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Roger Scruton, um legado de beleza contra a destruição

Entendendo Bolsonaro

13/01/2020 16h23

Roger Scruton, um dos maiores autores conservadores de sua época, morreu no último domingo (12), aos 75 anos (Crédito: David Hartley/REX)

* Flávia Santos Arielo

Maio de 1968, Paris, França. Para grande parte dos jovens e da intelligentsia europeia, foi a manifestação máxima da liberdade desenfreada e revolucionária. Não para um jovem britânico em particular, que enxergava nas ruas de Paris um movimento puramente disruptivo, muito semelhante aos hooligans de seu país.

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Roger Vernon Scruton tinha então 24 anos e viu-se na contramão de seu tempo: em meio aos rompantes de destruição, ele se descobriu conservador.

Conservadorismo é um termo banalizado ao longo dos últimos anos. Seja por ignorância ou por maldade, seu entendimento foi plasmado ao do reacionarismo de tal forma que dissociá-los é uma tarefa que poucos intentam fazer. E não se engane ao pensar ser essa tarefa hercúlea ou penosa: para tanto basta a compreensão das palavras.

Em outros termos: ler é o suficiente para separar o joio do trigo. E Roger Scruton soube não apenas escolher e separar essas palavras, mas as uniu e cultivou num legado literário, estético e filosófico que poucos conseguiram em vida.

Sir Roger Scruton nos deixa o mais elegante repertório do pensamento conservador contemporâneo. Autor de mais de 50 obras – entre livros acadêmicos, tratados filosóficos e estéticos, romances e óperas – o britânico tinha uma pena afiada contra o esfacelamento de tudo aquilo que dá sentido à vida do homem: a beleza, a tradição, a sacralidade. O filósofo enxergava o mundo como um lar que garantia conforto, consolo e contemplação para o homem.

Em 1968, o jovem Scruton percebeu nos militantes marxistas aquilo que chamou de "cultura do repúdio", ou seja, um método de perseguição e censura de toda e qualquer opinião que fosse contrária àquela ideologia.

Ele mesmo experimentou dessa navalha ideológica em diferentes momentos de sua jornada, sendo a última ainda no ano de 2018, quando, vitima de fake news, foi impedido de assumir um cargo não remunerado numa comissão de melhoria habitacional proposta pelo governo britânico.

Para o autor, a experiência reverenciada pela maioria dos pensadores em 1968 não representava um tipo de liberdade, mas sim um tipo de prisão.

Naquele momento, compreendeu que, quando a liberdade está divorciada da autoridade, de nada serve. Scruton compreendia autoridade como respeito às coisas, pessoas e pensamentos que mantêm a integridade do ser no mundo. Este é um traço bastante caro aos conservadores.

Para Roger Scruton, o conservadorismo "[…] surge diretamente da sensação de pertencimento a alguma ordem social contínua e preexistente e da percepção de que esse fato é importantíssimo para determinar o que fazer".

É da fonte de Edmund Burke (1729-1797) que Scruton bebe para ressaltar o quão importante é a preservação de laços entre os vivos, os mortos e aqueles que ainda hão de nascer, demonstrando que o solo que sedimenta a liberdade no conservadorismo é a boa convivência social.

O pensamento conservador é a linha que costura toda a obra de Roger Scruton, que vai da estética à política, do pessimismo filosófico à preocupação com a natureza humana e a natureza do mundo em que vivemos. Ao contrário do que julga o senso comum, o conservadorismo se ocupa do presente, e não do passado.

É no presente que as relações humanas estão estabelecidas, onde o homem se percebe como pertencente ao meio social, onde cria laços afetivos e constrói tradições. Sir Roger ressalta que esses valores e afetos nunca se dão de forma hierarquizada ou imposta; ao contrário, crescem de maneira natural, "[…] de baixo para cima, por meio de relações de amor, de respeito e de responsabilidade".

Ser conservador é o oposto de ser reacionário e o legado de Roger Scruton (assim como o de Michel Oakeshott, de Russell Kirk e de John Kekes, para permanecer em contemporâneos) está aí como prova disso. O reacionário vive um conto de fadas, no mundo do "era uma vez…", de um passado glorioso que jamais existiu.

Para além da preocupação com o presente, Scruton ressalta a importância de perceber as mudanças no mundo, posto que, quando estas não são disruptivas, elas ajudam a manter aqueles laços indissolúveis dos homens entre si e para com o mundo em que vivem.

O conservador, mais do que o revolucionário, olha para o futuro com carinho e esperança, pois sabe que a atitude conservadora faz perdurar as coisas que funcionam e que garantem a continuidade da vida. A existência de um futuro só pode ser garantida através do cultivo manso e persistente do presente, e Roger Scruton sabia muito bem disso.

Controverso, polêmico e irônico, o pensador britânico construiu sua elegia à vida: uma vida com sentido é aquela onde é possível ver beleza nas coisas mínimas do cotidiano, nas relações construídas no seio da comunidade na qual se vive. Sir Roger deixa como legado o seu pensamento elegante sobre a vida e seus valores insubstituíveis.

A arte, a beleza e a arquitetura compõem grande parte desse legado delicado, podendo ser conferido em livros como "Beleza" e "A estética da arquitetura".

Seu olhar sobre o mundo como um lar a ser preservado aparece relacionado à sacralidade em "A Alma do Mundo" e de forma pragmática e política em "Filosofia Verde: Como pensar seriamente o planeta".

A música, sua grande amante (Sir Roger, além de escritor, foi compositor, pianista e organista), foi homenageada em obras como "Coração devotado à Morte: o sexo e o sagrado em Tristão e Isolda, de Wagner".

Sua paixão por vinhos é escancarada em "Bebo, logo existo". Ficção e autobiografia se entrelaçam ao sombrio regime socialista tcheco em "As memórias de Underground", sua última obra lançada no Brasil.

Sir Roger Scruton, o mais elegante pensador conservador contemporâneo, morreu aos 75 anos, em 12 de janeiro de 2020. Muito se escreverá sobre o filósofo nos próximos dias no Brasil, um dos últimos lugares que visitou antes de tornar pública sua doença e lugar no qual descobriu uma pequena multidão de ávidos admiradores enquanto discursava sobre o sentido da vida, em julho de 2019.

De tantas palavras ditas em solo brasileiro, uma persistiu na memória de quem o assistia: gratidão. E ainda persiste.

* Flávia Santos Arielo é professora do curso de História do Centro Universitário Sagrado Coração (Unisagrado) e doutora em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde defendeu a tese "Em defesa da Beleza: o sagrado e a filosofia da beleza de Roger Scruton".

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