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Cem mil e sem luto

Entendendo Bolsonaro

08/08/2020 14h53

Montado num cavalo e sem máscara, Jair Bolsonaro encarna a dupla falência moral brasileira. Não bastasse o descaso com a vida, país agoniza para elaborar as suas mortes (Crédito: Alan Santos /PR).

* Rafael Burgos

Um dia nós contaremos essa história.

O Brasil perdeu mais de 100 mil vidas para a covid-19, tornando-se, ao lado dos Estados Unidos, o único país no mundo a ter alcançado essa triste marca.

Anestesiados face a uma média diária que, há meses, circunda as mil mortes, somos a nação cujos esclarecidos são aqueles que, diante do ímpeto do vírus, bradam que "não há o que fazer". Isso porque a outra parte é composta por aqueles que sequer admitem a veracidade dos números divulgados neste sábado (8). Ou por quem, confrontado com nossa falência, mudará de canal e encontrará o placar da vida.

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Mas, como disse, chegará o tempo de narrar toda esta epifania. O assunto principal, aquele que moverá tribunais – os da Justiça e os da História – será, sem dúvidas, o descaso do Estado brasileiro com a vida dos cidadãos. É isto que, desde março, tem sido documentado mundo afora e País adentro.

Mas essa é apenas uma faceta da nossa tragédia. Peço licença porque, neste dia simbólico, gostaria de falar sobre um outro fracasso brasileiro, aquele que se esconde em nossas rotinas tão preenchidas, em nossa patológica e inadiável ansiedade de "retomar". Porque ao descaso com os vivos soma-se a nossa indiferença com os mortos.

Viver no Brasil é sentir que nos falta a capacidade de dizer, mas que, ao mesmo tempo, nos foi roubado o direito de silenciar. É, precisamente, quando enterra-se, junto com os corpos, qualquer possibilidade de luto.

Em sua coluna no portal Poder360, o jornalista Thomas Traumann, de modo muito pertinente, classificou Jair Bolsonaro como o "presidente do barulho". Sinto que há algo na alma brasileira também contaminado por esse modo de ser tão peculiar, de maneira que contar a história dos sem luto é narrar a vitória da força que habita o Planalto e que, de alguma forma, se apossou dos nossos afetos.

É tomado por essa perplexidade que tenho assistido ao drama do povo libanês, que de maneira justa tem despertado a nossa atenção nos últimos dias. Há algo de muito simbólico na maneira como aquela explosão – ou a morte carregada de espetáculo – nos atinge e como a morte silenciosa, a que tem vitimado mais de mil brasileiros diariamente, nos entedia.

É que este é um país construído sobre corpos escondidos, memórias apagadas, laços forjados. De repente, a pandemia nos atropelou, desvelando, numa emergência histórica, tudo o que queríamos não saber sobre nós mesmos.

Foi quando entrou em cena o bolsonarismo.

Como se soubesse da imensa aflição que este choque de realidade nos causaria, o bolsonarismo começou a bradar, desesperadamente, que não poderíamos parar. O luto era seu maior inimigo e, por essa razão, ele nos convidou a marchar, indefinidamente, em direção a lugar nenhum, apenas pelo benefício de estar em movimento. "Tocar a vida", como disse o presidente em sua tão distinta franqueza, é, desde o dia 1 da pandemia, o nosso próprio espírito do tempo.

Há uma imagem, a que ilustra este texto, que muito bem acompanharia essa frase como retrato do Brasil. Trata-se de um comício eleitoral realizado pelo presidente Jair Bolsonaro no Piauí, no dia 30 de julho, quando o país já superava 90 mil mortes provocadas pela covid-19.

Essa foto reúne, simbolicamente, a nossa dupla falência moral: o descaso com a vida e a indiferença com a morte. Se o Bolsonaro aglomerado e sem máscara é o retrato dos cem mil, o presidente que, sorridente, caminha sobre um cavalo é a expressão dos sem luto.

Ou de um país que, mesmo confrontado com a (sua) morte, decidiu "tocar a vida". Ser brasileiro é ter a estranha sensação de que, mesmo quando tudo se paralisa, seguimos em movimento. Difícil é encontrar um dia sem eventos num país que adormece.

Tudo acontece como se fôssemos um corpo coletivo a jamais superar o estágio inicial do nosso trauma – o da negação. E, então, passamos ao autoengano, o que, numa pandemia, quer dizer autossacrifício.

De maneira muito dolorosa, essa pandemia também joga fora outras ilusões. Ou de como é impossível falar em "democracia brasileira" sem, antes, construirmos uma República. E que não se construirá República alguma enquanto não houver país – enquanto não formos capazes de chorar as mesmas lágrimas.

Em ensaio para a edição de julho da revista serrote, o historiador italiano Carlo Ginzburg discorreu sobre a sua descoberta de que o país ao qual pertencemos não é aquele que amamos, mas do qual sentimos vergonha.

Citando uma passagem da Ilíada, Ginzburg lembra que "o vínculo suscitado pela vergonha pode ser estendido não apenas ao ato de ter vergonha de si mesmo, mas também ao ato de ter vergonha pelo comportamento de outrem, vivo ou morto".

Pois talvez resida aí o potencial brasileiro. Se existe alento por aqui é que, um dia, nós desceremos do cavalo. Será o momento de olhar para trás e se envergonhar de quem fomos, de quem somos: o país dos cem mil e dos sem luto.

Rafael Burgos é jornalista e editor do blog "Entendendo Bolsonaro".


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.

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