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"Bolsonarismo articula máquina de guerra cultural", diz historiador

Entendendo Bolsonaro

03/12/2019 16h48

O secretário de Cultura, Roberto Alvim, encarregado de colocar a pasta a serviço de uma guerra cultural contra inimigos imaginários (Crédito: Nelson Almeida/AFP).

[RESUMO] A gestão do secretário de Cultura, Roberto Alvim, tem rapidamente se empenhado para estruturar uma máquina de guerra cultural na pasta do governo, a qual vai sendo moldada sob as bases do pensamento obscuro de Olavo de Carvalho. O combate ao "establishment", nome dado a inimigos imaginários difusos, confere identidade a um movimento de rejeição dos pilares da democracia liberal, ao qual se dá o nome de bolsonarismo.

*Igor Tadeu Camilo Rocha

Nas últimas semanas e, especialmente, nos últimos dias, o governo Bolsonaro intensificou a sua montagem da pasta de Cultura, consolidando o olavismo como elemento definidor da sua política para a área, agora comandada pelo secretário Roberto Alvim.

Alvim, que ganhou capital político no bolsonarismo após ofender a atriz Fernanda Montenegrodisse, em evento da Unesco há duas semanas, que a arte brasileira "escravizou a mente do seu povo" nos últimos 20 anos. Em viagem pela Europa já como titular da Cultura, chegou, ainda, a se envolver em bate-boca com um palestrante.

Dentre as recentes nomeações tem ocupado grande espaço nos noticiários as de Camilo Calandreli, da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura – responsável pela Lei Rouanet –, juntamente com as de Dante Mantovani para a Funarte e de Rafael Nogueira para a Biblioteca Nacional.

Não ficou menos em evidência a nomeação para a Fundação Cultural Palmares do jornalista Sérgio Nascimento de Camargo, sobretudo devido às suas declarações repletas de preconceitos e negacionismos históricos referentes a figuras como Zumbi dos Palmares ou sobre a escravização de africanos na colonização do Brasil, além de sua defesa pelo fim de movimentos de combate ao racismo.

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Estes nomes se juntam a outros cinco, anunciados nas últimas semanas pela gestão do novo secretário, consolidando a influência direta do youtuber Olavo de Carvalho no governo Bolsonaro.

Ele é referência para todos os mencionados acima, os quais se juntam aos ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, como pupilos do autoproclamado filósofo dentro do governo.

A discussão que importa, aqui, é tratar brevemente da função que essas falas e figuras ocupam no debate público. O ponto é que elas são parte de uma guerra cultural levada a termo pela extrema direita, elemento que possui centralidade no seu projeto político, pois traz em si as rejeições centrais aos pilares da democracia liberal que a definem.

Há dois aspectos fundamentais para serem ressaltados. O primeiro é que, a despeito da aparência caricata e bizarra dos conspiracionismos que marcam posturas e falas dessa ala olavista, dentro da narrativa de uma guerra cultural elas possuem uma função constitutiva que é a rejeição ao establishment, na qual se apresentam como um grupo perseguido pela "modernidade".

O segundo aspecto é que, no atual governo, esse grupo de olavistas possui centralidade inédita, visto que em órgãos culturais de outros governos nunca houve tamanho ímpeto de aparelhamento, mas que este é justificável dentro dessa narrativa da guerra cultural.

Para entender o primeiro aspecto, o da narrativa da rejeição à modernidade que norteia a guerra cultural, é importante ressaltar alguns elementos históricos e teóricos sobre ele. Já discuti sobre eles noutro artigo e, aqui, passarei por eles brevemente.

Nas origens dessas negações estão o surgimento do fundamentalismo – que remete à publicação do conjunto de ensaios The Fundamentals: A Testimony to the Truth, publicados entre 1909 e 1915 – e também de movimentos como o do terraplanismo.

O que caracteriza tanto o fundamentalismo quanto os grupos que se organizam em torno de teorias conspiratórias, desde, pelo menos, o século XIX, é a formação de visões fechadas e até binárias de mundo.

Elas constituem identidades desses grupos, que entendem a si mesmos como anti-establishment. Através dessas maneiras de ver o mundo, rejeitam instâncias reconhecidas de construção de verdades em democracias, como comunidades de especialistas, universidades ou imprensa. Recusa-se a autoridade de qualquer especialista.

Cria-se, dessa forma, uma visão "nós x outros". Os primeiros, membros dessas comunidades, seriam "esclarecidos" por verdades que constituem suas identidades, sob essas bases mencionadas acima. Os outros constituiríam o próprio "establishment". Tanto eles quanto as instituições que reproduzem suas verdades precisariam ser combatidos.

Tratam-se de identidades constituídas a partir de negações que se voltam contra quaisquer instâncias democráticas de construção de verdades, conhecimento ou debates que vão de encontro a formas literalistas de se ver o mundo.

Um exemplo de comportamento desse tipo seria um leitor/seguidor daquilo ensinado nos cursos ou videos de Olavo de Carvalho, que não se disponha a cotejar o que o ideólogo diz com a obra de filósofos de fato.

Com essa atitude, ele evita que, por meio do método crítico, se busque a verdade por meio de reflexões. Em vez disso, prefere a confirmação dos pressupostos do mesmo ideólogo através de uma comunidade fechada de leitores, a qual a interpretação unívoca das teses do ideólogo é constitutiva de identidade.

Tal atitude é incentivada nessas comunidades. Por meio dela, rejeitam-se os críticos de suas teses como inimigo, acusando-o ad hominem de diversas coisas como, por exemplo, ter sido doutrinado/ser doutrinador pelo/para o "globalismo" ou "comunismo".

O mesmo arquétipo se constrói na relação com a imprensa. É a partir desse tipo de forma de ver o mundo que veículos jornalísticos, jornalistas ou emissoras que noticiem em desacordo com crenças prévias são acusados, de serem "comunistas".

Paralelamente a isso, constroem-se "ecossistemas de informações" que reproduzam e retroalimentem crenças – que vão desde sites como o Breibart até canais de YouTube diversos, como aqueles indicados pelo presidente nos seus primeiros dias de governo.

A guerra cultural do bolsonarismo tem um ponto que a diferencia daquelas que apareceram em vários governos autoritários que tivemos do século XX até hoje: no caso, a destruição do moderno é um fim em si.

Mas a questão que sempre se coloca com esses debates: como um número tão grande de pessoas consegue ser convencida a se tornar seguidora de teses tão absurdas e vazias de qualquer comprovação? Um primeiro ponto é que elas prescindem de provas por organizarem sistemas de crença.

A partir deles, constroem coesos núcleos de sociabilidade baseados em crenças e sentimentos comuns, e a própria diferença entre o que eu acho e o que, de fato, é perde validade. São regimes de verdade, no sentido foucaultiano, que são validados por grupos e autoridades – como os ideólogos propagadores delas – definindo instâncias de definição e validação do real.

Mas, além disso, há elementos como os apontados por Noam Chomsky ao dizer que "As pessoas já não acreditam mais nos fatos". Resumindo-os bastante, trata-se de atitude de rejeição em dos pilares da formação da opinião pública, baseadas no uso da razão no espaço público, acompanhada da construção de uma identidade cada vez mais reclusa a esses espaços sectários.

Isso é produto, em grande medida, da percepção crescente nas sociedades contemporâneas da condição de não estarem contempladas pela própria modernidade naquilo que ela promete, como liberdade, igualdade e melhores condições de vida.

A rejeição daquilo que define as democracias modernas, juntamente com o viés niilista de sentir-se excluído dela e a volta ao particular e reativo a ela, torna-se o motivador inicial para se empreender uma guerra contra essa modernidade.

A narrativa antimoderna da guerra cultural consiste numa rebelião advinda do ressentimento contra todos os aspectos da modernidade e as instâncias de (re)produção de suas bases.

Não é fortuito, assim, que neste governo a guerra cultural tenha seus principais campeões nas figuras de um ministro da Educação cuja trajetória acadêmica é medíocre e que aja, constantemente, contra as universidades, ou ainda por agentes de órgãos culturais do estado que ataquem a própria cultura. Afinal, fazer isso reforça o sentimento reativo e ressentido no qual a guerra cultural se baseia.

Entendendo o próprio bolsonarismo como uma utopia de destruição, em que a rejeição "a tudo isso que está aí" resume grande parte de suas políticas, é que chegamos ao segundo aspecto da guerra cultural. Todo esse sistema de crenças, que se contrói em torno de uma narrativa antimoderna que caracteriza o fenômeno, é voltada ao que esses grupos definem como o establishment.

Assim, é quase que um caminho natural que esses olavistas ou apoiadores, a despeito de suas posições na atual articulação de forças políticas, definam-se como outsiders, perseguidos ou "minorias".

A partir daí que se naturalizam aparelhamentos na área cultural e mesmo na educação nunca antes vistos no Brasil, ao menos em períodos democráticos.

A guerra cultural contra o que o olavismo chama de "establishment" – geralmente identificado com o PT, com um comunismo imaginário ou qualquer crítico ou opositor ao governo – precisa ser trilhada, e as armas para tanto são uma versão superdimensionada do que essa extrema direita acusava os governos anteriores.

Nomear para os órgãos culturais quem antagonize com eles próprios e seus objetivos é, assim, parte essencial da estratégia. Somente por essa via, inimigos que essa narrativa escolhe como onipresentes e universais, como as fictícias ameaças ao Ocidente e seus pilares (o capitalismo e versões mais reacionárias do cristianismo) ou a quebra de hierarquias sociais identificada na luta anti-racismo ou no feminismo, seriam vencidos.

Nos casos de Mantovani e Nogueira ainda é feita uma relação forçada entre a cultura pop e suas teorias conspiratórias, de maneira a ressaltar um caráter mais universalista e global da dita guerra cultural.

Quanto maior e mais onipresente for esse inimigo, mais se reforçam tais rejeições pautadas no particularismo e sectarismo. Quanto mais onipresente seja o adversário da guerra cultural, mais o núcleo duro de sua narrativa binária e sectária é reforçado.

Finalmente, a guerra cultural do bolsonarismo tem um ponto que a diferencia daquelas que apareceram em vários governos autoritários que tivemos do século XX até hoje.

No caso, é que a destruição do moderno é um fim em si. Não se propõe o surgimento de outro cidadão-tipo, uma espécie de arquétipo de ser humano que surgiria dessa "revolução" conservadora – ou melhor, reacionarismo cultural de base olavista.

Seu sectarismo, particularismo e orgulho ostentado pela rejeição do legado iluminista os aproxima, ainda que não manifeste explicitamente esse desejo, do arquétipo do Tosco Brasileiro, conforme Cristian Dunker elaborou em ensaio recente.

*Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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