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Entendendo Bolsonaro

Bagunça de Trump em colégio eleitoral é ensaio para Bolsonaro 2022

Entendendo Bolsonaro

14/12/2020 15h56

Vinícius Rodrigues Vieira*

[RESUMO] As chances de Trump conseguir uma vitória no "tapetão" são muito reduzidas, mas é possível que ele consiga tumultuar até o fim a votação no colégio eleitoral que dará vitória a Biden. A estratégia de confusão judicial inspira bolsonaristas de olho em 2022, fortalecendo que se lance mão do argumento de que autoridade presidencial foi comprometida pelas instituições devendo, assim, ser defendida por uma militância cada vez mais armada.

Nesta segunda-feira, dia 14, os Estados Unidos certificam os resultados do colégio eleitoral que, de fato, escolhe o presidente do país. O presidente Jair Bolsonaro, um dos poucos chefes de Estado e/ou governo que ainda não reconheceu a vitória de Biden, teria colocado esta data como limite para parabenizar aquele que, salvo uma grande reviravolta, liderará o povo americano a partir de 20 de janeiro de 2021.

Porém, considerando que Trump ainda fomenta uma vitória no "tapetão", não me surpreenderei se seu "amigo" brasileiro reconhecer Biden apenas após a apuração oficial dos votos na capital Washington, prevista para 6 de janeiro próximo. Isso porque Bolsonaro precisa sustentar narrativas que mantenham seus fieis seguidores alheios à realidade e preparados para emular os trumpistas nas eleições de 2022, aqui no Brasil.

Vejamos o que se passa nos EUA. Segundo pesquisa da revista inglesa The Economist e do instituto de pesquisas YouGov, quatro em cada cinco eleitores de Trump acreditam que as eleições foram injustas, enquanto três em cada quatro defendem que o processo de transição não deveria sequer ter começado.

As chances de Trump reverter os resultados que o colocaram para fora da Casa Branca reduziram-se significativamente depois que a Suprema Corte Americana negou conhecimento a uma ação impetrada por 18 Estados comandados por republicanos contra supostas irregularidades no processo eleitoral de quatro Estados em que Biden ganhou (Georgia, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin). A ação foi apoiada por 126 deputados federais republicanos.

No entanto, na apuração de 6 de janeiro, a ser realizada em sessão conjunta do Congresso Americano, sob liderança do presidente do Senado — cargo exercido pelo vice-presidente republicano Mike Pence –, parlamentares podem apresentar objeções ao resultado. Para tanto, é necessário que um senador e um deputado apresentem uma moção conjunta. Isso obrigaria a interrupção da apuração por duas horas para que cada casa do Congresso (Câmara e Senado) debatam a objeção. Como a Câmara se manteve sob controle democrata, a maioria de seus membros certamente rejeitariam tal iniciativa.

Dito isso, o fato é que há um potencial atraso no anúncio oficial do resultado definitivo da disputa se tais objeções forem apresentadas. Portanto, Trump e seus apoiadores sairão em parte vitoriosos porque terão conseguido abalar ainda mais a já frágil confiança de parte significativa do eleitorado americano nas instituições tão sólidas de outrora.

O que temos a ver com isso? Além do fato de o não-reconhecimento de Biden solapar ainda mais a nossa política externa modo-pária, que nos deixa cada vez mais isolados no mundo, a bagunça que Trump e seus apoiadores promovem no colégio eleitoral serve como receita para o bolsonarismo em 2022.

Imaginem um cenário em que, depois de 2021, ano em que a pandemia deve ceifar ainda mais vidas e derrubar nossa economia, teremos uma eleição tumultuada, com alta abstenção. Se, ao que tudo indica, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmar o direito de Estados e municípios vacinarem a população face ao atraso do governo federal na questão, Bolsonaro terá na mão um discurso de que sua autoridade foi comprometida pelas instituições devendo, assim, ser defendida pelo povo — isto é, seus seguidores, facilmente armados com a redução de impostos de importação sobre produtos bélicos.

A cama para uma contestação judicial e extrajudicial do pleito de 2022 estará, portanto, armada. Imaginem bolsonaristas marchando pelas cidades. Ainda que poucos, são como arapongas–pássaros barulhentos que, graças à ironia do genial Dias Gomes, viraram há 30 anos sinônimo de espião numa novela que trazia Tarcísio Meira como um ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI) da Ditadura Militar.

Pensando bem, bolsonaristas e trumpistas estão mais para os pássaros que, no clássico homônimo de Alfred Hitchcock, aparentemente atacam pessoas sem razão. Alguns interpretam o subtexto do filme relacionado a um alerta da natureza. O tradicionalismo que fascina os seguidores de Bolsonaro, Trump e demais populistas de direita do mundo é a "natureza humana" que combatemos desde o iluminismo.

Coloco natureza humana entre aspas devido à óbvia falta de consenso (pelo menos para quem não é adepto do populismo de direita) sobre o que esse termo significa, muito embora esteja associado, neste consenso, aos valores ditos tradicionalistas, que incluem a centralidade do homem na sociedade e, sob a perspectiva do populismo de direita, da dita civilização branca, ocidental, de inspiração cristã e, para alguns, de fundo judaico também.

Os urubus rondam o corpo semimorto da democracia em suas versões liberal e social e, nas palavras tradicionalistas, do globalismo que supostamente corroeu os valores nacionais — se o tivesse, não viveríamos essa onda populista-nacionalista, que, antes de devorar a vítima em forma de carniça, torturam-na até o limite. Devoram-na viva sem que perceba.

Estamos sangrando, porém ainda vivos. Se a viabilidade de um impeachment depende de quem vai suceder a Rodrigo Maia (DEM-RJ) na presidência da Câmara, resta em 2021 a possibilidade de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no Tribunal Superior Eleitoral  (TSE) por abuso de poder econômico. O Ministério Público Eleitoral não encontrou, por ora, provas robustas que justifiquem a cassação.

A tragédia de 2022 será confirmada exceto se seguirmos o destino do personagem bíblico Lázaro e formos resgatados por algum Messias do mundo dos mortos — neste caso, a morte da própria civilização que nunca deu grandes frutos nestas terras. A grande ironia é que, na política, o único salvador que jamais tenha existido somos nós mesmos, o próprio povo que somente se livra da tentação do populismo destruidor se estiver em comunhão consigo mesmo e as instituições, muito embora estas já estejam putrefeitas.

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na pós-graduação da FGV


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