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Bolsonaro na ONU: que tal chamarmos a mentira pelo seu nome?

Entendendo Bolsonaro

22/09/2020 18h45

O presidente Jair Bolsonaro discursa na ONU. É preciso fugir à disputa de versões e chamar as suas mentiras pelo nome certo. (Crédito: Reprodução/YouTube)

* Igor Tadeu Camilo Rocha 

Como bem revelam as múltiplas checagens de fatos publicadas após a fala de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, o discurso do presidente brasileiro oscilou entre teorias de conspiração e mentiras das mais inacreditáveis.

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Bolsonaro atribuiu vazamentos de óleo ocorridos na costa brasileira em 2019 à Venezuela, ainda que não exista uma única prova disso, fez acusações contra a imprensa a respeito da crise da covid-19, algo que tem sido rotina desde que a pandemia começou, e falou ainda no tal "combate à cristofobia", reafirmando a existência do que considera uma "campanha de desinformação", nacional e internacional, de que seu governo seria vítima.

Todos os clichês fecham bem uma narrativa comum a formas de ver o mundo moldadas por teorias de conspiração, próprias do bolsonarismo: a ideia de que se é perseguido por todo um sistema (válida para governo, militantes e para o próprio presidente), inimigos internos (imprensa, minorias – nesse caso, indígenas, caboclos, ONGs, etc.) e externos ("interesses internacionais" na Amazônia), além do aceno não correspondido ao presidente estadunidense, Donald Trump.

Se o objetivo era desviar o foco da responsabilidade de seu governo com relação a desastres pelos quais o Brasil vem passando, o presidente fez muito bem. Afinal, Bolsonaro acusou índios e caboclos de serem responsáveis pelas queimadas que destroem os biomas da Amazônia e Pantanal, além de ter afirmado, de maneira mentirosa, que decisão judicial teria eximido a sua administração de fomentar medidas de distanciamento social para contenção da pandemia.

Fica então a pergunta: por que Bolsonaro mente dessa forma, mesmo num evento como a Assembleia Geral da ONU? A resposta mais evidente é que as mentiras servem para atiçar sua base mais fiel de eleitores.

Estes parecem viver numa espécie de mundo paralelo, no qual a verdade tem muito menos relevância que a narrativa. Trata-se de um universo mental compartilhado e vivido por eles que funciona na base de uma oposição entre Bolsonaro, sua ideia de nação e seu projeto político, de um lado ("do bem"), e de seus seus opositores, ONGs, imprensa, indígenas e outras minorias, esquerda, entre outros ("do mal").

Para muitos, o mundo funciona nos termos de que um está sempre certo – ainda errado, seus erros servem a algo maior – e outro está necessariamente errado – mesmo certos, possuem objetivos obscuros, ligados de fundo a algo ruim. Mas isso explica apenas parte do problema.

Vamos tocar num deles: chama muito a atenção a aparente dificuldade que grande parte dos veículos de imprensa demonstra ter em chamar as afirmações de Bolsonaro pelo nome que faz jus a elas: mentiras.

Afinal, é disso que se trata quando o presidente nega o problema dos incêndios na Amazônia e Pantanal dizendo que "nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior".

Isso não é um erro de análise ou algo que dependa de algum tipo de perspectiva. Trata-se de uma afirmação falsa, que vai de encontro a dados públicos divulgados por órgãos dos mais diversos, alguns do próprio governo federal.

O mesmo quando diz categoricamente que "os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas." Há investigações da Polícia Federal sobre suspeitas da origem criminosa de queimadas no Pantanal e robustas evidências da relação entre as queimadas da Amazônia e o desmatamento para agropecuária e garimpo. Novamente, o presidente mentiu.

De maneira nociva, o jornalismo profissional, ainda hoje, continua a chamar de "polêmicas" declarações de pessoas públicas que são apenas "falsas". Por sua natureza, são palavras que produzem efeitos e que, portanto, devem ser chamadas pelo que são: mentiras. Tratar o uso político de informações falsas ou conspiratórias como polêmica é reduzir sua natureza danosa para a democracia, naturalizando-o.

Bolsonaro tem sido tratado como "polêmico" desde sua fatídica aparição no programa CQC, na década passada, e posteriormente noutros programas televisivos e noutras mídias que ajudaram a trazer seu discurso da margem ao centro do debate público no Brasil.

Mas o caminho entre suas primeiras aparições na tv e o discurso da ONU desta segunda (22) é mais longo e complexo que isso. Ainda serão feitas muitas pesquisas e deverão ser feitos diversos questionamentos sobre como se deu esse processo. Mas a pergunta que fica é sobre quantas vezes o discurso dele foi minimizado, na medida em que o falso e o absurdo foram reduzidos ao mero "polêmico" – logo, aceitável numa democracia.

Sem dúvidas, foram muitas vezes, serão muitas outras e falamos de um fenômeno de degradação da esfera pública bem maior que o bolsonarismo em si. O Bolsonaro que fala que fala que seu governo tem tolerância zero com crimes ambientais enquanto corta verbas para incêndios florestais ou enquanto seu ministro do Meio Ambiente dá carona em voos a ruralistas é produto de uma longa submissão de verdade a narrativas. Narrativas com interesses bem objetivos, muitas vezes defendidas contra qualquer interesse coletivo no Brasil, a despeito de todas as evidências não as sustentarem.

Já há muito tempo, o debate político está a reboque do bolsonarismo. Passaremos as próximas horas ou dias discutindo se índios são ou não causadores de queimadas ou se florestas úmidas queimam ou não, tudo isso apesar do árduo e competente trabalho das agências de checagem.

Mentiras e teorias conspiratórias com finalidade política, ditas pelo presidente, seus ministros e apoiadores (mas longe de se restringir a eles) ocupam um espaço central no debate público. São hoje informações primárias. De certa forma, tal estado das coisas acontece porque se borrou até além dos limites a linha entre a polêmica e a mentira, confundindo a primeira com a segunda, reduzindo tudo a uma disputa de versões, narrativas e opiniões.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Sobre os autores

Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

Sobre o Blog

Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.

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