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Embaixada para Eduardo é aposta na globalização do bolsonarismo

Entendendo Bolsonaro

18/07/2019 02h09

(Crédito: TV Globo/Reprodução)

* Vinícius Rodrigues Vieira

À direita e à esquerda, chovem críticas à provável indicação de Eduardo Bolsonaro, deputado federal (PSL-SP) – o mais votado do Brasil – e filho de Jair, ao posto de embaixador brasileiro nos Estados Unidos.

Embora ainda não oficializada, a decisão parece encaminhada, com o presidente tendo dito, na última terça-feira: "da minha parte, está definido".

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Enquanto isso, um dos líderes da nova direita populista, Matteo Salvini, vice-primeiro ministro da Itália, parabenizou Eduardo nesta quarta-feira, 17 de julho, via Twitter, algo pouco comum – para não dizer inédito -, pois as relações Brasil-Estados Unidos dizem respeito, em tese, apenas a esses dois países.

Diante desse cenário, qual seria o objetivo do presidente ao comprar um desgaste político que poderia ser evitado com a nomeação, por exemplo, de um diplomata de carreira simpático a suas ideias?

Uma resposta potencial está na meta de "globalizar" o bolsonarismo, consolidando Eduardo como um líder internacional da chamada "alt-right", a versão contemporânea da extrema direita que não se envergonha de seus valores nacionalistas – para não dizer xenófobos e racistas.

Seu principal líder, o supremacista branco Steve Bannon, deu vivas à indicação e já foi assessor de Trump, mas deixou a Casa Branca e desde então lidera "O Movimento", uma tentativa de levar a "revolução" de extrema direita aos quatro cantos do mundo.

Ademais, Filipe Martins, principal assessor de política externa do presidente, discípulo do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho e mais provável conexão inicial entre Bannon e os Bolsonaros, esteve em Washington recentemente – provavelmente para sondar se Eduardo seria aceito como representante brasileiro nos EUA.

Em nome desse verdadeiro projeto de poder paralelo – alheio aos interesses de longo prazo do Estado brasileiro -, Bolsonaro parece ignorar tudo e todos ao manter a nomeação, que ainda precisa ser aprovada pelo Senado. De fato, o presidente parece fazer de conta que não sabe que embaixadores não lidam apenas com o Poder Executivo do país onde estão. Próximo a Trump, Eduardo terá que interagir também com setores da sociedade civil dos EUA e o Congresso, cuja Câmara dos Deputados tem maioria democrata, não muito simpática a Bolsonaro, sua prole e seus seguidores.

A embaixada em Washington, portanto, vai além de um presente de pai para filho. Acima de tudo, ela é uma oportunidade para Eduardo receber camaradas direitistas longe do escrutínio da imprensa brasileira e demais críticos ao bolsonarismo. Afinal, lideranças de diversos matizes ideológicos e seus prepostos costumam passar por Washington de tempos em tempos. Salvini, por exemplo, esteve lá em junho.

No longo prazo, como bem notado em artigo publicado no site Poder 360, Eduardo também ganharia força para, no futuro, ser visto como um candidato viável à presidência. Ao insistir na indicação do filho para o posto, Bolsonaro repete aquilo que, segundo ele e seus seguidores, o governo do PT teria feito: instrumentalizado a política externa para fins particulares.

No caso de Lula e Dilma, empréstimos vultuosos do BNDES para obras de retorno contestável ao Brasil em países de América Latina e África turbinaram não apenas a política externa voltada para o Sul Global durante seus mandatos, conforme diversos estudos, como esse, demonstram. Não seria exagero dizer que, à luz do que foi revelado recentemente pela Operação Lava-Jato, tais empréstimos procuraram assegurar a eleição de regimes simpáticos ao petismo e garantir obras a empreiteiras camaradas. Sem dúvida, tais ações geraram empregos no Brasil e influência externa de modo a satisfazer interesses nacionais, mas a um custo duvidoso.

Bolsonaro e sua prole – Eduardo à frente – adoram criticar o Foro de São Paulo, que congrega partidos de esquerda latino-americanos e celebrará sua 25ª reunião no fim de julho em Caracas. Emulando seus inimigos esquerdistas, Eduardo parece participar ativamente da construção daquilo que, no futuro, talvez seja chamado de "Foro de Bruxelas", uma referência à capital belga, atual sede de "O Movimento".

Aliás, nada mais apropriado para aqueles que são contra o suposto globalismo do que criar seu quartel-general na cidade que também abriga a União Europeia, a organização que talvez mais conteste a soberania dos Estados que a nova direita populista tanto diz defender e na qual a "alt-right" global se infiltrou via partidos nacionalistas no Parlamento Europeu.

Voltando ao foco deste post, porém, cabe perguntar quais interesses defenderá a embaixada do Brasil em Washington sob o comando de Eduardo. Consta em seu currículo que ele fez uma pós-graduação (ainda a ser completada) em economia – na verdade, um curso lato sensu sobre interpretação da escola austríaca para o funcionamento dos mercados, a qual despreza o papel do Estado como indutor do desenvolvimento.

Para Eduardo, o interesse nacional a ser defendido é, no mínimo, ambíguo: como defender algo – neste caso o Estado brasileiro – que aparentemente acredita ser irrelevante? Mas deixemos esse ponto de lado pois, até mesmo para os analistas de política externa, a definição do interesse nacional é ambígua, raramente atendendo às demandas de todos os atores domésticos relevantes e, portanto, sujeita à captura por lobbies econômicos e/ou ideológicos. O caso americano ilustra essas tensões muito bem, conforme Peter Trubowitz explora em 'Defining the National Interest: Conflict and Change in American Foreign Policy'.

O problema tampouco é se Eduardo fritou hambúrguer ou frango à moda da Louisiana durante seu intercâmbio no Maine. Parentes podem ser o braço direito de chefes de Estado desde que tenham experiência adequada para o cargo para o qual são indicados. Nossa legislação, inclusive, não considera nepotismo nomear parentes para cargos de primeiro escalão – embaixadores se encaixariam nessa categoria, embora haja controvérsias.

Não sem propósito o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, bem lembrou que o democrata John Kennedy indicou seu irmão Robert para a procuradoria-geral dos EUA em sua presidência. A ministra Damares Alves também defendeu a indicação porque Eduardo seria um "menino culto", ainda que jamais tenha posto os pés numa sala de aula no exterior.

Caetano Veloso, inclusive, deu gargalhadas do inglês falado pelo deputado num vídeo que já viralizou, o que me parece injusto dado que, com base em minha convivência com diplomatas, posso dizer que inglês fluente não é o forte do Itamaraty.

Sem dúvida, Eduardo não precisava ser uma Tabata Amaral (PDT-SP) – igualmente inexperiente para ocupar o posto que ocupa (deputada federal), mas com diploma de Harvard e trabalho de conclusão de curso bastante sofisticado, com uso inclusive de métodos quantitativos. Porém, precisamos de alguém com currículo melhor e mais aceitação internacional para ocupar o suntuoso edifício da embaixada, situada à Massachusetts Avenue.

Ao lado de Buenos Aires, Washington é o principal posto brasileiro no exterior desde a era do Barão do Rio Branco, sob cuja liderança o Brasil mudou seu foco diplomático do Reino Unido para os EUA. Ninguém mais que Joaquim Nabuco – um crítico dos americanos, conforme relata o historiador Leslie Bethel – operou essa mudança à época como embaixador.

O problema, enfim, reside na inexperiência – que não significa incapacidade – de Eduardo. Ele tem apenas 35 anos -aquilo que muitos diplomatas têm de carreira quando são alçados ao comando de uma embaixada importante. Acabou de assumir a presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

Não tem, portanto, rodagem para o cargo – se bem que experiência não é critério para os Bolsonaros escolherem seus assessores, haja vista que Martins é igualmente jovem e, interessantemente, já trabalhou para a embaixada dos EUA em Brasília, conforme consta em seu currículo. Lealdade – não à pátria, mas à moda da velha Omertà, o código de honra de mafiosos italianos – guia as escolhas do clã governista que parece querer emular uma monarquia.

De fato, à parte discussões sobre as qualidades de Eduardo para o cargo, com sua indicação Bolsonaro não apenas procura protagonismo para si e seu filho junto à versão internacional da "alt-right" que Bannon discretamente constrói. Com a indicação, o presidente também reafirma sua primazia sobre o olavismo – que, com algum verniz acadêmico, procurava ser a versão tupiniquim do pensamento de Bannon e asseclas. Nestor Forster, diplomata de carreira mais cotado para assumir o posto até o anúncio do nome de Eduardo, é próximo a Olavo de Carvalho.

Em última instância, ao preterir Forster com o respaldo do chanceler e também diplomata de carreira Ernesto Araújo, o presidente, portanto, demonstra que governa apenas para e com uma base: zero um, zero dois e zero três. Se continuar assim – ignorando até mesmo aqueles que o apoiaram ou aderiram a seu projeto por conveniência -, o presidente da República e o país que ele diz governar tornar-se-ão mais dia ou menos dia zeros à esquerda no cenário mundial.

Tudo isso à parte, o governo dá a aprovação de Eduardo no Senado como favas contadas, embora a oposição diga ter votos para barrar a indicação. De fato, senadores já mandaram recados ao inquilino do Palácio do Planalto desaprovando indicação para embaixador. Diplomata experiente, Guilherme de Aguiar Patriota foi indicado em 2015 por Dilma Rousseff para representar o Brasil junto à OEA, mas foi rechaçado pelos senadores.

Ademais, a fatura a ser cobrada pelos senadores pela aprovação deve ser alta, queimando, assim, munição que poderia ser melhor empregada em votações cruciais para o governo, como as reformas da Previdência e tributária. Talvez seja por isso que, da direita, vieram algumas das críticas mais contundentes à nomeação de Eduardo, como ilustra a fala da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) sobre o assunto.

Muitos à direita, aliás, criticavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) por não falar inglês e não ter curso superior. Na eleição de 2002, o PT respondia aos críticos exibindo propagandas em que o então presidenciável do partido aparecia rodeado de especialistas, sugerindo que seu governo contaria – como de fato contou – com eles.

Enfim, seriam o nosso equivalente a 'The Best and the Brightest' ('Os Melhores e Mais Brilhantes'), título de um livro que explora como acadêmicos e executivos da iniciativa privada que trabalhavam na administração Kennedy contribuíram para a desastrosa escalada militar americana no Vietnã nos anos 1960. Os melhores e mais brilhantes do bolsonarismo, se existem (e acredito que existam!), estão escondidos, infelizmente.

Acadêmicos e experts em geral são, sem dúvida, falíveis, mas o conhecimento técnico e a experiência em políticas públicas – inclusive em política externa – ainda são imprescindíveis para o sucesso de uma nação. Bolsonaro parece ter predileção por escolher os piores, talvez porque, como reconheceu num ato falho, ele era o "mais ruim" dos candidatos à presidência em 2018.

"Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos", responderia o presidente, reconhecendo suas limitações já antes da posse. Sem querer fazer troça da fé de quem faz troça da coisa pública, não é exagero concluir que o pai presidente deve ter indicado o filho evangélico como embaixador esperando que tal milagre aconteça. Só isso, além, claro, das ambições de internacionalizar o bolsonarismo, explica tamanha teimosia.

* Vinícius Rodrigues Vieira é professor visitante do Departamento de Relações Internacionais da USP.

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