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Entendendo Bolsonaro

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Com "ideólogos do caos", extrema direita constrói um projeto global

Entendendo Bolsonaro

24/10/2019 01h04

O ex-estrategista da campanha de Donald Trump, Steve Bannon, discursa ao lado da principal líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen (Crédito: AP)

*Cesar Calejon 

O que Donald Trump, Roger Stone, John Bolton, Steve Bannon e Robert Mercer, por exemplo, possuem em comum com o Brasil? Todas estas figuras, exceto o presidente dos Estados Unidos, são totalmente desconhecidas no País e influenciaram, direta ou indiretamente, o rumo das eleições presidenciais brasileiras de 2018 de forma substancial.

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Eleito em 2016, Trump ofereceu a referência ideal de um homem de negócios branco, bem-sucedido, misógino, racista, agressivo e que, ainda assim, foi capaz de se tornar "o líder da maior nação do mundo". Para o brasileiro médio, que usa os Estados Unidos como modelo, este foi um aspecto fundamental para tornar Bolsonaro muito mais palatável. Foi elementar para fortalecer o estereótipo do sujeito tradicional (conservador), meritocrata, provedor e que deve ser forte para "vencer a qualquer custo".

Com uma tatuagem do rosto de Richard Nixon, ex-presidente estadunidense, estampada nas costas, Roger Stone, um dos principais consultores políticos da campanha de Trump em 2016, foi talvez a figura central responsável por estimular estes tipos de raciocínios na população mais conservadora dos Estados Unidos e, consequentemente, do Brasil e de outras partes do mundo em seguida.

Em seu livro, intitulado Stone's Rules: How to Win at Politics, Business and Style (Regras do Stone: como vencer em política, negócios e estilo), Stone elaborou uma série de regras para sintetizar todo o pragmatismo da sua filosofia de vida e de trabalho, entre as quais o autor ressalta que "é melhor ser infame do que totalmente desconhecido", vale absolutamente tudo para vencer e que um bom político nunca deve admitir nenhum erro, mas sim negar tudo e lançar-se imediatamente ao contra-ataque.

"Você tem que ser ultrajante para ser notado e vencer", diz Stone, que se autointitula "um jogador sujo" e "o inventor" das campanhas falsas e difamatórias nas disputas políticas. Soa familiar?

Roger Stone foi detido pelo FBI em janeiro de 2019 em sua residência, na Flórida (EUA), acusado de mentir aos investigadores estadunidenses sobre os esforços dos principais assessores de campanha de Trump para descobrir e-mails que o governo russo roubou da campanha da democrata Hillary Clinton, em 2016. O caso inclui obstrução de justiça e adulteração de testemunhas.

Stone é o exemplo clássico do que eu chamo de "ideólogo do caos": burocratas com décadas de experiência na máquina política norte-americana que utilizam uma filosofia absolutamente utilitarista (e ultrajante) para causar impacto junto às massas e viabilizar a atuação de nações (e grupos muito poderosos) no sentido de influenciar os rumos políticos de outros países. Apesar disso, nos dias atuais, basicamente todas as principais potências do mundo utilizam recursos similares para exercer influência sobre a percepção pública e as eleições de outras sociedades. São os jogos dos estados modernos.

Por exemplo, no livro As entrevistas de Putin, do cineasta Oliver Stone, o presidente russo afirma que "os nossos parceiros europeus e norte-americanos conseguiram tirar proveito do descontentamento do povo ucraniano. Em vez de tentarem descobrir o que de fato acontecia, eles decidiram apoiar o golpe de estado", diz Putin, que por sua vez é acusado pelos Estados Unidos de interferir diretamente nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, favorecendo o então candidato republicano Donald Trump. A eleição presidencial estadunidense de 2016 foi muito apertada e ter amigos no Kremlin pode ter significado a diferença entre a derrota e a vitória para Trump.

"Sabemos acerca das ONGs que atuavam na Ucrânia. Sabemos que Victoria Nuland, subsecretária de Estado para a Europa Oriental, acho, era muito ativa no apoio à mudança do governo. Sabemos que o senador John McCain foi visto em manifestações com líderes extremistas, incluindo alguns neonazistas. Sabemos que a National Endowment for Democracy, que também é uma ONG muito influente, era muito ativa ali. Paul Jershman, que era o presidente dessa fundação, fez discursos muito enfáticos, defendendo uma Ucrânia independente. E sabemos que o bilionário George Soros, financiador de hedges, também estava muito envolvido no apoio a grupos ucranianos", escreve o cineasta Oliver Stone, referindo-se à atuação do seu próprio governo (EUA) e do bilionário Soros no sentido de desestabilizar o governo ucraniano entre os anos de 2013 e 2014.

Este caso, que ficou conhecido no Ocidente como a Revolução Ucraniana de 2014 (assim como no Brasil, entre 2013 e 2014 também houve inúmeros protestos na Ucrânia) representa bem o xadrez, todos os tipos de agentes clássicos destes jogos de estados modernos e como cada qual se movimenta no tabuleiro para avançar as suas posições, explorando os ímpetos preexistentes em determinada população.

"Em meu filme Snowden, me foi contada a seguinte história: em 2007 e 2008, Snowden servia no Japão e a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) pediu para os japoneses espionarem sua população. Os japoneses disseram 'não', mas nós (estadunidenses) os espionamos assim mesmo. Mas não paramos nisso. Como conhecíamos o sistema de comunicação japonês, instalamos malwares na infraestrutura civil, para a eventualidade de o Japão deixar de ser nosso aliado. Snowden também descreveu situações semelhantes no Brasil, no México e em muitos países europeus. É bastante surpreendente que façamos isso com os nossos aliados", lamenta Oliver Stone em seu livro.

Jogos de estados das sociedades civis modernas: conquiste a opinião pública seja como for, por meio do ódio e do medo caso esta abordagem funcione, para vencer. Mas, para fazer isso, é preciso estar presente, escutar, observar, entender e manipular o que as pessoas sentem de forma mais ou menos coletiva em certa sociedade. Ainda no dia 29 de novembro de 2018, cerca de um mês antes de ser empossado, o então presidente-eleito Jair Bolsonaro recebeu em sua casa, no Rio de Janeiro, o então 27º assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos. John Bolton, conhecido por avançar sugestões ultraconservadoras, tais como o fim das Nações Unidas e o não cumprimento das regras internacionais, por exemplo, ficou na casa do presidente brasileiro por menos de uma hora em reunião que foi realizada a portas fechadas.

Em março de 2002, Bolton, que então ocupava o cargo de Subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional no governo Bush, conseguiu derrubar o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, que era o diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), em Haia, na Holanda. Bolton foi um dos principais defensores da tese de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa para justificar a invasão do país pelos EUA, o que aconteceu em 2003.

"Quando anunciei que teríamos dois novos membros, Iraque e Líbia, os americanos ficaram alucinados. Eles sabiam que faríamos inspeções no Iraque e isso demonstraria que Saddam não tinha armas químicas. Como já tinham planos de invadir o país, disseram-me que eu não tinha o direito de aceitar os dois países sem antes consultar os Estados Unidos", disse Bustani à Folha em entrevista publicada no dia 30 de março de 2018. Bolton é outro típico "ideólogo do caos".

Mais um exemplo de como tais conselhos que visam a estimular o medo e o ódio presentes em determinada população foram explorados por grupos externos pode ser verificado com o estudo de caso do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

No dia 26 de junho de 2016, os britânicos foram às urnas e votaram pela retirada do Reino Unido do bloco da União Europeia. "Uma sombria operação global envolvendo big data, amigos bilionários de Trump e as forças díspares da campanha Leave (em favor da saída da UE) influenciaram o resultado do referendo da UE. Agora, a Grã-Bretanha se dirige às urnas novamente, mas o nosso processo eleitoral ainda está apto para servir o seu propósito?", questionou a jornalista Carole Cadwalladr em seu texto publicado pelo jornal inglês The Guardian, no dia 7 de maio de 2017.

De acordo com Cadwalladr, um ex-funcionário da empresa Cambridge Analytica lhe contou os detalhes de como estas operações funcionam. "Em janeiro de 2013, um jovem pós-graduado americano estava passando por Londres quando foi chamado pelo chefe de uma empresa onde ele havia estagiado anteriormente. A empresa, SCL Elections, foi comprada por Robert Mercer, um bilionário oculto de hedge funds, renomeada como Cambridge Analytica e ficou famosa como a empresa de análise de dados que influenciou as campanhas de Trump e do Brexit", introduz o texto da jornalista.

Nesta matéria, o ex-funcionário da Cambridge Analytica explica como o Brexit foi influenciado pelo que ele chama de "Psyops: Operações psicológicas. Os mesmos métodos que os militares usam para efetuar a mudança do sentimento em massa. É o que eles querem dizer com 'corações e mentes'. Nós estávamos apenas fazendo isso para ganhar as eleições nos tipos de países em desenvolvimento que não têm muitas regras", afirma o entrevistado.

O resultado do Brexit derrubou o mercado financeiro e causou descrença em todo o planeta. No começo da madrugada seguinte à votação, manhã na Ásia, a libra esterlina atingiu o menor valor em relação ao dólar em mais de três décadas. Na Ásia, as Bolsas despencaram em Seul (-4,09%), Tóquio (-7,22%) e Hong Kong (-4,67%). Mesmo com todo este caos, o The Movement e o seu idealizador, Steve Bannon, que também foi o estrategista-chefe da campanha de Trump em 2016, estavam apenas começando.

Em entrevista publicada pela Folha, no dia 29 de outubro de 2018, Bannon, que manteve um contato próximo com Eduardo Bolsonaro durante todo o período eleitoral, diz que Jair Bolsonaro é um "líder populista nacionalista brilhante" e vai trazer o The Movement ao Brasil.

"Estou muito focado em transformar o The Movement em algo global e o Bolsonaro é parte disso. Passei muito tempo estudando o Brasil e acompanho de perto a política", afirmou Bannon, que possui esta aliança internacional de bilionários, plutocratas, tecnólogos e líderes políticos da "ultra-direita liberal", com Donald Trump (EUA), Robert Mercer (EUA), Matteo Salvini (Itália), Giorgia Meloni (Itália), Luigi Di Maio (Itália), Geert Wilders (Holanda), Marine Le Pen (França), Mischaël Modrikamen (Bélgica), Sebastian Kurz (Áustria), Viktor Orban (Hungria), Nigel Farage (Reino Unido), Recep Erdogan (Turquia) e Rodrigo Duterte (Filipinas), por exemplo. Algumas das mentes mais conservadoras do planeta.

Ao que tudo indica, processos similares deverão ocorrer novamente ao redor do mundo em 2020.

*Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais e escritor, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI".

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Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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