PUBLICIDADE
Topo

Entendendo Bolsonaro

Bolsonarismo é o sintoma e a doença: resta o impeachment

Entendendo Bolsonaro

24/01/2021 21h37

(Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil)

* Cesar Calejon 

Desde a ascensão do bolsonarismo em 2018, alguns dos principais sociólogos, professores e estudiosos das ciências sociais brasileiras têm refletido sobre a natureza do movimento sociopolítico que adoeceu o Brasil para entender duas questões fundamentais: (1) em qual medida as ideias e os seguidores bolsonaristas são o reflexo de uma sociedade previamente doente? (2) em qual medida essa parcela da população e esse conjunto de ideias foram aspectos centrais para agravar o cenário do país no começo dessa nova década?

De forma dialética e complexa, entendo que o bolsonarismo é o sintoma e a própria doença, de maneira que o único caminho possível para salvaguardar o que resta do Brasil é o impedimento do projeto golpista que se iniciou em 2016.

Veja também

Enquanto sintoma, o bolsonarismo indica a fragilidade educacional de uma parcela expressiva da população brasileira e o enrijecimento do arranjo sociopolítico doméstico, que foi fundado sobre as premissas escravocratas e assassinas das épocas coloniais e imperiais brasileiras.

Somado ao esgotamento das capacidades regenerativas da modernidade ocidental e alinhado ao consenso hegemônico global, que nesse contexto compreende o neoliberalismo em sua forma mais agressiva (hiperbolizado no Ocidente desde o fim da década de 1980), o consenso do estado fraco (o estado como instrumento de uso do capital financeiro), o consenso liberal democrático (eleições e mercados livres a serem disputados por cidadãos individualistas e competitivos) e a judicialização da política, o governo de Jair Bolsonaro já vinha promovendo o seu projeto de destruição antes sequer da pandemia atingir o Brasil, em março de 2020.

Portanto, essa unidimensionalidade do bolsonarismo vai ao encontro da estrutura de raciocínio que permeia boa parte dos brasileiros: uma forma mais polarizada, reducionista e concreta de perceber o mundo, impulsionada pelo alto consumo de produtos televisivos, em detrimento da ausência de contato com qualquer tipo de literatura.

Por exemplo, por meio desse tipo de pensamento, que os psicólogos chamam de "concreto", uma pessoa pode concluir que uma carroça e uma bicicleta são a mesma coisa, porque ambas possuem rodas. Com um tipo de pensamento mais elaborado, que foi intitulado "pensamento abstrato generalizador", o sujeito é capaz de entender as similaridades e as diferenças entre os dois veículos para abstrair o que lhe for útil a compreender a complexidade da questão, neste caso, as diferenças entre a bicicleta e a carroça, apesar de as duas apresentarem rodas. Em última análise e na prática, significa ser capaz de perceber a vida de uma maneira mais integral e elaborada e menos dogmática e polarizada.

Em linhas gerais, os brasileiros passaram a segunda metade do século passado assistindo às telenovelas noturnas e aos programas de palco, organizando a construção da sua realidade de forma concreta por meio de imagens e representações gráficas definidas que deixam pouquíssima margem para o raciocínio e a livre elaboração.

Esse processo propiciou a fragilidade ideal para a proliferação da linguagem que o WhatsApp e os pastores evangélicos avançariam décadas mais tarde. Exatamente por esse motivo, a gestão Bolsonaro combateu de forma tão veemente a literatura e as universidades, que são as duas dimensões da vida social que mais estimulam o pensamento abstrato por meio da constituição do conhecimento e da aquisição de cultura.

O bolsonarismo é o sintoma muito claro de que precisamos repensar todos esses aspectos citados acima, porque, caso contrário, futuros líderes populistas de ultradireita deverão ascender com propostas similares no Brasil durante as próximas décadas. É preciso endereçar a enfermidade de forma mais ampla e não somente os sinais que a manifestam.

Enquanto parte da própria doença, o bolsonarismo acirrou os elitismos históricos e processos de animosidade de todas as ordens (étnicos, de gêneros, raciais etc.), destruiu a soberania brasileira e promoveu, por meio da disseminação do sentimento antissistema, a evangelização, a militarização e a milicianização da política institucional no país.

Ou seja, o bolsonarismo evoluiu as forças obscurantistas que o criaram para o nível seguinte de degradação e despolitização social. O sentimento antissistema e a judicialização da política (Lava Jato) foram catalisados nessas forças sociais que agora ameaçam derradeiramente a democracia brasileira diante de 2022.

Com a economia devastada, o segundo maior número de óbitos registrado em decorrência da covid-19 em todo o planeta, a explosão da violência, da criminalidade e da intolerância, escândalos de corrupção do governo federal, desavenças internas e externas de todas as ordens, indicadores sociais apontando para a deterioração dos padrões de vida e o desmatamento recorde das suas florestas e regiões de preservação, a nação vê-se confrontada com os efeitos práticos que utilizar o ódio, o medo e os elitismos históricos combinados às redes sociais digitais para eleger os seus líderes representativos acarretam, invariavelmente. Assim, lamentavelmente para o Brasil, a ascensão do bolsonarismo ainda coincidiu com a pior pandemia do século.

Apesar do jogo político se dar com base no embate de narrativas muitas vezes antípodas, fatos sempre serão fatos e os indicadores sociais existem para demonstrá-los. Dessa forma, não se pode "discordar" das mortes causadas pela doença, do valor da gasolina, das reservas internacionais, do Produto Interno Bruto, dos alimentos ou do dólar, por exemplo.

Esses indexadores refletem parâmetros práticos e concretos da vida social cotidiana que independem da interferência de quem os observa de forma imediata. Portanto, não são questões abstratas ou partidárias, sujeitas a diferentes interpretações. Fato é que o bolsonarismo potencializou amplamente os estragos da pandemia no Brasil. Cabe avaliar a extensão dos danos e as possíveis saídas e implicações dessas ações criminosas nos próximos anos.

De muitas maneiras, do médio para o longo prazo, a eleição de Jair Bolsonaro e a ascensão do bolsonarismo servirão a propósitos elementares para fomentar o desenvolvimento das forças sociais contra-hegemônicas e progressistas ao longo desse século. O problema mais sério diz respeito ao cenário que pode se produzir nas próximas três décadas com base nessa filosofia sociopolítica, a exemplo do que aconteceu na primeira metade do século passado na Europa.

Conforme aponto na obra "A Ascensão do bolsonarismo no Brasil do Século XXI", o Brasil vem se transformando em uma espécie de teocracia evangélica de caráter miliciano, com ênfase absoluta no agronegócio e no trabalho informal, frágil e a serviço do capital financeiro estrangeiro, fundamentalmente. O golpe organizado pela direita liberal e setores da imprensa brasileira em 2016 acelerou esse processo de forma alarmante.

Contudo, a busca por uma sociedade mais equânime, menos racista e elitista, e a proteção do meio ambiente contra as mudanças climáticas serão as grandes pautas sociopolíticas dessa década nas maiores nações das Américas e em diversas regiões do mundo, o que oferecerá uma oportunidade imensa de desenvolvimento para o campo progressista nacional. De alguma forma, governos como os de Trump e Bolsonaro elevaram o nível de incômodo que mudanças significativas dessa ordem requerem.

Depois da tempestade perfeita, lições coletivas acerca da natureza das nossas escolhas e das origens da nossa sociedade estarão evidentes como em nenhuma outra ocasião do nosso período moderno. Cabe a nós, enquanto cidadãos brasileiros, sermos capazes de aprender com os equívocos de 2018, com todas as suas contradições e divergências, porque esse é o único caminho viável para evitar o projeto obscurantista que se desenhou de forma muito clara no Ocidente durante a segunda metade da década passada. Nesse contexto, o impeachment de Jair Bolsonaro tornou-se uma questão de sobrevivência para o Brasil.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Sobre os autores

Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

Sobre o Blog

Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.