos.

Numa era de nacionalismos, não convém deixar com a direita o monopólio da identidade nacional, ainda mais porque movimentos transnacionais legítimos, como é o caso da busca pela negritude, correm o risco de serem rotulados como quinta-coluna. A defesa de uma nacionalismo cívico em torno de valores que reconheçam a singularidade da formação histórica do Brasil, em que o birracialismo é um elemento estranho, torna possível a unidade na diversidade para além da retórica vazia. O aparente naufrágio do Aliança pelo Brasil abre uma janela de oportunidade para que o centro e a esquerda encontrem uma alternativa que não repita o mito da democracia racial sem, no entanto, reproduzir modelos estrangeiros limitados.

Aproveitar tal janela envolve, sobretudo, deixar o debate aberto a todos que querem dele participar. Nesse sentido, a academia, predominantemente branca, em muitos casos dominada por colegas de ancestralidade não ibérica, deve receber novas vozes, novas ideias além dos modelos enlatados.

Kamala Harris, de ancestralidade indiana e jamaicana, pode chegar lá, virando a primeira vice-presidente não branca dos Estados Unidos, tal como Barack Obama fez história sendo o primeiro mandatário não branco do país. Na base, enquanto não houver cidadania de fato, Georges e Jasons serão dizimados no país-modelo para ações afirmativas. O mesmo se aplica ao Brasil: de nada adiantará o aumento da representatividade na política e a eventual derrota do bolsonarismo em 2020 se velhas ideias e práticas prevalecerem. Wakanda forever, mas sem nos esquecermos da nossa eterna Roma Negra.

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na pós-graduação da FGV


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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As raízes metafísicas da extrema direita: uma conversa com B. Teitelbaum http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/30/as-raizes-metafisicas-da-extrema-direita-uma-conversa-com-b-teitelbaum/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/30/as-raizes-metafisicas-da-extrema-direita-uma-conversa-com-b-teitelbaum/#respond Sun, 30 Aug 2020 18:13:03 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1473

O pesquisador Benjamin Teitelbaum, estudioso da filosofia Tradicionalista, que inspira grandes figuras da extrema direita global, como Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Alexander Dugin (Crédito: American Swedish Institute).

* Por: Leopoldo Cavalcante

Em conversas habituais, é comum utilizar a palavra tradicionalista para descrever um indivíduo preocupado com as mudanças de comportamento social de sua comunidade. Alguém apegado a modos do passado e temeroso de uma sociedade que, num curtíssimo espaço de tempo, parece ter abandonado o que seria a sua essência.

Mas há um outro Tradicionalismo, que vai muito além do comportamento social. O uso da letra maiúscula na palavra não é em vão. Trata-se de uma doutrina filosófica que atribui um sentido muito particular à existência humana e à natureza do tempo. Essa filosofia está presente nos círculos da extrema direita global, do qual o Brasil, junto com Estados Unidos, Rússia, Hungria, dentre outros, hoje faz parte.

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Em seu livro, “War for Eternity: Inside Bannon’s Far-Right Circle of Global Power Brokers”, publicado abril deste ano, Benjamin Teitelbaum, professor assistente de etnomusicologia e relações exteriores na Universidade de Colorado em Boulder, traça a influência do Tradicionalismo na política contemporânea, precisamente sobre algumas das figuras que são chave para compreender a extrema direita no mundo.

Além de aprofundar-se na vida e na biografia intelectual de Steve Bannon, Alexander Dugin e Olavo de Carvalho, todos com alguma passagem pelo Tradicionalismo, Teitelbaum também relembra casos na história recente, principalmente na Hungria, de membros dessa filosofia tentando entrar na política. Em geral, o pesquisador comenta: “eles não se importam em ganhar”. E não ganhavam.

Com a ascensão dos populismos de extrema-direita, entretanto, o Tradicionalismo ganhou espaço na política institucional. Que essa filosofia ajudou a avançar pautas isolacionistas, nacionalistas e antimodernas, como a negação da pandemia de covid-19, não parece haver dúvidas. Mas, de acordo com o pesquisador, não se poder cair na tentação de supervalorizá-la.

Em conversa com o blog, Teitelbaum frisou como, acima de tudo, “essa é uma história sobre fracasso”.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

O senhor apontou que o Olavo não é, e isso vai soar estranho, um Tradicionalista tradicional. Em uma passagem do seu livro, ele é classificado mais como um comentador e um acadêmico independente do que um filósofo.

Essas são atribuições da sua vida profissional. Ele gosta de falar de seus estudantes, de ser professor. Mas o modo como ele entrou em contato com Bolsonaro foi por seus comentários na esfera pública. Eu não sei se Bolsonaro já ouviu falar de René Guénon [autor esotérico francês e uma das principais inspirações do Tradicionalismo], por exemplo. Eu adoraria estar lá para esse encontro.

Parte do que é interessante no Olavo é a combinação de sua persona. Ele tem crenças filosóficas tangíveis e concepções sobre o mundo, e ele também é um jornalista, um comentador e uma personalidade nas redes sociais.

Eu acho que a influência do Tradicionalismo é visível no modo que ele escreve e pensa, mesmo ele não querendo ser identificado como Tradicionalista. Ele se coloca como católico. Talvez como anticomunista, ou antimarxista, também. Mas ele realmente só quer ser uma pessoa livre de qualquer amarra. É por isso que ele recusou uma posição no governo Bolsonaro. Ele não queria fazer parte de uma coletividade.

Deve ser por isso que ele reage tanto à palavra “círculo” no meu livro; tendo quase uma reação manicomial. Ele quer ser confuso e único. E ele quase é.

Seguindo nessa linha, a imprensa não sabe bem como chamar Olavo de Carvalho. Devemos designá-lo como filósofo, escritor, professor, youtuber ou influenciador? Todos juntos? Só os últimos dois? Mesmo assim, ele continua sendo o intelectual mais influente na política brasileira atual.

Tem muito a ser discutido sobre isso. O que você acabou de descrever é uma síntese do próprio Olavo. Não dá para caracterizá-lo bem. Sua história de vida também é muito confusa. Ele agrupou identidades muito contraditórias. Esqueça a política e os comentários que ele solta. Olavo já viveu tantas identidades em sua vida. Adicione também o fato que ele investiu na ideia de ele mesmo ser um indivíduo completamente único. De certa forma, isso o torna fascinante. Com certeza, tornou-o fascinante para mim, como escritor.

Sua apresentação da vida regressa de Olavo, como membro da tariqa [organização esotérica com inspiração islâmica] e ligado a Frithjof Schuon [filósofo suíço, da tradição perenialista de René Guenon], parece ter feito com que ele voltasse a falar dessa época. Não era um assunto tão comentado por ele. No entanto, em entrevista para a BBC Brasil, publicada em maio desse ano, Olavo fala do senhor e esclarece essa passagem mais obscura da própria vida de maneira quase voluntária.

Quando eu estava pesquisando para o livro, eu me perguntava o quanto os brasileiros sabem desse passado. Não que eu ache que seja um escândalo – que alguém deva ser odiado ou escarnecido por causa disso necessariamente. Eu percebi que ele escreveu algumas vezes sobre sua relação com o islã e com Frithjof Schuon quase como piada. Uma delas é quando ele escreveu algo na linha de: “Talvez eu possa superar a minha história na tariqa, mas eu nunca limparei a mácula de ter sido jornalista”.

Enfim… Eu me perguntava se seus seguidores, ou um brasileiro médio, teriam a mínima noção do que é uma tariqa. A maior parte dos americanos não tem a menor ideia. Não é parte do nosso vocabulário. Então eu parti do pressuposto de que isso não seria conhecimento comum.

No primeiro capitulo do seu livro, o senhor diz: “Estudar radicais da direita contemporânea é estudar o movimento politico mais transformador do início do século XXI. É testemunhar a história”. O que ela nos mostrou até agora?

Boa pergunta. Vamos voltar para o começo do século. Esqueça Dugin, Bannon e Olavo – e também Gabor Vona e Tibor Baranyi, na Hungria. O populismo de direita impôs a maior ameaça ao liberalismo – no sentido de direitos individuais e democracia liberal – em décadas. Desde a Segunda Guerra Mundial. E fez isso operando pela democracia, não contra ela. É uma situação inédita, historicamente.

Seria uma conclusão muito conservadora dizer que isso mostra uma diversidade na atração exercida pelo populismo de direita. Apoiando essa direita, nós vemos tanto banqueiros ricos quanto massas rurais sem instrução.

Aliás, nós vemos também ocultistas. Eles encontraram seu modo de fazer parte dessa causa. Isso mostra quão abrangente ela é. Mas se limitar a isso não explica por que todos eles estão em posição de poder, emanando um mesmo tipo de soft-power intangível.

A direita transformou potencialmente – ou tentou, pelo menos – a direção óbvia que a história estava tomando, a saber, integração entre povos, aumento das políticas estatais, crescimento de entidades políticas e a globalização. Só isso já a torna especial.

Qual o apelo do Tradicionalismo nessa grande história da direita radical contemporânea?

Vamos voltar um pouco. O que fazer com o fato de que essa ideologia política chamada de Tradicionalismo não é uma ideologia política? Ela foi forçada dentro da política – mas não é política. O que fazemos do fato de que o mesmo tipo de figura, mais ou menos, brotou em vários lugares? É uma grande pergunta.

Eu não sei. Eu não sei se fecho essa pergunta no livro. Ainda estou estarrecido com isso. Não tenho certeza se a atração ao Tradicionalismo tem a ver com o fato de que nos mais altos níveis de poder você vai ter pessoas que são tão radicais e que buscam ir tão mais longe do mainstream que elas acabam encontrando caminho para o Tradicionalismo. É uma possibilidade. Afinal, é uma filosofia que combina radicalismo e a vontade de se libertar do status quo.

Olhar além do comunismo, liberalismo, democracia – até mesmo do fascismo, em certo sentido –, encontrar algo completamente novo. Isso pode ser o que está acontecendo, mas eu não tenho certeza.

No final do livro, o senhor fala sobre um político de direita sueco que comemora a mudança de foco nas discussões políticas. Ele estava feliz que os capitalistas e os socialistas se juntaram contra ele. Essa união significou, para ele, que questões de política pública (policies) estavam se tornando menos relevantes no debate político, o que, para ele, seria impensável. Mesmo com esse caso, não parece que o senhor concorde que o Tradicionalismo se consolidou em um modo de pensar sobre a política. Estou certo?

Apenas um pequeno esclarecimento. O político sueco não estava falando em política no sentido amplo, mas em econômica política. Ele estava feliz porque viu que as questões fundamentais para a política sueca – que também são as questões fundamentais para a política americana –, como as maneiras de distribuir renda, público versus privado, financiamento, tributação… Todas essas disputas estavam se tornando menos importantes. E elas foram substituídas por identidade. Por política imaterial. Ele disse que não se importa em ganhar ou perder a eleição, porque, se essa transição acontecer, então toda a política estaria indo na direção dele.

Alguns resenhistas entenderam errado a mensagem do meu livro. Eles assumiram que essa era uma história que terminava comigo dizendo: “Ok, o Tradicionalismo vai tomar conta do mundo e de toda a política”. Eu concordo completamente com você. Essa é uma história de fracasso. O Tradicionalismo não irá reconhecer a política. Ele ignora a política. Ele não tem muito a dizer sobre políticas públicas. Qual é a posição de um Tradicionalista sobre sistema de saúde público? Alguém poderia vir com alguma resposta, mas não acho que passaria muita firmeza.

Eu também aponto no livro que, na maior parte das vezes – especialmente na Hungria –, quando um Tradicionalista entrou em um partido político, não deu muito certo. Eles não se importam em ganhar, tampouco em ter qualquer encanto.

Há essa incompreensão sobre o Tradicionalismo, algo que o senhor já havia apontado. Não é uma ideologia política, é uma filosofia. Aspectos do Tradicionalismo não se misturam com facilidade à sociedade política. Mas, ao mesmo tempo, podemos ver partes dessa filosofia acontecendo. A antiglobalização, a luta contra a modernidade… Essas são pautas que o tornam menos intangíveis. Observamos essas ideias, por exemplo, nas políticas de Ernesto Araújo, chanceler brasileiro. Externamente contra o globalismo e os órgãos internacionais. Internamente, transformando uma fundação de pesquisa do Itamaraty em think tank “olavista”, espalhando conpirações sobre a pandemia de covid-19 e fomentando o nacionalismo em um órgão diplomático.

Olavo me disse (eu tenho a gravação, e ele também) que o Ernesto é mais Tradicionalista do que ele. Ernesto consegue discutir Alexander Dugin [teórico russo, com grandes influências sobre o Kremlin] e a crise do mundo moderno de René Guenon inteligivelmente. Eu não acho que o Tradicionalismo seja politicamente neutro. Eu não acho que seja uma folha de papel em branco. Em seu nível mais fundamental, é uma crítica ao progresso, ao individualismo e à igualdade. Se temos uma espiritualidade que é oposta ao progresso e que não gosta de individualismo, tampouco igualdade, ela não pode simplesmente ser considerada neutra.

Não é esperado que essa filosofia, ou espiritualidade, seja acreditada e seguida por qualquer pessoa. Se ela for se manifestar na política, irá ser à direita. Ao menos nos moldes como nosso espectro político funciona atualmente. É por isso que eu não tenho tanta paciência para Tradicionalistas que falam: “Isso [ser considerado de direita] é Alexander Dugin destruindo nossa filosofia”, “Julius Evola foi um Tradicionalista de mentira e nunca deveria ter sido levado a sério…”. Eu não compro essas ideias.

Nos Estados Unidos, Steve Bannon foi perdendo espaço na Casa Branca até, eventualmente, voltar a sua profissão anterior: um comentador político. O vínculo mais forte entre o Tradicionalismo e a política norte-americana, parece, foi rompido. No Brasil, entretanto ainda temos uma união com a “ala católica” do Tradicionalismo. A pergunta, portanto, é: por que esse tipo de pensamento perdeu a relevância nos círculos de poder americano e por aqui continua com alguma solidez?

Odeio responder assim, mas eu não acho que seja uma comparação tão simples de se fazer. Podemos nos perguntar o que aconteceria se os filhos do Bolsonaro odiassem tanto o Olavo como os de Trump odeiam Bannon. As circunstâncias são diferentes. Também poderíamos apontar que o Olavo não pode ser demitido. Ele não pode ser chutado para fora do governo porque ele não está no governo.

É muito difícil medir a influência de Steve Bannon. Não acredito em quem fala que ele é completamente irrelevante, mas também não compro a ideia de que ele seja algum tipo de mestre secreto por trás dos fantoches, controlando o futuro dos Estados Unidos e do mundo.

Personalidades importam, também. Trump realizou mais trocas de cargos em seu governo do que qualquer outro presidente na história moderna dos EUA. Ele demitiu pessoas a torto e a direito… Eu sei que Bolsonaro teve um nível alto de demissões, mas em Trump foi excepcional. Outro aspecto é que Olavo é uma figura mais pública do que Bannon. Não é como se Bannon não fosse faminto por atenção. Ele trabalha bastante para conseguir colocar seu nome nos jornais e na televisão o tempo todo, não entenda errado. Ele é bom nisso. Mas, diferentemente do Olavo, raramente Bannon fala o que pensa e tem suas opiniões escutadas em grande escala. Essa é uma diferença.

Steve Bannon gosta mesmo é de ser um influenciador oculto. Claro que ele quer ser conhecido, mas é diferente ao Olavo, que – até onde eu sei –, não tem o mesmo tipo de influência por trás das cortinas que Bannon. Eles podem ser vistos como dois tipos distintos de metapolítica [modo de fazer política focado em alterar as percepções culturais da sociedade].

Tradicionalismo e capitalismo não se dão bem. No seu livro, tem uma passagem na qual Steve Bannon, em 2014, ainda pouco conhecido, palestra para conservadores católicos sobre como o capitalismo deveria estar subordinado à espiritualidade. Como, mesmo com todas as críticas a esse sistema, o senhor observa a junção da defesa do capitalismo com os preceitos do Tradicionalismo tanto no Brasil quanto nos EUA?

Excelente pergunta. Peço desculpas por não ter uma resposta fácil, também. Vejo dessa maneira: ou a oposição ao capitalismo é priorizada, ou é negociável. Ou seja, havendo um problema maior do que o capitalismo, então é possível se aliar com os capitalistas. Se observamos as figuras mais importantes do Tradicionalismo, é isso que elas estão fazendo. Alexander Dugin vai lhe dizer que esse não é o seu caso. Mas é. Um dos seus principais financiadores é um capitalista oligarca.

Para alguém como Olavo, capitalismo também serve como uma causa para se opor ao comunismo e à China. É muito importante, para gente como Ernesto Araújo, que o capitalismo não seja o objetivo final, como o é para a maior parte dos conservadores dos Estados Unidos. Ele diz que o problema com o comunismo na China não é a ausência de capitalismo. No limite, é que o modelo chinês é “antiespiritual”. Ou seja, é oposto ao espírito.

Para eles, o capitalismo é uma ferramenta para lutar outra batalha. Mas todos são opostos ao capitalismo enquanto homogeneizador e “destruidor de fronteiras”. Digo, no sentido de livre-comércio. O sistema capitalista pode ajudar em pontos particulares, mas ambos, Bannon e Olavo, querem ver a “elite econômica global” e o “capitalismo internacional” subjugados à religião, à espiritualidade e ao nacionalismo.

Nem todos os Tradicionalistas estariam dispostos a ir tão longe com o capitalismo. Até mesmo quando ele acontece dentro de uma comunidade religiosamente homogênea e devota à sua nação, o capitalismo continua priorizando o material sobre o espiritual.

Mesmo assim, parece que esses pensadores [Tradicionalistas como Araújo] estão dispostos a vê-lo como uma ferramenta útil a longo prazo.

Alexander Dugin elogiou a identidade brasileira por sua miscigenação e viu na população indígena altos níveis de antimodernidade que lhe agradara. Ao mesmo tempo, Ernesto Araújo, em seu famoso ensaio “Trump e o Ocidente“, ressalta não os povos nativos, mas o vínculo com o Ocidente europeu católico – especialmente Portugal. Ambos valorizam o mesmo país, mas não parecem estar falando da mesma nação. Entre Tradicionalistas, é possível haver um consenso sobre a essência de um país, ou melhor, Estado-Nação?

Essa é uma questão de onde são traçadas as linhas. Isso acontece com o nacionalismo também. Haverá uma cultura majoritária a qual todo mundo deverá assimilar e ser assimilado? Seria a do Estado-Nação? Olhe para o globo, para o mapa… As fronteiras que ilustram os Estados-Nação indicam alguma resposta? Ou há vários “miniglobalismos” que apagam a verdadeira essência de diferentes povos?

Dugin gosta da esquerda brasileira em parte por causa da questão dos povos indígenas. Ele vê as tribos ameríndios da Amazônia como sendo antimodernistas, ou pré-modernas, e gosta de suas peculiaridades. Essa é uma porta para seu modo de pensar o mundo em muitos níveis diferentes. Mas mesmo na Amazônia há imperialismos e assimilações. Dessa forma, alguém poderia rebater Dugin por ele não ter reconhecido um limite ainda mais específico.

Esse é um dos grandes problemas de falar em fazer política baseado no Dasein, o ser-no-mundo. Ela evita a questão maior, que é justamente perguntar “o que é o Dasein?” e “onde fincam-se essas fronteiras?” Não poder especificar é um problema.

Eu não dispenso a ideia de que há culturas e modos de observar o mundo que são formados pelas coletividades. Mas isso sempre se mostrou um grande problema, especialmente por políticos que querem reestruturar as sociedades a partir dessas essências. Todo nacionalismo é sobre isso. Subitamente, os detalhes significam tudo. Onde vamos demarcar os limites? O que qualifica o Dasein? O que não é parte do Dasein?

Desse modo, adornar tudo em um esoterismo é retirar a questão do plano no qual é possível conversar sobre isso, ter uma conversa concreta sobre o assunto.

Para finalizar, em certo momento o senhor escreve sobre uma maneira quase marxista, ao supervalorizar o trabalhador rural e braçal, com a qual Bannon e Olavo falam sobre “o povo”. Poderia aprofundar essa questão?

Quem é realmente o povo? Tipicamente, quando ideólogos querem delimitar o povo, eles estão falando sobre quem eles acreditam ser o mais autêntico, o mais representativo. A questão fica mais complexa pelas duas instruções do Tradicionalismo para respondê-la.

De um lado, você tem a hierarquia, vinda do hinduísmo. A maioria da massa, e em especial aqueles envolvidos mais diretamente em trabalhos braçais, não é boa. No sentido de que ela não é o povo. Eles não deveriam ser a casta ideal para formular a identidade de uma sociedade. Quem deveria fazer isso são os sacerdotes, ou seja, o topo.

Por outro lado, temos uma outra vertente do pensamento Tradicionalista que defende uma inversão. Para eles, como as coisas se mostram atualmente, quaisquer hierarquias que nós temos agora são o oposto do que elas deveriam ser. Portanto, quem deveria ter preferência ao prestígio e ao poder é o exato oposto das pessoas que as possuem nesse momento.

Ilustrando, os privilegiados no nosso mundo atual são as pessoas que têm poder em virtude de serem boas em jogar o jogo da modernidade, educando-se em universidades, angariando qualificações etc. Ao realizar essas ações, ou seja, jogar o jogo da modernidade, elas simbolizam que não são autenticamente o povo, a identidade ideal, mesmo estando no topo da escala social.

Unindo essas duas visões, o que se conclui é que os sacerdotes estarão entre os trabalhadores braçais, as massas. Dessa forma, esse mundo no qual vivemos está de cabeça para baixo.

Onde as coisas realmente divergem do Tradicionalismo é quando Steve Bannon fala em ajudar o povo/os sacerdotes/os trabalhadores dando-lhes dinheiro. Essa é a visão de Steve Bannon. Ela não está em consonância com o padrão no Tradicionalismo. Dizer que o melhor jeito de ajudar o povo a encontrar seu verdadeiro ser é dando dinheiro não é nem um pouco Tradicionalista. Isso já seria “pós-Tradicionalismo”.

* Leopoldo Cavalcante é graduando em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Edita a revita literária Aboio.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Bolsonaro aprendeu com Lula: é pela barriga que se vence uma eleição http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/28/bolsonaro-aprendeu-com-lula-e-pela-barriga-que-se-vence-uma-eleicao/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/28/bolsonaro-aprendeu-com-lula-e-pela-barriga-que-se-vence-uma-eleicao/#respond Fri, 28 Aug 2020 03:37:41 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1465

(Crédito: Isac Nóbrega/PR)

* Raphael Tsavkko Garcia

Ainda que escondamos em nossas elaborações pseudo-ideológicas, é evidente que todo eleitor, e isso independe de classe social, vota com a barriga e com o bolso. A única diferença é que, subindo a classe social, o passe fica mais caro. Eis uma dificuldade para o intelectual de esquerda que, possivelmente, custará uma nova derrota eleitoral: superar a visão romantizada do pobre como “povo dócil”, engajado, mas limitado por suas condições.

O funcionário público vota em quem promete aumentos à sua categoria e se opõe a privatizações, o professor universitário vota em quem defende a educação, quem passa fome vota em quem lhe promete encher a barriga, o empresário vota em quem lhe dará incentivos ou redução de impostos. Simplista? Sem dúvida, mas em linhas gerais é o caminho que a maioria trilha. Claro, existem outros interesses conflitantes, mas não surpreende que muitos expressem surpresa quando alguém, em tese, vota contra seus interesses ou os de sua categoria.

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Chama atenção a perplexidade da esquerda com as novas pesquisas, que revelam aprovação recorde de Jair Bolsonaro, e com um crescimento sustentado pelo ganho de popularidade no Nordeste. Na maioria das respostas, vê-se uma região que, de um dia para o outro, teria deixado de ser o bastião do progressismo para ser o poço do atraso.

A verdade é que ninguém mudou a sua forma de pensar, apenas encontraram potencialmente um político capaz de responder imediatamente aos seus anseios. Nesse aspecto, Jair Bolsonaro é muito mais pragmático (ou, na verdade, foi forçado a isso). Seu discurso conservador (e, porque não dizer, fascista) ecoa em grande parte do país. Se existia um dito cinturão vermelho no Nordeste era menos por repúdio a seu discurso e mais pela memória persistente de dias de fartura. No fim, o discurso bolsonarista tem muito mais a ver com o que o grosso da população pensa do que o progressismo de butique e suavizado do PT.

Ouve-se de alguns intelectuais de esquerda que o povo no Nordeste teria votado em Lula por ideologia. Nada poderia ser mais distante da realidade. A ideia de um Nordeste progressista é coisa de quem nunca colocou os pés por lá ou simplesmente resolveu se fazer de surdo e louco. Se o lulismo ainda era forte no Nordeste, o era apenas pela memória de milhões que viram a sua vida subir de patamar.

O problema – para os ditos progressistas ainda presos ao lulismo – é que memória não enche barriga. A população do Nordeste votou em Lula porque ele prometeu que encheria suas barrigas – e efetivamente o fez. E não há nada de errado nisso. Assim como Lula encheu barriga de banqueiros que impulsionaram sua reeleição e a eleição de Dilma. Não tem ideologia alguma aí, mas apenas escolhas práticas – uns querem o poder, outros querem poder jantar.

Não à toa, Lula abandonou o discurso da esquerda pelo assistencialismo – progressismo não voa bem nos rincões. O próprio Bolsa Família foi criado à revelia de setores tradicionais do PT, por se tratar de um programa essencialmente liberal.

O eleitor do PT nos rincões não é progressista, muitos são mais próximos de Bolsonaro ideologicamente. O Brasil é um país extremamente conservador, com o número de evangélicos crescendo diariamente, com uma população que não vê com bons olhos muitas das conquistas de minorias (em particular LGBTs), mas que na hora de votar pensa primeiro na própria sobrevivência.

Agora que Bolsonaro tem dado (mesmo a contragosto) dinheiro via assistência emergencial, essa população migra o voto num piscar de olhos. É simples. Só com barriga cheia você tem tempo para ter preocupações que vão além de… encher a barriga. Claro que passa pelo “preciso continuar comendo,” mas ampliam-se possibilidades. O empresário tem tempo para pensar para além de sua própria satisfação imediata – mas no fim vota para garantir que não perca aquilo que já tem. O jovem universitário de esquerda faz o mesmo. Se finge de revolucionário, mas acredita piamente que o candidato de esquerda do momento irá não apenas garantir seus “direitos”, como ainda lhe dará uma posição de destaque – os pobres encherem a barriga é apenas a consequência natural do processo.

A memória de Lula não dura para sempre em barriga vazia. Se surge alguém capaz de suprir essa necessidade básica e de falar o que a população conservadora quer ouvir, a migração de votos é certa. Bolsonaro entendeu, finalmente, que transferência de renda e assistencialismo garantem voto.

Em grande parte, por ter perdido totalmente o contato com os pobres, a esquerda insiste em romantizá-los, tratando-os quase como animais exóticos. Acredita que o pobre lhe deve alguma gratidão, como se fosse possível ao eleitor viver do passado, à espera do retorno das vacas gordas. O descolamento da esquerda da realidade dos necessitados é gritante.

Por mais que não seja um fenômeno restrito aos que seguem apoiando o ex-presidente Lula, a morte do lulismo é um passo necessário. Na verdade, é a única coisa que pode abrir caminho para uma oposição real ao bolsonarismo. Hoje, a esquerda é refém dos caprichos de um homem ególatra cujo único objetivo é o de voltar ao poder (para se aliar aos mesmos que hoje estão com Bolsonaro – e que antes estavam com ele) e realizar tudo aquilo que o partido passou 13 anos no poder prometendo, mas preferiu não fazer. E de um partido cuja existência se justifica apenas pela necessidade de realizar os desejos desse líder.

Não que Bolsonaro não seja igualmente ególatra, descolado da realidade e mesmo fascista – representando um perigo real para o país e para a sobrevivência da democracia. O ponto é que o lulismo alimenta o bolsonarismo. É seu principal combustível.

Bolsonaro demorou, mas entendeu que é pela barriga que se conquistam votos e passou a defender e mesmo chamar para si a autoria do auxílio emergencial, até mesmo batendo de frente com Paulo Guedes pela manutenção da política de transferência de renda. E esse pode ser o trunfo do presidente para se reeleger – caso seja capaz de manter o auxílio, apesar de seu enorme impacto fiscal.

Sabendo jogar suas cartas, Bolsonaro tem a chance de se reeleger mesmo com mais de 117 mil mortes nas costas por coronavírus, mesmo com uma gigantesca crise econômica, mesmo com incontáveis denúncias de corrupção envolvendo seus aliados e sua família, mesmo com gabinetes do ódio e fake news. Enquanto ele for capaz de manter cheias as barrigas dos eleitores, sua aprovação tenderá a subir. Nesse momento, Bolsonaro é o maior inimigo de si mesmo – a esquerda não possui lideranças ou projeto e a direita liberal ainda não foi capaz de entender sequer qual é o jogo para o qual foi escapada.

De boca mais fechada do que nos últimos meses (pese os rompantes recentes contra jornalistas, para manter o seu costume de agredir profissionais de imprensa), o presidente tem aberto espaço para notícias senão positivas, ao menos não tão negativas como no auge da crise, quando, junto com a inépcia de sua administração, exalava-se um golpismo quase diário. As mortes por coronavírus começam a se tornar algo comum, quase banal, algo semelhante às mortes por violência diária que assolam o Brasil e que pouco servem para mudar a popularidade de políticos dos mais diversos espectros ideológicos. E, para os que acreditam que dinheiro não compra amor, bem, é melhor acordarem.

* Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e doutor em direitos humanos pela Universidade de Deusto. Contribuiu para veículos como Foreign Policy, Undark, The Washington Post, Deutsche Welle, entre outros.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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O bolsonarismo como um populismo de extrema-direita http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/22/o-bolsonarismo-como-um-populismo-de-extrema-direita/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/22/o-bolsonarismo-como-um-populismo-de-extrema-direita/#respond Sat, 22 Aug 2020 14:13:08 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1452

(Crédito: Alan Santos/PR)

[RESUMO] Este ensaio propõe o enquadramento do bolsonarismo como um populismo de extrema-direita. Ainda que esta classificação já tenha sido aventada em outros momentos, pretendo explorar mais a fundo suas potencialidades e o que a diferencia de outras abordagens sobre o fenômeno. Assim, começo apresentando quais seriam as características que permitem enquadrar o bolsonarismo como um movimento de extrema-direita e aquelas que permitem enquadrá-lo como um populismo. Posteriormente, contraponho a abordagem aqui desenvolvida a outros enquadramentos, a meu ver, erroneamente associados ao governo Bolsonaro, para, por fim, destacar como a definição do bolsonarismo como um populismo de extrema-direita nos ajuda a compreender sua relação com a democracia e a história do país.

* Igor Suzano Machado

Quando ficou claro quem sairia vencedor das eleições de 2018, parecia que o país confirmava uma maldição que nos acometeria a cada 29 anos. Após Jânio Quadros e Fernando Collor, teríamos mais uma vez a inusitada ascensão ao poder de uma figura tão excêntrica na política quanto incapaz de conduzir um governo, o que resultaria em um mandato marcadamente caótico e curto.

Já em seus primeiros meses, a aventura de Jair Bolsonaro na presidência da República parecia repetir o enredo, ao ponto de o presidente dizer algo muito próximo à afirmação de Jânio Quadros de que forças ocultas estariam o impedindo de governar. Naquele momento, parecia razoável esperar, se não a renúncia de alguém nitidamente amedrontado no cargo, o impeachment de um presidente que experimentava rápida queda de popularidade.

Entretanto, essa queda de aprovação popular não se transformou em um mergulho vertiginoso, escorando-se numa rede de segurança garantida por um piso de popularidade inabalável, mesmo diante da perda daquele que parecia um dos mais importantes pilares desta mesma popularidade: o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, o ex-juiz e prócer da Lava Jato, alçado a símbolo máximo do combate à corrupção no Brasil.

Neste ponto, aquela figura que outrora apareceu apavorada em Davos e que conduzia de forma trôpega suas negociações políticas já se transformara num presidente cada vez mais à vontade no cargo, inclusive, para usar seus poderes no tensionamento das instituições. Portanto – tendo ainda em vista a resiliência da aprovação bolsonarista, mesmo diante da desastrosa gestão da crise santitária causada pela pandemia da covid-19, por parte do governo federal – tudo passa a indicar que estamos diante de algo mais complexo, de um novo fenômeno político, sobre o qual analistas passaram a se debruçar com mais atenção e afinco, buscando melhor compreender suas características distintivas, modus operandi e possíveis caminhos para o sucesso ou fracasso de seus anseios.

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De minha parte, confesso que duas áreas de estudo foram capazes de me fornecer as melhores pistas para compreensão do “bolsonarismo”, se assim podemos designar tal fenômeno. A primeira delas, os estudos sobre o populismo, e a segunda, os estudos sobre governos de extrema-direita, como nazismo e fascismo. Não à toa, este mesmo blog publicou análises em que essas duas linhas se destacam na compreensão do governo Bolsonaro.

O mandatário brasileiro já foi aqui aproximado ao fascismo, mas, para aqueles que não concordam inteiramente com esta tese, também já foi associado ao populismo. Concordo em parte com ambas perspectivas e argumentarei aqui que o bolsonarismo é melhor caracterizado como um populismo de extrema-direita.

Se o que chamo de “extrema-direita” pode ser lido como fascismo, vai do gosto do leitor e de como este leitor responde a duas questões relacionadas à análise do fascismo: o quanto, de um lado, o fascismo é dependente de um contexto histórico específico, que não se confunde com o contexto brasileiro atual, e, de outro, o quanto o fascismo é necessariamente associado a uma forma estatal totalitária, à qual, felizmente, e não exatamente por falta de vontade do presidente, ainda não chegamos.

O bolsonarismo e a extrema-direita

Não há como negar que exista uma série de sobreposições entre o bolsonarismo e o fascismo em seu sentido clássico, fazendo com que, mesmo distantes de um Estado fascista, estejamos diante de uma mentalidade fascista disseminada dentre diversos órgãos de governo e personagens da vida civil. As importantes milícias paraestatais que caracterizaram a ascensão do fascismo na Itália encontram paralelo possível nas milícias digitais bolsonaristas, cujos processos de intimidação virtuais têm cada vez mais tentado atingir meios não digitais, como mostraram os acampamentos dos 300 do Brasil.

Além disso, uma das características distintivas das ditaduras de extrema-direita do século passado, quando comparadas a ditaduras anteriores, reside em, ao invés de excluir a população da política, apostarem numa “hiperpolitização” dessa população, o que também nos remete facilmente à forma como opera o bolsonarismo.

Por fim, quando essas ditaduras de extrema-direita, em oposição às democracias liberais contemporâneas, apostam, como na lição de Carl Schmitt, na incompatibilidade entre democracia e liberalismo, insistindo em uma vontade popular que só pode se manifestar de forma unitária em um líder absoluto, sem admitir o pluralismo, estamos diante de uma compreensão da política que muitas vezes encontra eco entre apoiadores do governo e mesmo entre suas lideranças e referências intelectuais, como o influenciador digital Olavo de Carvalho.

Se abandonamos os exemplos históricos clássicos das ditaduras de extrema-direita e nos concentramos apenas no contexto brasileiro, também parece claro que a posição do bolsonarismo na nossa tradição política está no extremo do espectro destro da mesma. Concatenando discursos tradicionais da direita nacional, desde o lacerdismo contra a imoralidade na política, passando pela garantia da ordem da ditadura militar, e chegando aos clamores por mais liberalismo econômico, característicos das nossas direitas mais atuais, o bolsonarismo radicaliza o nosso direitismo tanto pela concentração de seus diversos clamores quanto por, muitas vezes, contrapor a tais clamores as próprias estruturas da nossa combalida democracia, desafiando frontalmente a separação de poderes, a impessoalidade na administração pública e o respeito a direitos constitucionalmente garantidos.

O bolsonarismo e o populismo

Uma vez posicionado o bolsonarismo na extrema-direita, cumpre agora explicar a dimensão populista que me faz enquadrá-lo como um populismo de extrema-direita. Quanto a este ponto, antes de mais nada, é importante destacar o que estou chamando de populismo, haja vista os diversos enquadramentos que o termo já sofreu ao longo do tempo e em diferentes países. Para esclarecer, destaco que, ao falar de populismo, faço referência aos debates contemporâneos sobre o tema que buscam dialogar com a contribuição original de Ernesto Laclau, em diversos de seus escritos, mas, especialmente, no livro A razão populista.

Retirando do termo a carga negativa que lhe é geralmente associada, Laclau adota uma perspectiva em certa monta mais formal acerca do populismo, que emerge como uma forma política potencialmente presente em qualquer circunstância ou espectro ideológico, em que uma liderança popular se torna porta-voz do “povo”, tido como uma entidade que congrega diversas demandas que se igualam em sua oposição a uma “elite”, cuja posição de elite é questionada como ilegítima. Conforme destaca Laclau, o populismo opera uma simplificação da sociedade, entendendo-a como composta basicamente de dois polos antagônicos, nos quais o polo popular e oprimido antagoniza o polo ocupado por uma elite opressora.

Um primeiro ponto em que podemos notar a associação do bolsonarismo ao populismo reside nos fatores que tradicionalmente favorecem a emergência de uma liderança populista, semelhantes a contextos que permitiram a ascensão do nazismo e do fascismo, e que, muito claramente, podem ser associadas ao contexto brasileiro atual. Francisco Panizza, no interessante inventário sobre as práticas populistas que faz na introdução do livro El populismo como espejo de la democracia, aponta como uma das características do populismo é sua emergência em contextos de “fracasso das instituições sociais e políticas existentes para limitar e regular os sujeitos políticos dentro de uma ordem social relativamente estável”, sendo o populismo, segundo ele, “um modo de identificação característico de tempos de instabilidade”.

O autor também destaca que o populismo emerge em situações de ruptura da ordem social e perda da confiança no sistema político como sendo capaz de restaurá-la, assim como em contextos de esgotamento de tradições políticas e de desprestígio de partidos políticos, em períodos de mudanças econômicas, demográficas e culturais e em situações de aparecimento de formas de representação política externas às instituições políticas tradicionais, dando destaque à emergência de novos meios de comunicação de massa, como o rádio e a televisão – aos quais acreditamos que podemos, hoje, adicionar a internet e suas redes sociais.

Todo um contexto favorável ao populismo parece, portanto, emergir no Brasil contemporâneo, especialmente após a sobreposição das crises econômica e política nos mandatos da presidenta Dilma Rousseff, seu tumultuado processo de impeachment, as revelações da Operação Lava Jato sobre as entranhas corrompidas da política nacional, e o consequente desgaste dos partidos políticos tradicionais, tudo isso tendo como pano de fundo o desenvolvimento de novas tecnologias de compartilhamento de informação digital, como o Whatsapp.

Se ninguém titubearia em associar a emergência do bolsonarismo a uma resposta a essa situação de desorganização política, crise econômica, revolta popular e mudança tecnológica, menos consensual e óbvia pode ser vincular essa resposta a uma dicotomização da sociedade brasileira entre povo e elite, vindo Bolsonaro a ocupar a posição de representante desse povo. Esse enquadramento parece ainda menos óbvio ao lembrarmos que, em sua eleição, o atual presidente contou com forte apoio das elites, sendo mais popular entre eleitores homens, de maior escolaridade e maior renda.

Contudo, é importante salientar que “povo” e “elite”, sob o enquadramento de populismo patrocinado por autores como Ernesto Laclau, não são designações sociológicas baseadas em características objetivas de um conjunto de pessoas, mas sim uma forma de identificação social, baseada numa série de associações e oposições que permitem a um sujeito se compreender como parte do povo e, consequentemente, identificar a elite que o oprime. Assim, o povo é uma abstração cujo conteúdo concreto é construído na disputa política.

Se o populismo de esquerda tende a construir um “povo” em contraponto a elites econômicas, oligarquias tradicionais e grupos étnicos privilegiados, mais recentemente, o Brasil viu serem opostos ao povo, pela direita, elites políticas corruptas, ou elites culturais que defenderiam valores estranhos ao povo, trazendo de volta para dentro do campo popular, por outro lado, empresários e grandes proprietários de terra. Dessa forma, passa a ser plenamente possível a elites econômicas se identificarem como parte do povo oprimido por uma elite que não se fez como tal por meio do trabalho, mas sim pela corrupção, abuso de poder e engodos dos mais diversos.

O povo contra as elites culturais

Ainda que o bolsonarismo tenha habilmente se apropriado da contraposição entre povo e elites políticas corruptas, em grande parte pela associação a um certo lavajatismo, sustento aqui que essa não é a principal forma de articulação da oposição povo versus elites dentro do campo governista. Se assim fosse, a perda do ministro Sergio Moro e a recente associação entre Bolsonaro e políticos do chamado “centrão”, incluindo o ícone do escândalo do mensalão Roberto Jefferson, teriam tido um impacto mais dramático para a popularidade do governo. Sustento que, na esteira da desconfiança gerada pela descoberta do que nossas elites políticas faziam longe dos nossos olhos, e ancorado num domínio, sem paralelo na política nacional, das redes sociais, o bolsonarismo tem conseguido se sustentar principalmente como representante do povo contra uma elite cultural.

Por vezes associadas a super elites econômicas, representadas pela figura dos maiores empresários do Brasil e do mundo, como Jorge Lemann e Bill Gates, além de a alguns políticos com patrimônios falsamente inflados, essa elite cultural é composta por artistas, jornalistas, professores e pesquisadores que contrapõem ao povo e seus valores genuínos e seus conhecimentos práticos uma gama de teorias abstratas, que esconderiam planos secretos e intenções inconfessáveis.

Assim, muito do legado racional iluminista, desde a noção de direitos humanos até teorias científicas baseadas na coleta criteriosa de dados empíricos, passando por uma expressividade artística livre de amarras morais e religiosas, transforma-se, nessa narrativa, numa arma usada contra o povo e seu conhecimento intuitivo do mundo.

Coroando essa construção discursiva, uma famosa utopia racionalista é aditada a essa ameaça, conjurando um fantasma que, segundo um grande filósofo, rondou a Europa nos últimos séculos do milênio passado, mas que, a não ser quando transformado no próprio racionalismo, passa longe de assombrar o Brasil contemporâneo: o comunismo. E se o comunismo, mais do que o ópio dos intelectuais – como o caracterizou Raymond Aron – é, na verdade, seu plano secreto e inconfessável, o inimigo do povo é a esquerda e sua salvaguarda, preferencialmente, a extrema-direita.

A construção do povo contra elites culturais não é um expediente inédito nem na extrema-direita – já que o anti-intelectualismo, o antirracionalismo e o anti-iluminismo foram características importantes já do fascismo e do nazismo – nem do populismo, em tempos recentes. Benjamin De Cleen observou, em seu artigo The Party of the People versus the Cultural Elite: populism and nationalism in Flemish radical right rhetoric about artists, que a extrema-direita da Bélgica se esforçou por construir uma oposição do tipo, contrapondo o campo popular a intelectuais, formadores de opinião e artistas em geral.

Inicialmente uma tentativa mal sucedida de fomentar uma arte nacionalista e de direita, a estratégia do partido ultranacionalista belga passou a funcionar quando este abandonou uma perspectiva de ação, por assim dizer, mais positiva, para adotar uma mais negativa: não o fomento a uma intelectualidade e uma arte de extrema direita, mas uma perspectiva de rejeição a produtos intelectuais e artísticos que seriam portadores de ideologias elitistas contrapostas à verdadeira vontade do povo.

Expediente semelhante permite ao bolsonarismo se colocar como porta-voz dos valores genuinamente populares contra a imposição de valores e ideias restritos à elite cultural a que pertencem artistas, professores, jornalistas, etc. Aliado a outras oposições entre povo e elite, como a oposição entre povo e elite política tradicional – da qual Bolsonaro consegue se distinguir ancorado na irrelevância nacional que conseguiu manter ao longo de toda sua longeva carreira parlamentar – tal discurso configura o bolsonarismo como um típico populismo, em que uma liderança política consegue personificar a posição do povo contra os abusos e os ouvidos moucos de uma elite ilegítima.

Com cientistas e membros de organizações internacionais, como ONU e OMS, facilmente enquadráveis dentro dessa elite cultural, o populismo bolsonarista consegue, por exemplo, aparecer como porta-voz dos anseios de um povo ávido para voltar à rotina, contra a insensibilidade racionalista de elites que, do alto de seu conforto, insistem na manutenção do distanciamento social como forma de combate à pandemia de covid-19

O bolsonarismo não é um nacionalismo

O exposto até aqui compõe minha argumentação de que o bolsonarismo seria um populismo de extrema-direita. Contudo, gostaria de ainda ressaltar mais dois pontos que dizem respeito ao que o bolsonarismo não é, clarificando como a classificação do bolsonarismo como populismo de extrema-direita pode nos levar além de outras interpretações do fenômeno.

Primeiramente, gostaria de salientar que o bolsonarismo não é um nacionalismo – o que pode, a depender das exigências do leitor, fazer com que ele não seja também uma variante do fascismo. Isso pode parecer estranho, tendo em vista a vultuosa mobilização de símbolos nacionais por Bolsonaro e seus seguidores. Afirmo isso, todavia, com base numa interessante análise feita por Benjamin De Cleen e Yannis Stavrakakis, no artigo Distinctions and articulations: A discourse theoretical framework for the study of populism and nationalism, em que os autores diferenciam populismo e nacionalismo, não obstante a óbvia possibilidade de articulação entre os dois.

De Cleen e Stavrakakis salientam que, enquanto o populismo constrói uma cisão interna e vertical entre elites e oprimidos, o nacionalismo constrói uma cisão horizontal entre os de dentro e os de fora. Nesse sentido, entendo que o discurso bolsonarista, não obstante a forma como, por várias vezes, mobiliza o patriotismo, não se constitui num tipo de nacionalismo, pois constrói um inimigo opressor interno ao próprio país ou, na melhor das hipóteses, indiferente a fronteiras nacionais.

Assim, o estrangeiro não é necessariamente o inimigo do povo, diferentemente do que acontece em discursos populistas de direita em países centrais, em que estrangeiros estão ávidos para roubar empregos nacionais, ou em discursos populistas de esquerda em países periféricos, em que os estrangeiros estão ávidos para roubar as riquezas do país. Há, no máximo, a mobilização de uma oposição do povo ao abstrato “globalismo”, que se trata, contudo, de um neologismo usado justamente para mostrar que uma recusa aos valores da modernidade que se espalham globalmente não implicaria numa recusa da globalização econômica.

Ainda que possa haver a associação de países estrangeiros ao “comunismo”, mesmo nesse caso, a prioridade da oposição se dá com relação ao comunismo, sendo menos importante o fato de se tratar de um país estrangeiro. Quanto a isso, é sintomático como esse populismo patriótico, mas não nacionalista, convive bem com a subserviência a uma potência estrangeira aliada, como os Estados Unidos, ou com a ostentação de símbolos nacionais de outros países, como as bandeiras de Israel, já famosas em manifestações a favor do presidente.

O bolsonarismo não é um ultraindividualismo

Em segundo lugar, gostaria de salientar também que, enquanto populismo de extrema-direita, o bolsonarismo não é um ultraindividualismo, em que a tradição liberal e a tradição conservadora se encontrariam na rejeição de qualquer identidade coletiva, especialmente quando representada pelo Estado, dando suporte à clássica manifestação de Margaret Thatcher, em que a “dama de ferro” ressaltou não existir sociedade, mas apenas os indivíduos e suas famílias.

Buscando constantemente uma representação coletiva do povo e o uso do poder estatal para constranger e perseguir adversários, o bolsonarismo me parece muito mais voltado a produzir tipos específicos de laços de solidariedade mais amplos do que os laços familiares – diga-se de passagem, constantemente ameaçados pela radicalização política bolsonarista – do que a atuar como dissolvedor desses laços.

Assim, se, por um lado, por exemplo, pode-se dizer que o bolsonarismo ataca a formação de laços de solidariedade de classe numa perseguição a sindicatos, por outro, há o esforço de justificar tais separações com base em reorganizações dos trabalhadores não em torno de uma identidade coletiva de classe, mas de uma identidade coletiva política de extrema-direita, contra a esquerda, ou religiosa cristã, contra detratores da fé, ou patriótica, contra traidores da pátria, e assim sucessivamente.

Na mesma linha, o conservadorismo bolsonarista é menos um conservadorismo de não intervenção do Estado na vida das pessoas, e mais um conservadorismo em que certas escolhas de vida devem ser valorizadas em detrimento de outras, exaltando certo coletivo, moralmente caracterizado, de cidadãos virtuosos. Dessa forma, em prol do cidadão portador das virtudes adequadas – o famoso “cidadão de bem” – é possível promover a super inclusão dos indivíduos adequados e a exclusão dos indesejados, fato bem resumido pelo mantra conservador brasileiro dos “direitos humanos para humanos direitos”.

Também não é plenamente verdadeira a sustentação de que a forte contraposição do bolsonarismo ao liberalismo político esconde a sua complacência perante o liberalismo econômico, haja vista as dificuldades que arautos do liberalismo econômico têm encontrado no governo, inclusive, em disputas com o desenvolvimentismo dos militares, que, por seu turno, enquanto símbolos da pátria, não foram poucas vezes agraciados com prebendas e benesses de carreira e aposentadorias nada liberais. E, por falar em militares, as escolas militares são ainda mais centrais para o discurso bolsonarista sobre a educação do que uma ampla pulverização e privatização do sistema de ensino.

O bolsonarismo e a democracia

Por todos esses motivos, considero que a designação do bolsonarismo como um populismo de extrema-direita pode ser mais útil à compreensão do fenômeno do que outros enquadramentos que têm sido apresentados em análises sobre o tema. Mas há ainda um motivo adicional que me faz apostar nessa designação, que diz respeito a quanto ela pode esclarecer a relação entre o bolsonarismo e a democracia: uma relação rodeada por ambiguidades que, por exemplo, uma noção mais tradicional de populismo não permite que sejam vistas.

Para finalizar, portanto, gostaria de retomar algumas lições de Panizza para pôr em destaque como pensar o bolsonarismo enquanto populismo de extrema-direita o situa com relação à democracia. Afinal, apesar de seu tensionamento contra direitos civis e instituições políticas, não é tão simples ou óbvio afirmar que o bolsonarismo seria antidemocrático.

O populismo, que Panizza considera um “espelho da democracia”, serve bem a nos mostrar o porquê desta estranha situação em que o chamado “governo do povo” não lida bem com discursos que buscam dar protagonismo a este mesmo povo. Segundo o autor, no texto já citado anteriormente, “o populismo nos recorda dos fantasmas do totalitarismo”, mas também nos lembra que “todas as sociedades democráticas modernas constituem um compromisso entre lógicas democráticas e não democráticas”.

Afinal, como era a intenção dos constitucionalistas, o equilíbrio de poderes da democracia liberal moderna tanto garante quanto limita a vontade do povo. Por isso, “ao colocar perguntas incômodas sobre as formas modernas de democracia, por vezes apresentando a cara feia do povo”, o populismo não se apresenta nem como epítome nem como antônimo da democracia, sendo mais precisamente caracterizado como “um espelho no qual a democracia pode contemplar a si mesma, mostrando todas as suas imperfeições, em uma revelação de si e do que lhe falta”.

Se o reflexo no espelho não é sempre agradável de se ver, continua Panizza, é porque a democracia tem um reverso, que os gregos denominaram demagogia; ou porque a representação democrática nunca logra cumprir todas as suas promessas; ou ainda, porque mesmo o regime político mais democrático possível será sempre uma mistura de elementos democráticos com outros nem tão democráticos assim, com os princípios de tutela e a racionalidade tecnocrática limitando ou fazendo pouco caso do princípio da soberania popular.

Tendo tudo isso em vista, compreender a emergência do bolsonarismo diante das mudanças da sociedade brasileira em suas crises econômicas, políticas e sanitária, suas mudanças culturais e de meios de comunicação, e suas inserções ambíguas em contextos locais e globais, é também compreender melhor como o regime democrático se organiza, apresenta suas potencialidades e limites e provoca os cidadãos a criarem identidades que os situem neste turbilhão.

É compreender, ainda, as dinâmicas políticas específicas que, caso a caso, respondem a essas crises e tensões articulando essas identidades populares e nomeando inimigos do povo, e que trazem ao país mudanças em suas instituições políticas e sociais, em diferentes níveis de profundidade e longevidade. Considerar o bolsonarismo como um populismo de extrema-direita usa esta bússola para situá-lo dentro de nossa história, estejamos nós olhando para o passado, para o presente ou para o futuro.

* Igor Suzano Machado é doutor em Sociologia e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

* Gostaria de agradecer aos membros da Rede Brasileira de Teoria do Discurso, cujos excelentes debates virtuais dos últimos meses foram essenciais para dar forma às reflexões contidas neste ensaio.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Ciro: “Bolsonaro é responsável pela maior tragédia de nossa história” http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/21/ciro-bolsonaro-e-responsavel-pela-maior-tragedia-de-nossa-historia/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/21/ciro-bolsonaro-e-responsavel-pela-maior-tragedia-de-nossa-historia/#respond Fri, 21 Aug 2020 16:31:31 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1454

Estas negociatas vão nos jogar no pior buraco da história (…). Estão saqueando o país.” (Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress)

* Cesar Calejon

Com o mês de julho registrando novo recorde histórico de mortes no país, a pandemia no Brasil segue sem dar grandes sinais de controle, enquanto que o governo federal, para além do boicote às medidas sanitárias de contenção da doença, desperdiça recursos destinados à luta contra a covid.

Para refletir sobre o cenário brasileiro em suas diversas vertentes de resposta à pandemia, o blog conversou com Ciro Gomes. Ex-candidato à Presidência por duas vezes, Ciro, que é vice-presidente do PDT, acumula uma larga trajetória na vida pública nacional. Ele já foi ministro da Fazenda (Itamar), ministro da Integração Nacional (Lula), deputado federal pelo Ceará, além de governador do mesmo estado e prefeito de Fortaleza.

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Nos últimos anos, Ciro Gomes vem tentando se firmar como a principal liderança progressista brasileira, disputando espaço com o campo petista na oposição de esquerda ao governo Bolsonaro. Em conversa com o blog, ele disse que, na pandemia, o bolsonarismo tornou-se responsável pela “maior tragédia de nossa história”. O ex-presidenciável também apontou a gravidade da situação econômica brasileira, cuja solução, para ele, passa por abandonar a agenda neoliberal em prol de um novo projeto industrial para o país.

“Minhas respostas não devem ser vistas como discurso oposicionista”, diz Ciro, “mas como uma ilustração dos fatos e números que temos até aqui. A gestão bolsonarista da pandemia tem sido a pior do mundo. A pandemia levou três meses a mais do que na China e dois meses a mais do que na Europa para chegar aqui. Num primeiro momento, o que cabia ao governo fazer era controlar a entrada no país, entrar em acordo com a China em busca de reagentes para testagem em massa e comprar respiradores. Ao invés disso, (a administração Bolsonaro) alinhou-se ao Trump e declarou guerra diplomática à China”, introduz Gomes.

“Num segundo momento”, prossegue ele, “o que cabia ao governo, com o começo da transmissão comunitária do vírus, era promover rígidas quarentenas de vinte dias para controlar a doença no Brasil. Ao invés disso, (Bolsonaro) se lançou numa cruzada contra o isolamento social e desinformou a população sobre a doença, que chamou de ‘gripezinha’, inclusive, receitando como mágico um remédio rejeitado pela comunidade científica nacional e internacional”.

De acordo com Ciro Gomes, enquanto o governo de Milão (Itália) pedia perdão pela campanha “Milão não para”, o governo brasileiro lançou uma campanha idêntica no Brasil.

“Isso gerou a maior tragédia de nossa história, mas o bolsonarismo não parou neste ponto. (O governo) deveria ter apressado o auxílio às pessoas, para ficarem em casa, e às microempresas, para que elas sobrevivessem. Ao invés disso, lutou contra o auxílio para a população, que foi dado pelo Congresso (Nacional), e até hoje, o prometido crédito para microempresas não chegou a grande parte delas”, acrescenta o ex-ministro.

Ainda segundo ele, “tudo isso se reflete em números frios e terríveis. Enquanto o Brasil tem 208 milhões de habitantes, a China tem 1 bilhão e 400 milhões. A pandemia começou lá, três meses antes de chegar ao Brasil. Pois bem, na China morreram cerca de cinco mil pessoas de covid-19. No Brasil, hoje, passamos de 105 mil (os números atualizados dessa sexta, 21, já superam as 112 mil mortes). (…) Para quem não acredita nos números da China, nos compare com a Alemanha ou com a nossa vizinha Argentina”.

Em toda a América do Sul, que sem o Brasil possui 10 milhões de habitantes a mais do que o nosso país, morreu um número significativamente menor de pessoas por conta da pandemia, efetivamente.

“Este erro na política de saúde destruiu o nosso Produto Interno Bruto (PIB). Os países que fizeram isolamento radical no começo e seguiram as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da ciência estimam um impacto negativo no PIB de 3% esse ano. O próprio governo brasileiro está estimando um impacto de menos 8%. A pior recessão de nossa história. O que o Brasil tem de diferente dos outros países? O governo Bolsonaro. O pior governo do mundo e o pior governo brasileiro de todos os tempos”, ressalta Ciro.

Para o candidato do PDT à Presidência da República em 2018, as políticas propostas e adotadas por Paulo Guedes agudizam a crise econômica que está se estabelecendo no Brasil.

“Tudo o que está acontecendo eu previ que aconteceria. Como eu não sou profeta nem vidente, estava na hora de os economistas que têm espaço na grande mídia considerarem a hipótese de eu estar avaliando os dados com base em uma visão da realidade econômica. O problema não é o (Paulo) Guedes. O problema é o neoliberalismo. O neoliberalismo nos trouxe ao pior momento econômico de nossa história. Isso não pode ser atribuído à pandemia, pois estamos nos desindustrializando e destruindo nossa balança de pagamentos desde o governo (Fernando) Collor, com a única exceção do governo Itamar (Franco). Esse processo se agudizou com a ida de Joaquim Levy para o governo Dilma (Rousseff) e passou pela aprovação do Teto de Gastos, pela gestão de (Henrique) Meirelles e agora, com Guedes, tem o seu pior momento”, afirma Gomes.

Ele defende que o centro da destruição da política neoliberal está no saque das contas públicas para o financiamento do rentismo e na destruição da capacidade de investimento do Estado. “Guedes sofisticou isso baixando a Selic ao menor nível da história, ao mesmo tempo que transferiu o grosso do pagamento de juros para as operações compromissadas. Enquanto isso, o investimento público é o menor da história em nome do Teto de Gastos.”

“No financiamento da crise da pandemia, outro desastre. Pois, como o neoliberalismo é menos uma teoria econômica e mais um manual de concentração de renda, prega na prática menos impostos para os ricos e mais impostos para os pobres. Guedes não cogita, em nenhum momento, financiar parte dos gastos extraordinários que são necessários esse ano com impostos para o andar de cima”, acrescenta o ex-ministro, que como resultado desta postura aponta “a maior falência das contas públicas da história brasileira”.

“Fui criticado por alguns economistas por lembrar que a dívida pública vai se aproximar pela primeira vez de 100% do PIB e o déficit público primário vai ser de 930 bilhões de reais neste ano: oito vezes o maior da história. O curioso é que esses mesmos economistas diziam, em 2014, que o país estava quebrado por causa de um déficit primário de 17 bilhões. Não quero que me confundam, não estou fazendo demagogia. É claro que esse ano o déficit tem que aumentar, e muito. Estamos vivendo numa pandemia e temos que pagar para as empresas sobreviverem e as pessoas que puderem ficar em casa. Mas esse governo não pensou em nenhum momento em como financiar parte desse déficit para controlar a explosão da dívida, porque, evidentemente, essa conta teria que ser paga pelos ricos, no país mais desigual do mundo”, propõe Gomes.

Além de tudo isso, Ciro Gomes aponta que Paulo Guedes está preparando a devastação do patrimônio estatal pelos menores valores possíveis. “Esse é o pior momento para privatizar qualquer coisa e estão privatizando estatais que dão lucro, portanto, que ajudam a financiar o Estado. Estas negociatas vão nos jogar no pior buraco da história. Ainda não tivemos apurado o escândalo da Itaipu Binacional, que levou à abertura do processo de impeachment contra o presidente paraguaio. Principalmente, não apuramos ainda a venda, sem licitação, de R$ 3 bilhões de créditos do Banco do Brasil a receber por somente R$ 300 milhões para o BTG, banco fundado pelo próprio ministro Paulo Guedes. Estão saqueando o país”, alerta.

“Já o crédito às microempresas simplesmente não chegou”, prossegue Ciro. “Essa demora, como revelou Guedes na vergonhosa reunião ministerial, era uma política de Estado de destruição das pequenas empresas para a manutenção das grandes. Todas essas insanidades nos levaram, nesses dois anos, ao recorde de evasão de capital da história do Brasil. O capital estrangeiro que, segundo os neoliberais, financiaria o nosso desenvolvimento, está fugindo em massa do país”, afirma o ex-governador.

A resposta do governo Bolsonaro a esse quadro apocalíptico, segundo ele, está passando pelo mesmo remédio que matou o Brasil. “Mais aplicação do teto em investimentos, mais reformas para cortar direitos. A reforma administrativa é a nova panaceia deles. Como eu disse da reforma da Previdência, não terá impacto nenhum na economia, o pagamento de salários de servidores tem impacto relativamente reduzido no orçamento, os direitos adquiridos têm que ser respeitados e qualquer impacto residual no orçamento seria de longuíssimo prazo. O neoliberalismo é a cloroquina da economia. Não controla o vírus e vai nos matar de infarto”, compara o político.

Por fim, caso tivesse sido eleito presidente do Brasil em 2018, Ciro Gomes afirma que teria seguido “o conhecimento científico no combate à pandemia. Nesse momento, manteria a suspensão da abertura de shows, bares e restaurantes, escolas e universidades, e investiria pesado no desenvolvimento de uma vacina e em conseguir reagentes para aumentar a testagem no Brasil”.

“Economicamente, implantaria o imposto sobre lucros e dividendos empresariais (o Brasil é o único país que não cobra), recriaria a alíquota de 35% do imposto de renda, que cobrei com o Itamar (Franco), e aumentaria o imposto sobre heranças. Abriria investigação imediata sobre as operações compromissadas e diminuiria sua remuneração. Cortaria 20% por igual de todas as desonerações do governo de saída antes de analisar caso por caso”, reflete Ciro.

“Todas essas medidas preparariam um orçamento equilibrado já em 2021. Contudo, o principal seria tirar o investimento público do limite do Teto de Gastos, retomando milhares de obras paradas e já licitadas por todo território nacional. Para restaurar a saúde financeira das empresas, um grande plano de refinanciamento nacional, e das famílias, meu plano de refinanciar as dívidas que levaram mais de sessenta milhões de cidadãs e cidadãos ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Essas seriam as medidas de curto e médio prazo que equilibrariam as contas, retomariam o esforço de desenvolvimento e preparariam a celebração de um novo projeto industrial para o Brasil”, conclui Ciro Gomes.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro “A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI” (Lura Editorial).


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Oposição precisa admitir que não é mais ‘a campeã do povo’ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/16/oposicao-precisa-admitir-que-nao-e-mais-a-campea-do-povo/ http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/08/16/oposicao-precisa-admitir-que-nao-e-mais-a-campea-do-povo/#respond Sun, 16 Aug 2020 16:17:42 +0000 http://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/?p=1449

Turbinada pelo auxílio emergencial, popularidade de Bolsonaro no Nordeste deixa a oposição ainda mais perdida (Crédito: Mauro Pimentel/AFP)

* Igor Tadeu Camilo Rocha

Assistimos bestializados, juntamente com quase toda a oposição ao governo, aos resultados recentes da pesquisa Datafolha que aponta para a recuperação de popularidade do presidente Jair Bolsonaro.  Digo “bestializados” no sentido empregado no clássico da historiografia escrito por José Murilo de Carvalho, Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, que se refere ao estado de inércia diante dos acontecimentos políticos que acontecem diante dos nossos olhos, porém à nossa revelia e fugindo de nossa compreensão.

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Isso é bastante preocupante pensando, hoje, naqueles que disputam protagonismo no campo da oposição ao bolsonarismo. Ao que tudo indica, eles esperam que a popularidade do governo (ou o próprio governo) caia por uma obra do acaso. E quando o acaso não é agradável, como no resultado da pesquisa, temos pouca coisa a dizer além de atribuir o resultado à manipulação das fake news, igrejas ou qualquer outro agente externo.

Compartilham dessa perspectiva partes substantivas de todas as oposições, sejam elas à esquerda, partidária – como PSOL, PT e PC do B – e não partidarizada, e também aquela identificada com o enorme guarda-chuva político-teórico do liberalismo, que cobre setores mais próximos do desenvolvimentismo e outros mais afins ao “estado mínimo”.

O que parece unir essas oposições é a crença de que denúncias de irregularidades e de corrupção ligadas ao gabinete presidencial levarão a um enfraquecimento natural do bolsonarismo. Ou ainda que a tragédia da pandemia, juntamente com a inépcia do governo ao conduzi-la, provocarão alguma rejeição vinda de grandes partes da opinião pública. Claro, trata-se de uma ideia um tanto mecanicista e determinista, que parece que não se realizará no mundo concreto.

O que já se pode dizer, de fato, é que a oposição vai mal. Acredito que, a essa altura, isso seja consenso. Se não é, entendo que deveria ser. A maioria das leituras indica que o governo é o principal agente até mesmo de suas constantes quedas de popularidade, ao longo dos últimos meses.

O último Datafolha evidencia dois problemas estruturais da oposição: a incapacidade de compreender as raízes do bolsonarismo e seu poder de capilarização e o distanciamento entre a sua agenda política e as demandas reais da população mais pobre.

Como já pontuaram vários analistas políticos, a pesquisa revela um aumento da popularidade de Bolsonaro junto às camadas mais vulneráveis, evidenciando, também, a reação positiva da população à postura mais discreta do presidente. A popularidade do Nordeste também foi relacionada à bem-sucedida iniciativa do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, de investir em obras inacabadas na região, contribuindo para associá-las ao atual governo.

Há um ponto pacífico nas análises. O auxílio emergencial foi bem recebido, e uma parte de sua boa recepção refletiu positivamente nos índices de aprovação do governo. Por mais que ele não esteja sozinho como fator que explique os resultados, ele tem um peso importante.

E é aqui que começam alguns dos problemas da oposição. Como entender, por exemplo, o impacto de medidas que afetam a parte mais pobre da população ou regiões inteiras historicamente marcadas pela pobreza na popularidade do presidente? As respostas a isso têm sido ruins, algumas bastante elitistas, embora difiram no seu grau de elaboração. É bastante comum, por exemplo, a tosca associação do auxílio emergencial ao assistencialismo em troca de apoio e votos. Num mundo que dá muitas voltas, vemos agora essa avaliação atravessada de preconceitos de classe vinda de parte do campo progressista. Me pergunto o quanto esses argumentos se diferenciam ou não daqueles que associavam a popularidade dos governos Lula e Dilma ao pagamento do Bolsa Família.

Há também, especialmente vinda de alguns campos à esquerda, a crítica baseada no arquétipo do “pobre de direita”, que define a parte da população pobre que vota em agendas que a princípio lhe desfavorecem, por serem enganados devido a alguma manipulação ou falsa promessa vinda de elites econômicas e políticas. Por essa via, desenvolve-se outra chave de leitura ao fenômeno: de que atrelar o auxílio emergencial ao governo se dá apenas no campo da comunicação (manipulação, no caso), que funcionaria como um canto da sereia a atraí-los, mais uma vez, a um terrível destino.

É comum também a previsão de que a população pobre necessariamente deixará de aprovar o governo Bolsonaro assim que o dito auxílio se encerrar ou na medida que seu valor cair. Grande parte dessas análises também se ancora no problemático conceito de populismo, usado no sentido de englobar qualquer coisa que fuja do tecnicismo neoliberal de agendas econômicas.

Essas análises têm de fundo um enorme problema: o entendimento a respeito da categoria “povo”, no seu conjunto, mas especificamente da sua parte mais vulnerável do ponto de vista socioeconômico, como parte pouco ou nada autônoma em suas decisões políticas. Segundo tal visão de mundo, o todo da população mais pobre é predominantemente formado por pessoas tuteladas por alguém: seu apoio é comprado por “assistencialismo” e suas consciências são conduzidas por agentes externos, que vão das fake news até as igrejas neopentecostais. Caberia à oposição, nessa perspectiva, apenas esperar que o governo seja desastroso o bastante para que, em algum momento, a população pobre decida por ter outro guia que realize seus “reais interesses” (que, obviamente, não são decididos por ela própria).

E assim surgem explicações que infantilizam a população em diversas frentes. Uma delas é a que reduz o problema do avanço da extrema direita às estratégias de comunicação. Por esse viés, o apoio ao bolsonarismo se daria pelo seu maior sucesso em falar “com o povo”, segundo suas linguagens e códigos, de forma que se fazem entender e conquistam consciências. O campo democrático, à esquerda ou centro-direita, teria perdido espaço por “falar difícil” e por usar estratégias comunicativas ruins por serem eruditas ou complexas em demasia.

Não que a comunicação não seja uma questão das mais substantivas ao campo progressista e sua perda de espaço. O problema, entretanto, está nessa perspectiva de tratá-lo. Quando tudo se resume a “educar”, “esclarecer”, “informar”, “iluminar” o outro (tendo o “eu” sempre em evidência na relação de produzir consciência política) temos um grave problema. Mas voltemos à questão do auxílio emergencial.

Sabemos que a proposta, em grande medida, se assemelha à ideia defendida por décadas pelo atualmente vereador de São Paulo (SP), Eduardo Suplicy, que é o projeto de uma Renda Básica Cidadã. Com efeito, também sabemos que a proposta inicial do governo Bolsonaro era de que o auxílio tivesse um valor de apenas R$ 200,00.

Contudo, parece evidente a conclusão da pesquisa Datafolha de que parte considerável dos receptores do auxílio o associam à figura de Bolsonaro. E o que a oposição faz diante disso? Parece ter desistido dessa disputa, além da briga por outra série de propostas historicamente ligadas ao campo progressista, como a Renda Básica Cidadã, a economia solidária e a participação cidadã na geração e distribuição de riquezas do país, assuntos que, mais do que nunca, deveriam ocupar hoje o centro do debate de ideias.

Em espaços como as redes sociais, existem complexidades enormes que constroem múltiplas camadas de uma mitologia em torno de Jair Bolsonaro, como pesquisas recentes têm mostrado. Necessário aqui retomar a ideia trabalhada por Rosana Pinheiro-Machado de que se trata de uma arena na qual o campo progressista vem perdendo por W.O., referindo-se ao universo dos grupos divulgadores de fake news.

Não é o caso aqui de se resumir às fontes de notícias falsas e conspiracionismos, mas de pensar que as bases de apoio ao bolsonarismo são heterogêneas e autônomas, e disputá-las politicamente exige repensar estratégias. A aprovação dos mais pobres ao atual governo – e isso contando os que votaram e os que não votaram em Bolsonaro – flutua por razões variadas. Uma razão constantemente desconsiderada é o conjunto de demandas materiais dessas pessoas que, por óbvio, aparecem de maneira mais acentuada num contexto de alto desemprego e grande recessão econômica como a que o país já vivia, e que se aprofundou com a crise humanitária gerada pela pandemia.

Atualmente, oposições, sejam a de centro-direita ou a de esquerda, não conseguem, em termos de opinião pública, serem percebidas como agentes de melhoras significativas na vida material da população mais pobre. Não apresentam bandeiras muito concretas, sequer conseguem vincular-se aos olhos dessa população como alternativas viáveis a problemas reais e urgentes, como o desemprego e a pobreza.

O que se vê da oposição de centro-direita, por exemplo, é uma atuação frente ao bolsonarismo sempre pisando em ovos, contundente ao condenar Bolsonaro por suas polêmicas e grosseiras, mas hesitante ao falar da agenda econômica ultraliberal de Paulo Guedes. Quando muito, alimentam expectativas de uma piora (aos olhos de quem?) do governo diante da contradição óbvia entre os ganhos políticos do auxílio emergencial e a manutenção do teto de gastos pela EC 95.

Enquanto isso, a oposição à esquerda permanece um tanto atônita, sem entender como pessoas pobres podem votar no bolsonarismo e aprovar o desenvolvimento de agendas políticas que seriam contrárias, materialmente, a seus interesses. Espera, como disse, um “despertar” do “outro” interno dessa entidade que chamam de povo brasileiro.

A oposição, dessa maneira, deixa de politizar debates fundamentais sobre combater a pobreza e a desigualdade, deixando aí um espaço que o bolsonarismo ocupa com bastante sucesso e pouco esforço, do seu modo, desde a criação do auxílio emergencial. O Nexo mapeou a tentativa de apropriação pelo governo desse programa desde a sua criação, e no âmago de sua campanha estava a narrativa de que o governo não tinha qualquer responsabilidade pela crise. Pelo contrário, fez questão de frisar que se tratava de um programa federal, e não de governadores e prefeitos, estes sim responsáveis por ela devido ao fechamento de atividades não essenciais.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro adotou o discurso da “morte dos CNPJs”, segundo o qual políticas adotadas em função do isolamento social seriam mais nocivas ao país que a própria pandemia. Nisso, o governo criou uma narrativa que antagoniza com imprensa, ciência, prefeitos e governadores, além do próprio Congresso e STF, postos na posição de quem trabalha por um cenário catastrófico de pobreza, o qual o governo dizia querer evitar. Capitaliza, nesse mesmo movimento, os benefícios de um auxilio que, inicialmente, ele mesmo foi contrário.

Concluindo, o problema maior à oposição, a meu ver, é a inação diante desse processo. Distante das bases políticas do bolsonarismo, ela tem assistido o governo vencer as disputas narrativas sem qualquer esforço, se é que existe qualquer “disputa”. Para superar esse problema, é preciso, antes de tudo, abandonar as caixas do “populismo” ou da “manipulação” e admitir que ela não é mais “a campeã do povo”.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O “Entendendo Bolsonaro” do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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