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Entendendo Bolsonaro

Conspiração da alt-right inspira rede de calúnias bolsonarista

Entendendo Bolsonaro

02/08/2020 11h51

Surgida nos porões da extrema direita estadunidense, a teoria conspiratória 'QAnon' já possui a sua versão brasileira, elaborada pelas hostes bolsonaristas (Crédito: Rick Loomis/Getty Images).

* Otávio Dias de Souza Ferreira

Ao longo da última semana, as redes bolsonaristas abrigaram uma série de posts comemorando a chegada ao Brasil de uma suposta operação de investigação para desbaratar uma organização criminosa internacional que contaria no Brasil com centenas de delinquentes, acusados da prática de pedofilia.

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Na esteira dessas acusações, um perfil no Twitter chamado "Dom Esdras das Threads" escreveu o que segue: "STORM BRASIL…!!!! A HORA DE VCS ESTÁ CHEGANDO!!! O Min. @AmendoncaMJSP entra em ação contra PEDOFILIA! A SEOPI (sec. operações integradas) já tem os nomes de mais de 500 investigados, inclusive ex direitos humanos e atuais membros da ONU aqui no Brasil".

À primeira leitura, qualquer pessoa festeja o combate a condutas de natureza tão abjeta. O ímpeto imediato e natural pode ser o de "curtir" e, talvez até, "compartilhar" o post.

Em demais postagens, o perfil segue revelando alguns hipotéticos criminosos que figurariam nessa lista da "Operação Storm", nomeando-os especificamente, mas sem referência a nenhuma prova ou documento que os incriminasse efetivamente.

Desnecessário seria mencionar o nome das vítimas dessas acusações, salvo pelo fato (coincidência ou não?) de que, tanto o professor Paulo Sérgio Pinheiro, ex-integrante da Comissão Nacional da Verdade, ex-secretário nacional dos Direitos Humanos e atual membro da Comissão Arns, quanto o professor Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública, despontaram, na semana anterior ao post, no vazamento de dossiê de professores e autoridades identificados como antifascistas, produzido em investigação "abusiva e ilegal" de órgão vinculado ao Ministério da Justiça.

Além de tripudiar sobre a reputação das pessoas acusadas, a imputação gravíssima de pedofilia realizada sugere o vínculo entre expoentes históricos da militância política comprometida com a defesa e promoção dos direitos humanos no Brasil com a prática de tais delitos. Termina afirmando que a ministra dos Direitos Humanos Damares Alves estaria colaborando com as investigações internacionais.

Busca simples, utilizando-se do aplicativo "Crowd Tangle", revela que tal perfil "Dom Esdras das Threads" – o autor das acusações – é seguido e compartilhado por numerosos atores individuais e coletivos (alguns dos quais possivelmente robôs), intitulados como "Helison Brito – PRTB", "Grupo Olavo de Carvalho" (4 perfis); "Grupo da Página Jair Bolsonaro Presidente 2018" (2); "Pensadores de Direita", "Conservador Liberal", "Bolsonaro Presidente [Perfil Oficial]", "Jair Messias Bolsonaro"(3 perfis), "Intervenção Militar Prev. Parág. Único Art. 1 da CF", "Direita Brasil", "Grupo dos Bolsonarianos Patriotas", "A nossa bandeira jamais será vermelha", "Grupo de apoio à Operação Lava-Jato – Juiz Sérgio Moro", "Os Patriotas do Brasil", "Bolsonaro 2022"(2 perfis), "Jair Bolsonaro, o Messias do Brasil", "Bolsonaro TV", "Soldados Bolsonarianos", "Sérgio Moro Traidor", "Acorda Brasil", "Usp Livre", "Aliança pelo Brasil – grupo de direita", "Alexandre Garcia – apoio", "Polícia Federal – Patriotas do Brasil", "2022. Jair Messias Bolsonaro Presidente – oficial –", "Fãs da Doutora Roberta Coutro", "O Brasil Acordou", "Políticas do Laranjal Paulista", "Bernardo Pires Küster", "Dinâmica FM – Política Nacional", "The Great Awakening Portugal", "Brasil Florão da América – intervenção Maringá" etc.

Disputas envolvendo narrativas sobre direitos humanos não surgiram nos dias de hoje. O que perfaz novidade é a radical reorientação do governo brasileiro na matéria das relações internacionais, rompendo com a tradição de décadas alinhada com a perspectiva da "reconstrução" dos direitos humanos, edificada no pós-Holocausto, no sentido de se institucionalizar e aperfeiçoar a sua proteção nos âmbitos nacional e internacional.

Ao invés disso, o Brasil tem se aproximado cada vez mais de uma minoria de governos autoritários e preconizando internacionalmente concepções muito restritivas dos direitos humanos. Prioriza visões de cunho religioso sobre pautas ligadas à família monogâmica heterossexual tradicional e a certos dogmas, negando qualquer discussão sobre direitos reprodutivos e sexuais. Foca-se no combate a certos crimes comuns, na esfera privada, como violência doméstica, crimes sexuais, desaparecimentos, matéria primordialmente das agências de segurança pública.

De modo mais ambicioso, almeja a desconstrução do aparato institucional tradicional de proteção e promoção de direitos humanos. Enquanto isso, segue completamente alheio a temáticas como o combate às diversas formas de opressão contra as minorias, à miséria, à tortura e às violações de direitos humanos perpetradas por autoridades públicas e de iniciativas de Justiça de Transição para lidar com as sequelas do passado recente autoritário.

A expressão "Storm Brasil", "Operação Storm" ou simplesmente "Storm" ganhou força nos últimos meses por aqui, durante a reclusão da pandemia. O termo "Storm" provém da língua inglesa e pode ser traduzido como "tempestade".

A narrativa original deriva da teoria conspiratória surgida nos subterrâneos virtuais dos 4chan e 8chan, em 2017, conhecida como "QAnon" (ou apenas "Q"), a respeito de uma hipotética rede poderosa, composta por elites políticas, incluindo personalidades de Hollywood, ligadas à prática de pedofilia, tráfico de seres humanos e pornografia infantil e comprometidos com o Demônio.

De acordo com a teoria, foi Donald Trump quem finalmente assumiu heroica e corajosamente, ainda que de modo secreto, a cruzada de enfrentamento a esse Estado paralelo corrupto e a essa rede de elites pedófilas satanistas. "Storm" seria uma espécie de batalha final que representaria a vitória épica sobre os inimigos, com sua prisão ou prisão e aniquilamento.

Contando com apelos religioso e messiânico, essa narrativa bizarra, aparentemente uma anedota ou enredo de videogame, surpreendentemente ganhou popularidade, adeptos, variantes discursivas dinâmicas e inspirou a produção de materiais de propaganda associando a tais redes opositores do presidente estadunidense, do Partido Democrata, da imprensa, da indústria cultural e financiadores de campanha. Cartazes com a letra "Q" foram erguidos em comícios da campanha de Trump, políticos se elegeram adotando tais narrativas e o próprio presidente recebeu seguidores da teoria no Salão Oval. Alguns deles chegaram a protagonizar episódios de agressão física fora das redes digitais e o assunto começou a preocupar autoridades policiais do FBI.

A plataforma Reddit excluiu um grupo QAnon depois de ameaças violentas protagonizadas por seus membros e eles seguiram hospedados e reproduzindo seus conteúdos no Youtube, Twitter e Facebook. Na semana passada, foi a vez do Twitter anunciar que iria excluir contas referentes a essa teoria "Q". Estima-se que mais de sete mil perfis ligados à QAnon sejam retirados do ar e outros 150 mil sofram restrições.

No Brasil, tais formulações teóricas parecem desembarcar com força agora, em plena pandemia da Covid-19, assumindo com mais frequência a identidade "Storm". Já circulam vários vídeos, memes, posts e artigos em português com releituras similares sobre a teoria QAnon, com alguma adequação ao contexto político brasileiro e aos vilões locais. Pela leitura brasileira, o governo federal estaria cooperando com a investigação internacional e nosso salvador na cruzada contra o mal seria o próprio Jair Messias Bolsonaro. No terreno dos direitos humanos e da religião, sua fiel escudeira, a pastora Damares Alves, emerge cavalgando de forma destemida.

Além de acusações contra defensores históricos de direitos humanos, dissemina-se nas redes sociais digitais brasileiras o hipotético envolvimento nessa rede diabólica de ministros do Supremo Tribunal Federal, de governadores (a maioria deles), parlamentares, empresários, artistas e formadores de opinião – sobretudo gente com orientação política de oposição ao presidente. Supostas listas revelando o envolvimento de centenas de pessoas nesse esquema delituoso já estariam em poder das autoridades policiais brasileiras, segundo a narrativa.

Perfis apostam na divulgação gradativa dos nomes dos notáveis autores de crimes repugnantes, inspirados talvez na experiência de vazamentos do WikiLeaks ou da Vaza Jato, e sinalizando para a continuidade delitiva mirando novas vítimas. Uma versão da história (divulgada em vídeo do YouTube com mais de 26 mil curtidas) promete a iminente revelação de centenas de mandados de prisão internacionais emitidos pelo Tribunal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade prestes a serem cumpridos.

Foi sob o guarda-chuva da mesma "Storm" que, na última semana, a imagem e a honra do influencer digital Felipe Neto foi difamada, injuriada e caluniada reiteradamente na rede mundial de computadores, associada à pedofilia. Os ataques se estenderam depois para além do mundo virtual, chegando às portas de sua casa.

As redes sociais digitais têm sido palco de incontáveis atentados terríveis contra a honra de pessoas, acusadas sem provas da prática de condutas abjetas e desprezíveis (como a pedofilia), geralmente com base em notícias falsas e imagens ardilosamente produzidas, divulgadas por fontes duvidosas ou por supostas agências jornalísticas.

Apesar da má-fé evidente dos criadores dos conteúdos e de muitos dos seus difusores, buscando conscientemente ferir profundamente a imagem de algozes políticos, muitos indivíduos acabam repassando as acusações de forma ingênua, contribuindo para a tragédia pessoal e familiar dos alvos dessas campanhas caluniadoras. Muitas dessas pessoas nem sabem que, ao passar adiante a mensagem, estão praticando crimes.

Sob o manto da presumivelmente absoluta e inviolável liberdade de expressão, grupos organizados com financiamento de fontes diversas se aproveitam para, de modo orquestrado e sistemático, perpetrar crimes contra a honra e a reputação de opositores políticos, formadores de opinião, mirando pessoas cuja conduta de vida, ideologia, religião, identidade ou orientação sexual seja diferente.

Na atual temperatura do cenário político em ano de pleitos eleitorais municipais, depois do que testemunhamos nas últimas eleições no Brasil e em outras mundo afora, sobretudo a partir da vitória de Donald Trump, e em meio à reclusão imposta pela pandemia, tais formulações acrescentam um ingrediente a mais para combustão, prenunciando o massacre de biografias e o fomento a práticas de linchamento – não apenas virtual.

* Otávio Dias de Souza Ferreira é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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