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Nacionalismo pragmático: a lição da Índia de Modi ao governo Bolsonaro

Entendendo Bolsonaro

2023-05-20T19:13:32

23/05/2019 13h32

(Crédito: Getty Images)

* Vinícius Rodrigues Vieira

O primeiro-ministro indiano Narendra Modi acaba de ganhar mais cinco anos de mandato à frente do país asiático, após assegurar maioria absoluta no parlamento. O BJP, partido nacionalista hindu — ao qual Modi é afiliado —, conquistou cerca de 300 cadeiras na Lok Sabha, a câmara dos deputados da Índia, que indica o chefe de governo do país. Para continuar no poder, Modi precisava do apoio de apenas 272 deputados.

Terá, portanto, larga margem para levar a cabo sua agenda nacionalista, que enfatiza a herança hindu sobre as demais na formação da Índia. O resultado contraria analistas que previam até mesmo sua derrota devido a problemas econômicos enfrentados por agricultores (que perfazem até dois terços da população indiana) e acusações de fazer vista grossa a perseguições sofridas por minorias, em particular muçulmanos (que são 14% dos indianos) e membros de castas baixas (os dalits).

Nacionalista e sectário em assuntos domésticos, Modi revelou-se extremamente pragmático na política externa. Seu êxito deveria servir de inspiração para o presidente Jair Bolsonaro equilibrar sua visão de mundo conservadora e até mesmo religiosa com a necessidade de sermos um global trader — isto é, um país que se relaciona bem com os demais desde o ponto de vista comercial.

São muitos os riscos que exportadores de carne de vaca e frango sofrem com a decisão (por ora suspensa) de Bolsonaro de mover a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo, assim, a cidade sagrada como capital israelense. Isso porque o Brasil é o maior exportador do mundo com certificação halal — o abate de animais para consumo de acordo com preceitos islâmicos. Mas seria possível cooperar com Israel sem afugentar os países árabes e/ou muçulmanos?

O caso da Índia indica que a resposta é sim. De fato, se pudesse recomendar a Bolsonaro imitar algum líder nacionalista da atualidade em matéria de política externa, eu indicaria Narendra Modi, no comando de seu país desde 2014 e líder de um partido declaradamente de direita, populista e com elementos significativos de liberalismo econômico — embora seja difícil ser liberal numa economia que, como a indiana, ainda tem dificuldade em reduzir os índices de pobreza apesar do crescimento econômico robusto.

Modi reforçou os laços já sólidos com Israel e o Irã, país cujos líderes proeminentes já declararam a intenção de eliminar o Estado judeu. Ademais, a Índia é próxima aos EUA desde 2005, quando era governada por uma coalizão de centro-esquerda liderada pelo Partido Congresso Nacional Indiano, e, em fevereiro passado, anunciou uma parceria estratégica econômica com a Arábia Saudita — líder entre países de maioria muçulmana sunita, que, por questões mais políticas que doutrinárias, opõem-se aos xiitas que perfazem a maioria no Irã.

Aliás, a parceria com os sauditas — sobretudo em investimentos — surpreende, ainda mais considerando as ligações entre eles e o Paquistão, vizinho indiano com o qual ainda há tensões significativas — a última delas, entre fevereiro e março, quase provocou uma guerra.

Será que o Brasil teria condições de emular tamanho malabarismo — ou, melhor dizendo, o "Modismo"—, que não se constrange em valorizar a herança hindu sobre o islã em casa, mas busca pontes com o mundo muçulmano?

No cenário internacional, o poder de barganha da Índia é maior que o do Brasil. Com armas nucleares — defendidas pelo deputado Eduardo Bolsonaro como solução para o Brasil ser levado a sério no mundo  e vizinha à China, Nova Deli atrai o interesse daqueles que querem conter a influência de Pequim.

Mas, conforme já discutido neste blog, Bolsonaro tem, sim, como ampliar a força do Brasil sem recorrer a armas nucleares e outros elementos militares de poder — basta não fazer aquilo que aconteceu em Washington em março, quando nosso presidente ofereceu aos americanos concessões significativas em comércio sem contrapartidas claras.

Tal como nosso presidente, Modi chegou ao poder cercado por controvérsias envolvendo minorias. Quando foi premiê de Gujarat, um dos estados indianos mais industrializados, ele foi acusado de fazer vista grossa a um massacre de muçulmanos em 2002.

Quando o assunto é relações internacionais, porém, Modi não reinventou a roda— diferentemente, portanto, do que Bolsonaro parece fazer com nossa política externa ao violar pilares que fundamentam a atuação internacional do Brasil pelo menos desde o pós-guerra — isto é, a busca por soluções pacíficas para conflitos internacionais, a não-intervenção em assuntos de outros países e a ênfase no multilateralismo representado por instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU), hoje vistas pelo governo como pilares de um suposto "globalismo" que violaria a soberania e os valores nacionais.

Mais que o Brasil, a Índia tem historicamente uma postura de independência em suas relações internacionais, tendo sido um dos fundadores e talvez o líder mais forte do Movimento Não-Alinhado, que, durante a Guerra Fria, congregou boa parte do mundo em desenvolvimento que se libertava do colonialismo.

Com a vitória dos EUA na Guerra Fria e o triunfo do capitalismo liberal nos anos 1990, a Índia adaptou-se aos novos tempos, abrindo sua economia paulatinamente, mas sem aderir totalmente à Pax Americana. O teste nuclear de 1998 é o maior indício disso. Os indianos sofreram sanções num primeiro momento, mas desde 2005 são reconhecidos pelos EUA como uma potência nuclear e colaboram extensivamente com os norte-americanos.

Para ficar próxima a Washington, Nova Deli mobiliza os migrantes indianos e seus descendentes na terra do Tio Sam— o oposto do que Bolsonaro fez ao criticar os supostamente mal-intencionados brasileiros que imigraram para a América. Cabe registrar que o presidente fez um mea culpa depois.

No entanto, o episódio— assim como a postura de deferência perante Trump e os EUA reiterada durante a visita ao Texas — demonstrou a falta de traquejo de Bolsonaro para maximizar oportunidades em política externa. Seus ministros Paulo Guedes, da Economia,Ernesto Araújo, de Relações Exteriores, tampouco têm ajudado a melhorar a situação do país no cenário político-econômico mundial.

Bolsonaro desafia as bases acadêmicas que tendem a ver mais continuidade que rupturas entre governos quando o assunto é política externa, conforme nos ensina a professora Miriam Saraiva, da UERJ. Como ele conseguiu neutralizar o Itamaraty e sua concepção de interesse nacional ainda renderá bastante discussão entre os estudiosos de política externa brasileira. Isso é tarefa para os acadêmicos nos anos vindouros ainda que haja correção de rumos nos próximos meses.

A Bolsonaro, caberia conversar com Modi para arejar a cabeça e perceber que nacionalismo e diversificação de parcerias internacionais não são mutuamente excludentes. O presidente poderia continuar a defender sua agenda conservadora, enfatizando a herança ocidental sobre as demais que nos formaram, sem, porém, entrar em atrito com o mundo árabe-muçulmano. Trata-se de um mercado que, além de importar parte significativa de nossa produção de carne de vaca e frango, estará em franca expansão neste século.

O encontro dos BRICS que o Brasil sediará em novembro será uma oportunidade imperdível para que o presidente troque uma ideia com Modi e, eventualmente, perceba que é possível equilibrar sua visão de mundo com a manutenção e expansão de mercados para exportadores brasileiros. Bolsonaro tem muito o que aprender com os indianos, que buscam construir o interesse nacional alinhando metas de longo prazo com as demandas imediatas de exportadores e investidores, independentemente da agenda religiosa-cultural do governo. Mais malabarismo e menos bolsonarismo: para a economia e a política externa brasileira, a troca seria mais do que bem-vinda.

* Vinícius Rodrigues Vieira é professor visitante do Departamento de Relações Internacionais da USP

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