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Governo Bolsonaro: entenda por que é Carlos quem dá as cartas

Entendendo Bolsonaro

2017-04-20T19:22:10

17/04/2019 22h10

(Crédito: Sergio Lima/AFP)

*Deysi Cioccari

A imprensa reclamou dele. O Congresso reclamou dele. O partido do presidente reclamou dele. O presidente e o vice-presidente da Câmara reclamaram dele. Paulo Guedes reclamou dele.

Carlos Bolsonaro não possui mandato formal na presidência do país e não tem a visibilidade social requerida para falar em nome dos outros, principalmente quando esse outro é o presidente da República.

Mas desde a campanha eleitoral em 2018, quando coordenava as mídias digitais de Jair Bolsonaro, foi Carlos quem falou em nome do então candidato e desde a posse adquiriu visibilidade por meio de seu poder ordenado pelo pai.

A campanha de primeiro turno do atual presidente quebrou quase todas as regras de marketing político, quando utilizou imagens não fabricadas, abriu mão de um marqueteiro e abusou da informalidade.

Ao chegar ao segundo turno, a estratégia se tornou ainda mais radical. Ao evitar a ida aos debates e aos eventos de rua com os argumentos de recuperação do atentado à faca e do receio de "ações terroristas", o capitão reformado mostrou mais uma vez a força das redes sociais.

Se tudo parecia improvisado, o crescimento consolidado a cada pesquisa mostrou um preparo, sob o ponto de vista da comunicação, poucas vezes visto num candidato. O aparente amadorismo foi capaz de angariar apoios e colaboradores espontâneos. Isso tudo comandado pelo filho Carlos, que, além de coordenar a comunicação do pai, não escapou de atritos com integrantes da campanha.

Gerindo as redes sociais de Jair, Carlos deu o tom informal que aproximou o então candidato de grande parte da população que se sentiu representada pela alcunha do "mito".

Carlos foi cotado para chefiar a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, mas, após críticas de nepotismo, manifestou-se dizendo que deixaria, inclusive, a comunicação das redes sociais do pai. Contudo, desde que, segundo ele, deixou de atualizar as contas do presidente eleito, Carlos intensificou as críticas à imprensa, a quem, no Twitter, culpou por ter seu plano frustrado:

Na época, foi indicado o nome de Gustavo Bebianno como ministro-chefe da Secretaria-Geral, que abrigaria a Secom. Ao contrário do que aconteceu com os outros 12 ministros, sua escolha foi a única não divulgada por Bolsonaro nas redes sociais. Bebianno e Carlos travaram uma batalha desde a campanha, e a escolha do advogado para a Secretaria-Geral intensificou o mal-estar.

Mas chegava, então, a posse do presidente eleito. E foi justamente Carlos quem desfilou no Rolls-Royce, em 1º de janeiro de 2019. A influência de Carlos, claramente, ultrapassa a rede social. A presença dele no desfile de posse não é uma simbologia de um pai que leva um filho no carro da posse. É uma confirmação de seu poder.

Após a posse, é Carlos quem dá as cartas nos primeiros meses de governo. A primeira crise foi gerada por ele. Em tuítes, Carlos Bolsonaro acertou seu alvo antigo: desmentiu o ministro Gustavo Bebbiano (Secretaria-Geral), o mesmo que, logo depois, se tornaria a primeira queda do governo Bolsonaro. Carlos disse que o ministro mentiu ao afirmar que falou com o presidente durante sua internação: 

De acordo com "zero dois", o ministro teria faltado com a verdade ao dizer que conversara com o presidente e que estaria tudo bem em relação às suspeitas de uso de candidaturas laranjas pelo PSL na eleição passada, quando Bebbiano presidiu o partido.

A dureza com que Carlos Bolsonaro tratou Bebbiano deixou claro que ele estava falando em nome do presidente da República. Em seguida, em 3 de março de 2019, Jair Bolsonaro utilizou as redes sociais para defender seu filho das acusações de que vinha se intrometendo na administração do governo. Através de sua página no Facebook e no Twitter, o presidente lembrou que foi por causa de Carlos que saiu vitorioso na campanha eleitoral de 2018.

Carlos tem protagonizado a cena política brasileira sem chances para um coadjuvante. Despachou no gabinete do pai enquanto esse estava em viagem oficial aos Estados Unidos. À época, disse ele no Twitter:

"Zero dois" conseguiu irritar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que chegou a procurar interlocutores no governo afirmando que era preciso conter Carlos sob o risco de o deputado abandonar a articulação para aprovação de uma das maiores promessas de campanha, a reforma da Previdência.  Tudo porque, novamente no Twitter, o filho "zero dois" de Bolsonaro compartilhou a resposta do ministro da Justiça, Sérgio Moro, à decisão de Maia de não priorizar o pacote anticrime, que prevê medidas de combate à corrupção:

Acreditar que tudo isso é feito sem a concessão do pai seria desconhecimento do jogo político. Trata-se de uma estratégia de comunicação endossada por Bolsonaro dentro de uma guerra cultural do nós contra eles, onde o "eles" é sempre um inimigo a ser combatido, e não um específico.

Uma tática específica desenvolvida desde a campanha, na qual a polarização PT x PSDB deu lugar a uma disputa de narrativas em que não há mais a preocupação do debate, mas pura e simplesmente confirmar que o outro, o inimigo, está errado.

O combate à "velha política" não é algo novo, bem como o conflito intermitente. Carl Schmitt já nos dizia que a política é um campo próprio e o político tem que ser autônomo. Na mesma linha, Bolsonaro segue o discurso já preconizado pelo autor de que o objetivo do político é essa noção de amigo-inimigo da mesma forma que o domínio da moral é determinado pelas noções de bem e mal e o estético pelas de belo e feio. Mas Bolsonaro esbarra, e é o que vemos após cem dias de governo, na incapacidade de estabelecer unidade.

Dos três filhos do presidente que atuam na política, Carlos é o possuidor da fala mais beligerante. Essa é uma estratégia que cumpre papel importante nessa lógica amigo-inimigo. Há coisas difíceis e politicamente complicadas que um presidente não pode e não deve dizer. É útil que haja quem diga por ele. Assim, o presidente se preserva (ou deveria), adotando tom mais moderado (deveria), como pede o cargo, mas tem um aliado estratégico. Nesse caso, "zero dois".

A crise de credibilidade que atinge o governo Bolsonaro culmina, em pouco mais de cem dias, com o isolamento de quem parece não entender ainda que está no posto mais alto do país. Bolsonaro refuta a formalidade do cargo com indiretas por redes sociais.

Recorrendo novamente a Schmitt, o antagonismo amigo-inimigo é, de todos, o mais forte e intenso, que não afasta de si a possibilidade de provocar ou mesmo de sofrer a morte física. É o grau extremo da política, aplicado ao limite da sua conceituação.

Mas Bolsonaro parece não perceber que chegou ao limite. Mantém seu filho como peça fundamental do seu "novo" estilo de governar. E, quando todos reclamam: "Está leve demais" – afirma o presidente. – "Pode bater bem mais forte".

*Deysi Cioccari é doutora em Ciência Política pela PUC-SP e pós-doutoranda em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero.

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Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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