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Amazônia: gestão ideológica deve aprofundar crise internacional

Entendendo Bolsonaro

28/08/2019 00h41

(Crédito: Reprodução/Twitter)

*Igor Tadeu Camilo Rocha

A recente onda de incêndios na Amazônia pode gerar uma crise sem precedentes nas relações exteriores do Brasil. É o que tudo indica, sobretudo após as recentes e veementes críticas do presidente francês Emmanuel Macron a respeito da postura de Jair Bolsonaro quanto a políticas ambientais.

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Para Macron, o fogo na Floresta Amazônica é assunto de interesse transnacional. O que pode significar, para o Brasil, estar no centro de uma crise internacional, e na desagradável posição de seu causador? Ao contrário do que disse no Twitter o general Villas Bôas, considero pouco factível a possibilidade de uma intervenção armada. Mas as consequências graves podem vir.

A maior parte das consequências devem ser decorrentes da própria posição brasileira dentro de um complexo quadro geopolítico, associada ao novo alinhamento ideológico das relações exteriores sob o governo Bolsonaro. Deve-se levar em conta, ainda, alguns aspectos internos dos países que se colocam, no momento, como agentes de uma pressão internacional sobre o atual governo brasileiro no que diz respeito à Amazônia e à política ambiental.

O Brasil, historicamente, está localizado numa posição de país periférico do capitalismo como exportador de commodities, comprados a um custo relativamente baixo por países centrais, como os do G-7, que também não arcam com o ônus ambiental dentro de suas fronteiras. Pode-se associar tal realidade a diversas razões. Uma delas é a racionalidade liberal, na qual dentro de um sistema econômico mundial o Brasil teria uma "vocação" primário-exportadora, com vantagens competitivas quanto a esses produtos no comércio internacional.

Outra seria um imediatismo das elites econômicas e políticas brasileiras, as quais, exceto em raros momentos, nunca apresentaram algo que se assemelhe a um projeto de transição econômica e de desenvolvimento a longo prazo. Para tal, seriam necessárias algumas décadas de forte investimento em ciência e tecnologia – algo diametralmente oposto à política de desmonte desse setor pelo atual governo – além de políticas específicas de proteção da indústria nacional e de setores estratégicos para tanto.

Só assim poderia haver uma passagem do Brasil à condição de país exportador de produtos de alto valor agregado e economicamente diversificado. Casos como o da Coreia do Sul e da China – este ilustrado por artigo amplamente divulgado no site da Confederação Nacional das Indústrias – apontam para isso.

Outro problema da dependência das commodities é o fato de que o Brasil não possui qualquer poder de influenciar internacionalmente as oscilações de preços desses produtos. Em grande medida, a crise econômica atual se explica pela queda de demanda da China por elas.

E é nesse ponto que entra um possível grande prejuízo ao Brasil. A Finlândia, país que detém a presidência rotativa da União Europeia, pediu em 23 de agosto que os países do bloco avaliem o banimento das importações de carne brasileira. Seria uma retaliação dura ao país, sobretudo considerando o contexto de depressão econômica do Brasil, visto que tais exportações representaram, em 2018, o valor de U$ 544,3 milhões.

No mesmo dia 23, França e Irlanda ameaçaram a não ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Em meio a isso, várias lideranças europeias, algumas de campos político-ideológicos antagônicos, fizeram coro a possíveis sanções ao Brasil motivados por nossa política ambiental.

Boris Johnson, primeiro ministro britânico, trata a crise na Amazônia como "crise internacional", ao passo que Angela Merkel, chanceler alemã desde 2005, se refere aos incêndios como "situação urgente". Macron ainda acusou Bolsonaro de ter mentido em pontos relacionados ao combate ao aquecimento global na reunião do G-20, acontecida em junho.

Vários protestos foram convocados no mundo todo em frente a embaixadas brasileiras, além de se multiplicarem movimentos sobre o boicote a produtos do Brasil. Ademais, é importante considerar alguns aspectos internos aos países do G-7, que poderão nortear algumas possíveis ações desses países contra o Brasil, por exemplo, o fato de haver pressões internas em países da União Europeia contrárias ao acordo com o Mercosul.

Sabe-se que grupos ambientalistas europeus são grandes críticos a esse acordo, o que tem um peso importante visto que houve uma ascensão dos "partidos verdes" no Parlamento Europeu nas eleições deste ano. No caso francês, há ainda a particularidade de um dos países amazônicos, a Guiana Francesa, ser um departamento ultramarino da França, o que reforça interesses estratégicos na região.

Mais que isso, Macron é o grande adversário político da extrema direita francesa, representada pela Front Nationale. Ainda que a principal representante desse partido, Marine Le Pen, já tenha feito declarações contrárias a Bolsonaro, é comum entendê-los como parte da mesma onda de populismos de extrema direita ao redor do mundo. Portanto, politicamente, "derrotar" Bolsonaro significa algo a mais para Macron, pensando nos cenários francês e europeu.

As possíveis sanções de países do G-7 e blocos como a União Europeia ao Brasil podem ser severas, e o curso que a pasta de relações exteriores brasileiras assumiu sob Bolsonaro não parece ser dos melhores para minimizá-las. Ernesto Araújo tem feito diversas declarações negacionistas sobre a crise climática. Elas vão desde as conspiratórias, associando-a a uma suposta conspiração da esquerda, até outras pautadas por puro anti-intelectualismo vulgar, como a que negou o aquecimento global por ter sentido frio em uma viagem.

Enquanto chanceler, Araújo lidera a mais ideológica agenda de relações internacionais já implementada por um governo brasileiro. Historicamente, ainda que em diversos momentos o Brasil tenha se alinhado internacionalmente a potências, a marca mais acentuada de sua política externa é o pragmatismo.

Porém, no atual governo, a retórica da guerra ideológica foi trazida também a esta pasta. O alinhamento subserviente aos Estados Unidos, uma desnecessária possibilidade de mudança de embaixada brasileira em Israel para Jerusalém ou uma declaração do Hezbollah como "grupo terrorista" – algo que pode trazer grandes prejuízos às relações comerciais com os países árabes – são exemplos disso.

No Twitter, o compartilhamento pelo talvez futuro embaixador Eduardo Bolsonaro de um vídeo no qual o presidente francês é chamado de "idiota" também é forte indício de que nossa atual política externa pode ser um elemento complicador nessa crise internacional.

O "dia do fogo", promovido por fazendeiros com intenção de "mostrar trabalho para o presidente Jair Bolsonaro", bem como a repercussão internacional de documentos vazados que apontam para um plano de sabotar esforços de conservação ambiental da Amazônia – termos do inglês The Independent – também não contribuirão para amortecer a pressão internacional, tampouco para afastar de Bolsonaro a imagem de causador da onda de incêndios na maior floresta tropical do mundo.

Os prejuízos em diversos âmbitos, como o ambiental e econômico, podem ser enormes, e nem a ausência de uma (repito, pouco provável) ação militar estrangeira no Brasil poderá minimizá-los. A maior aposta, no momento, é de haver sanções que afetem a espinha dorsal de uma economia dependente como a brasileira, que são as commodities.

Mas ainda há um leque incontável de consequências das políticas irresponsáveis nas pastas de meio ambiente e relações exteriores neste governo. E os impactos sociais podem ser dos mais significativos.

*Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

ERRATA: Havíamos nos referido a Flávio, e não Eduardo Bolsonaro, como "talvez futuro embaixador". Pedimos desculpas pelo erro.

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