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No WhatsApp, grupos bolsonaristas atacam Maia com meme e notícias falsas

Entendendo Bolsonaro

25/03/2019 13h09

Rodrigo Ratier*

Ataques ao presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) se multiplicaram no fim de semana em grupos bolsonaristas no WhatsApp. Nas comunidades de apoio ao presidente, Maia foi alvo de textos opinativos, memes, vídeos de produtores independentes, notícias falsas ou desatualizadas. De 77 postagens analisadas, apenas 16% traziam reportagens da mídia tradicional.

Para fins de pesquisa, monitoramos no Whatsapp grupos públicos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). Grupos públicos são comunidades que, por decisão dos administradores, podem ser acessadas por quem possuir um link. Por essa característica, muitos grupos públicos reúnem pessoas que não se conhecem. O grupo que embasa este texto, escolhido por ser o mais ativo durante o fim semana, possui integrantes de 58 DDDs diferentes, além de números de fora do Brasil. Os participantes costumam ser pessoas altamente engajadas na causa do grupo. Esses "encaminhadores em série" podem assumir o papel de disseminadores do conteúdo que chegará, posteriormente, a grupos de família, trabalho, amigos e a contatos individuais.

Os primeiros sinais da ofensiva anti-Maia surgiram na quinta-feira à tarde, com a circulação do áudio em que Moro cobra urgência para a tramitação da chamada lei anticrime. Uma das frases do áudio – "Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais" – motivou diversas versões de cards (imagens para compartilhamento em redes sociais) elogiosas ao ministro da Justiça.

A temperatura subiu no sábado, quando 23 das 214 mensagens trocadas (11% do total) criticavam Maia, e atingiu o ápice no domingo, quando 55 dos 224 conteúdos (24%) eram de ataque.

Produções da mídia tradicional foram minoria. Apenas 16% das postagens anti-Maia traziam links para vídeos ou textos da grande imprensa. Somente 3% pode ser consideradas postagens sem interferência:  a maioria incluía texto ou edição de vídeo sugerindo uma interpretação. Exemplo: ao introduzir trecho de entrevista de Maia ao jornal da Band, internauta comenta: "Rodriguinho, após 1 dia de pressão nos zazap da galera ele arregou!! Prometeu ser obediente":

Em 18% dos casos, o conteúdo pode ser atribuído ao que os pesquisadores Márcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado denominam de mídias hiperpartidárias – aquelas que produzem "informação de combate", para defender uma posição política e combater outras, utilizando, muitas vezes, procedimentos de distorção e fabricação de fatos. Uma manipulação recorrente foi a apresentação da ligação entre Maia e o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, como uma revelação "Urgente". Os inquéritos sobre repasses da OAS e da Odebrecht à Maia são, na verdade, de 2017:

Cards requentaram uma outra polêmica de 2017, surgida na esteira da eleição para a presidência da Câmara: a de que Maia, por ser nascido no Chile, não seria "brasileiro nato" e, portanto, não poderia assumir o cargo.

A informação é falsa. Rodrigo Maia foi registrado em Santiago porque seu pai, César Maia, se encontrava exilado pela ditadura. Mas o artigo 12 da Constituição não deixa dúvidas: são brasileiros natos "os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira".

Memes representaram 34% dos conteúdos anti-Maia. Duas linhas discursivas sobressaíram. Na primeira, associações do parlamentar à "velha política", interessada em cargos e na defesa dos próprios interesses:

Sem indicar data, a postagem abaixo recupera caso de 2016, cuja declaração ("O Congresso não é obrigado a ouvir o povo") é considerada enganosa por sites de checagem de fatos. O site da Câmara tem a íntegra do discurso em que ele diz algo próximo à mensagem ("Nós aqui não somos obrigados a aprovar tudo que chega a este Plenário"):

Uma outra vertente dos memes é a humorística. Ao longo do fim de semana, Maia foi alvo de montagens que o comparam à boneca Momo e ao personagem Nhonho:

A menção ao seriado Chaves veio acompanhada de um convite à ação direta ("bora mostrar pro Nhonho a força da milícia digital"). Foi essa a tônica dos chamados textos nativos, publicados diretamente no Whatsapp. Eles respondem pelos 33% restantes dos conteúdos contra o presidente da Câmara. No exemplo a seguir, o autor da mensagem comemora: "O MAIA está apanhando demais nas redes sociais, não vamos parar" e reforça o convite, novamente em tom bélico, para a ação digital: "Meninos e meninas da TROPA, por favor, levantar a tag ao máximo #EuApoioNovaPrevidencia".

Maia, por sua vez, escolheu a mídia tradicional para se queixar dos ataques. Desde a semana passada, vem adotando as entrevistas a diversos órgãos de imprensa como estratégia preferencial para reagir.

* Rodrigo Ratier é jornalista e professor do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Doutor em Educação pela USP, assina o blog Em Desconstrução, também no UOL

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Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

 

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Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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