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"Guedes é ministro de uma nota só", diz economista

Entendendo Bolsonaro

19/05/2020 23h32

(Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

* Cesar Calejon

A maior retração da série histórica. Conforme deixou claro o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, na terça (19), a queda do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro em patamar superior a 5% neste ano já é o principal cenário projetado tanto por analistas do mercado como pelo governo federal.

Se confirmado, este será o resultado mais negativo do PIB nacional desde quando começaram os registros oficiais pelo Banco Central (BC), em 1962. O recorde atual consta de 1982, quando foi contabilizada uma queda de 4,39%.

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Para avaliar a abordagem do governo federal diante desta crise sem precedentes e refletir sobre o que nos aguarda após o pico da crise sanitária no Brasil, o blog conversou com Simone Silva de Deos, professora do Instituto de Economia (IE) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Segundo Deos, a resistência do governo às políticas de isolamento revela-se deletéria não apenas em razão das mortes provocadas, mas por ser, também, prejudicial à recuperação econômica. "Todos estão preocupados com as consequências econômicas, mas já sabemos que essa precipitação em abrir a economia e a negação da pandemia somadas ao ataque contra as medidas de distanciamento social deverão piorar significativamente as condições da própria retomada econômica."

De acordo com ela, a situação que temos pela frente possivelmente jamais foi experimentada na história do capitalismo. "Talvez, a crise dos anos 1930 – que se seguiu à queda da bolsa (de 1929), afetou fortemente os Estados Unidos, a Europa e até a periferia do sistema – seja uma referência. Hoje, não temos ainda como saber se (a crise econômica gerada pela pandemia) será ainda pior do que foi a dos anos 1930. Mas acho que esse é o parâmetro", aponta.

A professora classifica como "catastróficas" as medidas econômicas propostas pelo governo federal até aqui. "Considerando as políticas para mitigar o impacto da crise para as famílias e os trabalhadores, basicamente, o auxílio emergencial de R$ 600 por mês – cuja proposta original era de apenas R$ 200 – , que é baixo, está com dificuldade de 'chegar' a quem precisa e a renovação por mais tempo encontra resistência por parte do governo. Isso, além de desproteger uma parcela expressiva da população, contribui para a queda no consumo agregado, afetando negativamente a economia", explica.

Do ponto de vista da política monetária, a economista da Unicamp acredita que o BC está fazendo o movimento correto de queda da taxa básica de juros. "Eu diria que a queda da taxa de juros está 'não atrapalhando' – o que já é bom. As outras medidas, que estão sendo desenhadas para que os juros 'na ponta' sejam reduzidos, encontram dificuldades. O mercado bancário brasileiro é concentrado e isso não é fácil de ser feito. Nesse caso, o governo (Federal), que é acionista e controlador principal do Banco do Brasil (BB) e proprietário da Caixa Econômica Federal, deveria usar essas duas instituições mais agressivamente, para ampliar o crédito e reduzir as taxas. Isso seria bem efetivo", propõe Deos.

"Sobre a política fiscal", prossegue, "o mais efetivo seria torná-la ativa, mas esse tema é um 'tabu' para o ministro (Paulo) Guedes. Ou seja, por conta desse comportamento ideológico e completamente equivocado, nós perdemos um instrumento poderoso."

Em linhas gerais, ela acredita que o governo federal subestimou a gravidade da crise sanitária no Brasil. "O ministro (Guedes), bem como todo o governo, minimizou a pandemia e não tinha nenhum plano para enfrentá-la quando ela chegou. Algumas ações foram sendo criadas para endereçar pressões de setores e para responder a um protagonismo, nesse ponto, que foi sendo assumido pelo legislativo, sobretudo pelo deputado Rodrigo Maia. Não há também nenhum 'desenho' de saída para essa pandemia. Não há um plano. Paulo Guedes é o ministro de uma nota só: 'aprofundar as reformas'. Um desastre", avalia.

Considerando as respostas econômicas que foram adotadas por diferentes países, ela ressalta a Alemanha e a China como referências a serem observadas. "A China é uma economia comandada muito fortemente pelo Estado – que controla os grandes bancos e tem participação nos maiores conglomerados empresariais e está desenhando e comandando os planos para a recuperação. A Alemanha teve um cuidado e uma organização admiráveis nas ações de quarentena até aqui e se mostra um dos casos mais exitosos entre os grandes países europeus em termos de taxa de letalidade do vírus. Agora, começa a abrir sua economia que não foi tão impactada quanto as outras  exatamente pelo sucesso das ações da quarentena", salienta.

Segundo a professora, duas medidas poderiam ajudar o Brasil a enfrentar a pandemia de forma mais adequada, "(1) O aperfeiçoamento, ampliação e eventual expansão do benefício assistencial às famílias vulneráveis e a (2) formação de um grupo que reuniria os melhores quadros do governo, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), das universidades, de entidades representativas etc. para começar a desenhar um plano de saída da economia. Um plano ambicioso, não somente em termos de impacto sobre o PIB, algo em torno de 3%, pelo menos, mas também um plano que modernizasse o País, erradicando suas mazelas históricas (falta de saneamento, carência da população etc.) e mirasse uma economia mais sustentável do ponto de vista ambiental também", sugere.

Crises de dimensões profundas como a atual trazem à tona debates estruturais sobre modos de aprimorar a sustentabilidade do nosso modelo econômico. Na opinião de Deos, pensar a progressividade do sistema tributário brasileiro é pauta emergencial. "No Brasil, o imposto sobre propriedade, sobre herança e sobre grandes fortunas é pífio. Muito abaixo do que se pratica internacionalmente. Isso pesa sobre a nossa sociedade, pois perpetua e aprofunda essa chaga da extrema desigualdade. Certamente, um sistema tributário mais progressivo e justo é muito importante para o propósito de reduzir a desigualdade neste momento. Isso combinado com outras ações, como a oferta de serviços públicos de qualidade – educação e saúde, por exemplo – e políticas de ação afirmativa etc.", exemplifica.

A professora finalizou trazendo à luz um debate caro à literatura econômica contemporânea: o aumento exponencial da desigualdade no Ocidente ao longo das últimas décadas. E a pandemia agrava ainda mais o problema. "Caso medidas muito efetivas não sejam tomadas, este cenário será ainda pior com a crise da Covid-19, no Brasil e no mundo. (…) Apesar disso, no Brasil de hoje, com esse governo, não há nenhum interesse em tomar medidas que ajudem a reduzir a desigualdade social ou respeitem parâmetros civilizados. É uma pena", conclui a professora.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).

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