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Brasil perdeu respeitabilidade internacional, diz especialista em EUA

Entendendo Bolsonaro

13/06/2020 13h33

O chanceler Ernesto Araújo e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, as duas caras da atual política externa brasileira, conduzida sob o signo da mediocridade histórica.(Crédito: Arthur Max/Ministério das Relações Exteriores)

* Cesar Calejon

A pandemia de covid-19 chamou os atores globais à mesa. Num mundo democrático crescentemente liderado por populistas, a necessidade de coordenação internacional e, sobretudo, de confiança para com entidades não eleitas, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode expor a irresponsabilidade da política externa brasileira, decididamente fiel ao isolacionismo do governo Trump.

Para entender a atual conjuntura internacional, o cenário para as eleições americanas e o seu potencial impacto para o Brasil, o blog conversou com Fernanda Magnotta, doutora em Relações Internacionais, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e especialista em Estados Unidos.

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A professora falou sobre o alinhamento entre Bolsonaro e Trump, traçando uma diferença histórica entre a política externa atual e as políticas americanistas de governos anteriores. "O alinhamento (da política externa do Brasil) com os Estados Unidos é um fenômeno histórico e não representa um problema, necessariamente. Vários governos do passado adotaram diferentes maneiras de praticar este alinhamento (…) Extremamente complicado no que se refere à administração Bolsonaro é o fato de que não se trata de um alinhamento entre Brasil e EUA, mas sim entre as atuais gestões federais de ambos os países", prossegue.

Assim, de acordo com ela, o bolsonarismo seria trumpista e não americanista, o que vulnerabiliza muito os interesses do Brasil, porque o país fica refém de uma dinâmica eleitoral no curto prazo. "Enquanto o Trump for o presidente estadunidense, esta lógica funciona. Caso isso mude, literalmente, daqui a alguns meses, o Brasil sairá fragilizado, porque a nova administração dos EUA deverá perceber o bolsonarismo como oposição. Ou seja, este tipo de alinhamento (do bolsonarismo com a gestão Trump) não me parece sustentável no longo prazo. É uma política de subserviência ligada aos governos e não aos estados", esclarece a especialista.

Segundo ela, a política externa chefiada pelo chanceler Ernesto Araújo rompe as tradições do Itamaraty e coloca o Brasil em posição delicada frente à sociedade internacional. "Ainda que haja algum pragmatismo, está tem sido uma política externa absolutamente ideológica e muito pautada pelas ideias do Olavo de Carvalho: lógica antiglobalista e que representa uma ruptura para o Brasil com relação às práticas históricas (da política externa brasileira). O Itamaraty enfrenta uma crise profunda, inclusive, de legitimidade do ministro (Ernesto Araújo), que não representa a maioria dos diplomatas. Uma descontinuidade de valores e tradições considerando o que hoje se pratica. Eu diria que há, sim, uma crescente onda de descrédito do Brasil no plano internacional, porque o país vem deixando de ocupar os espaços e perdeu respeitabilidade", garante Magnotta.

Sobre as recentes especulações de Donald Trump e Jair Bolsonaro considerando a criação do 'G7 expandido', ela é categórica: "É mais um movimento retórico do presidente Trump para tentar ganhar algum tipo de credibilidade internacional. É uma maneira de tentar articular quem ele considera como aliado e, de certa forma, dissuadir um pouco as críticas que ele vem enfrentando neste momento decisivo de pandemia e fragilização da economia (estadunidense)."

A professora enfatizou o ceticismo dos analistas em relação à palavra de Trump, um isolacionista, enquanto líder do tal 'G7 expandido'. "O G7, enquanto ainda era G8, já enfrentava várias dificuldades, por conta da questão da Rússia, que foi excluída do arranjo original. Desde então, falta coesão entre os próprios membros do G7, que não lidam muito bem com alguns temas. (…) O presidente Trump tem sido um pária com relação a vários aliados e países que compõem esse grupo. Ele já se indispôs no passado com algumas destas lideranças e não me parece que ele seja uma voz que represente o interesse deste grupo de forma geral", acrescenta.

Assim, Magnotta acredita que esta movimentação do presidente estadunidense tem um cunho mais discursivo e retórico, para criar espaços políticos da sua conveniência, do que efetivamente produzir uma mobilização ao redor de interesses compartilhados ou da tentativa de estabelecer uma arquitetura internacional renovada. "Entendo que para isso já existem instâncias para com as quais o próprio Trump sempre foi muito cético. Ele tem muita resistência a arranjos multilaterais e cooperativos, costuma ser muito crítico às organizações internacionais e não é um presidente focado no internacionalismo, ao contrário, é um protecionista", complementa a acadêmica.

Segundo ela, proposições desta natureza, que envolvem grandes promessas de ingresso do Brasil em organizações como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ou o "G7 expandido", por exemplo, devem ser avaliadas com muita cautela.

"Tudo isso é uma criação utópica. O Brasil já é parte do grupo que reúne as maiores economias do mundo, que é o G20, e não faria sentido sobrepor este grupo a outro. Seria uma versão trumpista do grupo e não teria legitimidade. Trata-se de um recurso retórico que aqui no Brasil também está sendo utilizado com fins políticos para tentar mostrar uma aproximação e sinergia entre Brasil e Estados Unidos, mas que, efetivamente e na prática, não significa muita coisa. Até porque o Brasil tem sido pouco ativo e prestigiado como membro do G20, dadas as dificuldades políticas, institucionais, econômicas e até mesmo ideológicas, com relação a este tipo de bloco por parte do último governo", ressalta.

O caso do possível ingresso do Brasil na OCDE, para ela, é sintomático para explicar que "os países não possuem amigos, mas interesses".

"O Brasil e os EUA vêm discutindo esta possibilidade, mas entre passar da promessa retórica para a ação prática tem muito chão pela frente. Desde o começo destas conversas, os EUA usam uma técnica de negociação conhecida como 'issue linked', com a qual eles condicionam a obtenção de qualquer avanço do processo (de ingresso do Brasil na OCDE) com a necessidade do Brasil agir exatamente como eles determinam. Eles já fizeram isso várias vezes com negociações muito agressivas para alcançar os seus interesses e condicionaram, entre outras coisas, o ingresso do país na OCDE a este movimento. No entanto, nada se concretizou na prática até o momento e nós sabemos que existem várias limitações estruturais para que isso de fato se consolide", elucida Magnotta.

A especialista finaliza citando recente declaração de Trump como exemplo da falácia de que os países não possuem amigos, mas interesses. "Essa ideia de que haverá uma fidelidade do governo Trump para com o Brasil é um engano. Isso já ficou muito claro nesta última declaração que o presidente estadunidense fez apontando o Brasil e a Suécia como exemplos do que não deve ser feito durante a pandemia. Quando os interesses dele e do bolsonarismo estiverem contrapostos, certamente o Trump não hesitará em jogar o Brasil embaixo do ônibus, porque está é a lógica da política internacional", conclui.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).

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