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Entendendo Bolsonaro

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Entre eleitores ferrenhos, apoio a Bolsonaro permanecerá estático

Entendendo Bolsonaro

05/08/2019 09h48

(Crédito: Carl de Souza/AFP)

*Daniel Trevisan Samways

Jair Messias Bolsonaro construiu sua carreira política com um discurso nacionalista e autoritário, de combate a pautas progressistas e claramente contrário aos direitos humanos. Sempre atingiu votações expressivas e inseriu seus três filhos mais velhos na política. Muitos acreditavam que a força do capitão reformado estava restrita a seu nicho reacionário no Rio de Janeiro, e que a sociedade brasileira não toleraria avanços autoritários e antidemocráticos em pleno século XXI. Estavam enganados.

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As explicações para a vitória de Bolsonaro são diversas, e colocar todas as fichas no antipetismo seria empobrecer o debate. Se ele ajuda a compreender o avanço do chamado bolsonarismo, não explica tudo. As pessoas não votaram no então candidato do PSL apenas por serem contra o PT, mas porque repudiavam várias pautas progressistas e enxergavam nele uma saída para a crise. Bolsonaro conseguiu se vender como o novo, o outsider na política, mesmo sendo parte dela há mais de 30 anos.

Bolsonaro partiu para uma verdadeira cruzada desde que se lançou candidato e também deu uma guinada em defesa de um certo liberalismo autoritário, aquele misto de "liberal na economia, conservador nos costumes". Mas esse liberalismo também tolera doses cavalares de autoritarismo, como a experiência chilena nos mostrou no passado. Nesse caldo, inimigos são essenciais.

Democracias consolidadas são caracterizadas pelo embate entre adversários políticos, que, mesmo com opiniões divergentes, reconhecem a existência e a necessidade do outro. Governos antidemocráticos elegem inimigos da pátria, da nação, dos verdadeiros valores, da família e da religião. É a ideia da constante ameaça que impulsiona esses governos e move seus apoiadores.

Bolsonaro fortaleceu o discurso de que a esquerda corrompia o país, que as universidades estavam tomadas pela doutrinação ideológica e que a verdadeira família de bem estava ameaçada. Todos deveriam se proteger, com armas em punho e com novas leis, sem limite de velocidade. Aqueles que criticam o peso do Estado na economia adoram o seu tamanho quando se trata de censurar e controlar os costumes.

Mesmo que as instituições continuem funcionando e que muitas delas ainda sejam contrapesos à atuação de Bolsonaro, não podemos descartar um avanço autoritário dentro do próprio governo. Esse autoritarismo encontra, infelizmente, ressonância em parcelas significativas da sociedade, que aprovam a perseguição e o combate aos "inimigos do povo".

Parte do apoio a Bolsonaro vem da rejeição a uma sociedade mais justa e equilibrada, com amplos direitos e inclusão social. Seus seguidores mais ferrenhos defendem um padrão estratificado de sociedade, sem mudanças, sem ameaças, estando prontos para atacar tudo aquilo que colocar em xeque essa ordem estabelecida. Pode soar um pouco exagerado, mas intelectuais, políticos e ativistas vêm sofrendo ameaças não apenas virtuais, mas reais, alguns sendo obrigados a deixar o país.

O apoio mais fiel ao presidente reside em um segmento que enxerga as ações do presidente como um verdadeiro combate ao mal e àquilo que ameaça a ordem estabelecida, mas também em um retorno da sociedade a um passado mítico e glorioso, como aponta Jason Stanley em "Como funciona o fascismo". A política se transforma em uma eterna luta do "nós" contra "eles", "amigos" contra "inimigos".

Não é preciso ir muito longe para encontrar essa disputa. Basta ler e ouvir com atenção os pronunciamentos do ainda candidato Jair Bolsonaro, seu discurso de posse e suas entrevistas e lives nas redes sociais. Lá encontramos um agitador de torcida, que joga para sua plateia mais atiçada em vez de governar.

Sobrará alguma coisa do país após quatro anos de tensão constante? Não sabemos, mas os sete meses de governo indicam que o caminho será muito tortuoso.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM). Atualmente realiza estágio de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

 

Sobre os autores

Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.