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Entendendo Bolsonaro

Sem o auxílio, Bolsonaro dependerá de saliva e pólvora em 2021

Entendendo Bolsonaro

01/01/2021 04h00

(Crédito: Isac Nóbrega/PR)

[RESUMO] Inoperante, sem projeto de país e incapaz de entregar resultados concretos, o bolsonarismo viverá em 2021 seu grande teste de estresse. Até agora, a retórica beligerante da divisão amigo X inimigo e da terceirização de responsabilidades tem sido suficiente para garantir razoável apoio popular. 2021 vai pôr à prova se a combinação de "saliva e pólvora" será suficiente para sua sobrevivência política.

* Rodrigo Ratier

Num olhar de sobrevoo, da janela de um avião, Bolsonaro parece ter sobrevivido a um 2020 pra lá de turbulento. Nem uma catástrofe sanitária combinada com desastre econômico, polarização política, defecções de aliados e investigações cada vez mais próximas do clã — enfrentados com uma mistura de negacionismo, revide e incompetência administrativa — foram capazes de abalar significativamente sua popularidade. De uma perspectiva mais próxima, porém, é mais difícil cantar vitória. A fuselagem bolsonarista não passou incólume ao cataclismo, todo mundo já conhece o piloto, o plano de voo não comporta invencionices — e a viagem continua.

Eventual vitória na disputa pelo controle da Câmara dos Deputados pode significar algum alívio. Em dois planos: sendo o aliado Arthur Lira o eleito, os mais de 50 pedidos de impeachment repousarão tranquilamente em uma gaveta até 2022. E aumentarão as chances de pontos da pauta de costumes ultraconservadora que o sustenta serem encaminhados para votação. Ainda que sua aprovação seja mais complicada, o fato de que sejam postos em debate público já será o suficiente para que um elemento central de sua retórica — a cortina de fumaça — entre em cena.

Como se sabe, Bolsonaro não possui qualquer projeto para o país. Depende da bricolagem de temas capazes de suscitar pânico moral em sua base para energizar a militância, de um lado, e motivar respostas dos setores progressistas, de outro, para simular que há planos em curso, aos quais — sempre na narrativa bolsonarista — se opõem inimigos cada vez mais numerosos. Da mesma forma, o desmonte da gestão pública nas mais variadas áreas, do meio ambiente à educação, por sabotagem deliberada ou incompetência em estado bruto, é encoberto pelo discurso de defesa das liberdades individuais. Se em algum momento o manejo desses recursos de linguagem foi novidade, hoje já não surpreendem, assim como as estratégias empregadas para sustentá-lo: desinformação, demonização de adversários, teorias da conspiração.

Ainda eficaz na instrumentalização do medo e do ódio em parte da população, a retórica bolsonarista atualmente é repetitiva, devendo sua efetividade a níveis crescentes de absurdidade. Isso, para Bolsonaro, é um problema: sua falta de decoro vem de décadas. Restava a dúvida, hoje dirimida, se ele manteria o mesmo nível de boçalidade sob a faixa presidencial. Manteve, produzindo uma espécie de normalização do desatino: nada do que diga ou faça é hoje capaz de chocar.

Previsíveis também são as jogadas futuras do presidente. 2020 explicitou que suas únicas preocupações são a blindagem da família, de um lado, e a manutenção no poder, de outro. Politicamente, o único projeto bolsonarista é o golpe de estado e, nesse sentido, ganhou menos importância do que deveria o escandaloso fato de Bolsonaro ter tentado dar um autogolpe em 2020. É incompreensível que "Vou intervir!", a apavorante reportagem de Monica Gugliano, na Piauí, tenha repercutido tão pouco. O texto descreve uma reunião, no auge das tensões do executivo com o judiciário, em que o presidente manifesta o desejo de mandar tropas para o Supremo porque os juízes, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões. Não houve desmentido oficial à história, o que torna ainda menos lógico que a reportagem quase não tenha reverberado.

Os próximos passos estão bem mapeados. Macaqueando Trump, Bolsonaro de antemão — e sem qualquer prova — questiona a lisura do pleito de 2022 — como questionou o de 2018 sem apresentar sombra de fraude. Ao mesmo tempo, reforça a conexão com sua mais sólida base de apoio. Bolsonaro se forjou como figura pública atuando como uma espécie de sindicalista do baixo clero do exército. É no conjunto das forças armadas, polícias incluídas, sobretudo na massa de baixa patente, que se sustenta sua mitologia. Participação em cerimônias de militares e policiais recém-formados, indultos a policiais e obsessão por liberalização ao armamentismo são expressões concretas de que o presidente considera essencial ter um grande contingente armado se — ou quando, como diria Eduardo Bolsonaro — o palavrório não bastar.

Há ainda o elemento da realidade concreta. Mesmo que a maioria da população não o julgue responsável pelas 200 mil mortes por covid-19, os inevitáveis atrasos na imunização — por inoperância governamental, incapaz de assegurar seringas e agulhas, que dirá a vacina — não são um bom presságio para a popularidade do presidente. O teste de estresse definitivo, porém, se dará com o fim do auxílio emergencial. O programa é considerado o grande responsável por sua sustentação junto à população mais pobre, seu arrimo atual. Com o término da ajuda, saliva e pólvora serão os dois ingredientes básicos do bolsonarismo em 2021. O quanto serão suficientes para suas intenções golpistas, e o quanto as instituições vão deixá-lo acumular um e outro recurso daqui para a frente, serão questões centrais para este ano e o próximo.

* Rodrigo Ratier é jornalista com doutorado em Educação na USP, professor na Faculdade Cásper Líbero (SP). Mantém uma coluna sobre educação na plataforma ECOA, do UOL.


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