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Vitória de Biden deve isolar Brasil no cenário internacional, diz professor

Entendendo Bolsonaro

12/08/2020 20h16

Hoje favoritos na corrida à Casa Branca, os democratas Joe Biden e Kamala Harris podem jogar fora a única aliança internacional robusta do governo Bolsonaro (Crédito: AP Photo/David J. Phillip)

* Cesar Calejon 

A poucos meses das eleições norte-americanas, pesquisas indicam favoritismo para o candidato de oposição ao governo Trump, o democrata Joe Biden. Para o professor de Relações Internacionais e especialista em Política Externa dos EUA, Carlos Gustavo Poggio, o alinhamento brasileiro ao presidente norte-americano Donald Trump, que ele chama de "amador", pode cobrar caro caso os democratas retornem à Casa Branca em 2021.

Na última terça (11), o partido de Joe Biden anunciou a senadora pela Califórnia Kamala Harris como candidata a vice-presidente. No ano passado, Harris publicou por três vezes em sua conta no Twitter questionamentos acerca da postura do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em relação à sua política ambiental para a Amazônia. A perspectiva de alinhamento democrata ao mandatário brasileiro, que hoje reina na comunidade internacional, é motivo de enorme preocupação no Planalto.

Em meio a esse cenário, Poggio, que é doutor em Relações Internacionais e professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), em São Paulo, conversou com o blog sobre esse alinhamento do governo Bolsonaro ao presidente Trump, no contexto do embate entre EUA e China. A disputa geopolítica entre essas duas nações foi o principal tema da conversa.

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"Essa escalada de tensões diplomáticas (entre China e EUA) vem acontecendo há algum tempo. Nós temos uma condição estrutural de disputa entre esses países, que se manifesta em diversas áreas: comércio, tecnologia, questões diplomáticas como o fechamento de consulados etc. Trata-se de um embate geopolítico muito amplo e a grande questão, para nós, é como o Brasil se insere neste contexto. Como o País vai se colocar no momento em que o sistema internacional está se reconfigurando para uma espécie de Guerra Fria, guardada as devidas diferenças, agora entre EUA e China", explica Poggio.

Para ele, existem algumas diferenças fundamentais entre a Guerra Fria e o atual momento. "Eu destacaria um ponto principal, que é o alto grau de interdependência econômica entre EUA e China, o que não havia entre EUA e URSS. A China é uma potência econômica que a União Soviética nunca chegou a ser. No campo militar, os chineses ainda precisam se desenvolver muito para ter alguma paridade com os EUA. No campo do 'soft power', a URSS estava bem à frente do que a China hoje. Vejo também a questão da disputa/guerra cibernética como fator novo nesse contexto", ressalta.

"Uma potência média como o Brasil", prossegue o professor, "um país em desenvolvimento, tem restrições em termos das suas escolhas estratégicas. Nem durante a Guerra Fria original o Brasil escolheu aliar-se de forma tão subserviente, porque houve alguns momentos (de alinhamento com os EUA), durante a gestão (Humberto de Alencar) Castelo Branco, por exemplo, mas o País manteve certa independência estratégica dos dois blocos".

De acordo com ele, "este seria um posicionamento interessante para esta ocasião também. Não cabe ao Brasil escolher, claramente, um lado nessa disputa. Muito pelo contrário: devemos aproveitar as eventuais oportunidades que surjam deste embate. Uma abordagem inteligente do governo brasileiro seria fazer uma leitura clara do que está acontecendo no sistema internacional e perceber como a nossa nação pode se beneficiar desta nova configuração".

Poggio não acredita que uma eventual vitória de Joe Biden sobre Donald Trump em novembro possa arrefecer este conflito. "Essa não é uma contenda entre Trump e Xi Jinping, entre indivíduos ou líderes. Esta é uma disputa estrutural entre duas grandes potências: uma em ascensão, que é a China, e a outra estabelecida, que são os Estados Unidos. É uma situação clássica nas Relações Internacionais: desde a Guerra do Peloponeso (entre 431 e 404 a.C), Tucídides já descrevia isso. Portanto, não se trata do Joe Biden ser eleito para resolver esta questão", garante.

Contudo, a imagem da China na sociedade estadunidense vem piorando substancialmente durante o governo Trump, quando o presidente estadunidense fez diversas afirmações e acusações de cunho racista contra os chineses, principalmente no que se refere à pandemia de covid-19 e à guerra tarifária.

Recentemente, o Pew Research fez uma pesquisa e descobriu que cerca de dois terços da população dos EUA (66%) possuem uma visão desfavorável sobre o país asiático. "Isso piorou muito por conta da pandemia. Alguns anos atrás, esse número estava na casa dos 40%. Ou seja, existe um respaldo popular para esta situação de confrontação com a China e a gente não percebe, nas declarações do Partido Democrata, nenhuma sinalização de que este conflito possa arrefecer (com a eleição do Joe Biden). Na verdade, se existe um tema que reúne consenso em Washington é o de que a China representa um adversário estratégico", acrescenta Poggio.

Assim, a China está assumindo uma postura mais assertiva junto à sociedade internacional, deixando de lado os discursos de país emergente e da ascensão pacífica para se afirmar, fortemente, como uma grande força na arena global. Apesar disso, as mensagens emitidas pelo mandatário estadunidense reforçam a ojeriza contra os chineses, inquestionavelmente.

"O Trump, que claramente não possui um estudo intelectual profundo sobre o tema (comunismo), tem alguns objetivos com esta narrativa (de "combate ao comunismo"). O primeiro é atribuir a pecha de radicais esquerdistas ao Partido Democrata. Ele também sabe muito bem que 'comunismo' e 'socialismo' não são palavras bem percebidas pelos imigrantes hispânicos em alguns lugares (dos EUA), como no estado da Flórida. Ou seja, essa narrativa também visa consolidar o capital político entre esses eleitores, que têm um peso no cenário estadunidense doméstico", salienta o professor.

Ainda segundo ele, o conflito entre EUA e China será o tema central da geopolítica no século XXI. "Estamos entrando em uma era que vai definir como estas duas potências deverão se relacionar. Elas estão tentando entender as regras do jogo. Ninguém sabia bem, por exemplo, em meados das décadas de 1940 e 1950, exatamente como se daria a relação entre Estados Unidos e União Soviética. Houve episódios como a crise de Berlim (1948), no início da Guerra Fria, que serviram para que as potências se testassem naquela ocasião e aprendessem quais eram as regras daquele relacionamento. Eu acho que é isso que nós estamos vendo a partir de agora."

Recentemente, Mike Pence, vice-presidente dos EUA, e Mark Esper, secretário de Defesa, fizeram discursos fortíssimos abandonando a postura dos Estados Unidos com relação à China que estava vigente nos últimos quarenta anos.

"Isso mudou de forma muito rápida e claramente. A administração Trump incluiu a China, oficialmente, inclusive, na declaração estratégica do governo estadunidense, como adversária. Portanto, não mais como um competidor ou parceiro. E a China vem respondendo da mesma forma. Assim, existem agora diversos focos de tensão envolvendo muitas questões: Hong Kong, Taiwan, Mar do Sul etc.", diz Poggio.

Talvez o ponto mais nevrálgico para refletir sobre o embate entre as duas maiores forças militares e econômicas da Terra seja a capacidade que cada parte tem de estabelecer alianças regionais e globais.

"A Índia está em uma posição bastante complicada neste processo. Afinal de contas, é um país que faz fronteira com a China, que tem disputas territoriais com os chineses, durante as quais morreram soldados indianos, recentemente. Houve uma escalada em termos de discurso neste sentido", lembra o acadêmico, que entende que este fato abre uma janela estratégica importante para os EUA, em virtude do bom relacionamento com os indianos, que foi estabelecido pelo menos desde a administração George W. Bush.

"Caso o governo Trump desse algum tipo de apoio aos seus aliados e não focasse tanto no 'America First' (América Primeiro), que vem se tornando cada vez mais 'America Alone' (América Sozinha), os EUA seriam capazes de construir um arco bastante forte de alianças não somente com a Índia, mas com outros países europeus e asiáticos. Eleito, o Biden deverá resgatar estas alianças e mudar o cenário estratégico neste sentido", prevê o professor.

Apesar de toda a animosidade e demonstrações de força, Poggio acredita que a probabilidade deste conflito escalar para uma guerra aberta é reduzida.

"São duas potências nucleares e que têm alguma cautela. Por exemplo, até o (Josef) Stalin, apesar de ser um ditador sanguinário, claramente demonstrou certa cautela nesta seara. Olhando para a História, é pouco provável que a crise escale ao ponto de uma guerra aberta."

"Dito isso, nada impede que alguns conflitos pontuais e regionais aconteçam. Existem agora muitas zonas de atrito e os estadunidenses enviaram navios de guerra para o mar do sul da China, o que pode levar a uma confrontação. Contudo, guerra aberta entre esses dois países me parece bastante improvável. A própria Guerra Fria se deu por meio de conflitos laterais, na periferia do sistema", acrescenta Poggio.

No que tange à capacidade militar (considerando coalizões etc.) de cada país na disputa pelo mar do sul da China, ele explica que os chineses vêm investindo há muitos anos, inclusive, construindo porta-aviões, que denotam projeção de poder na estratégia bélica.

"Porém, a questão do mar do sul da China não é somente militar, mas também política, no sentido de que falta aos chineses um arco robusto de alianças para atuarem no local. Os EUA, por exemplo, antes de ascenderem como potência global, buscaram se consolidar em sua própria área, com a Doutrina Monroe (século XIX), a própria Organização dos Estados Americanos (OEA) etc.", relembra o professor.

"Já os chineses possuem muitos adversários em suas vizinhanças, não somente no mar do sul da China, mas na grande região asiática mais ampla, como a Malásia e a Indonésia, além da Austrália, do Japão e a Coréia do Sul. Há poucos aliados dos chineses nesta área", complementa.

Por fim, o acadêmico reforça que "a administração Bolsonaro cometeu um erro estratégico basilar das Relações Internacionais: o Brasil fez a escolha estratégica de apoiar não um país (EUA), mas um governo (Trump), inclusive criando atrito com outras forças políticas dentro dos Estados Unidos. Isso causa uma série de problemas e riscos. Essa aproximação se deu ao custo de perdermos muitos outros aliados tradicionais, ofendendo chineses, franceses, alemães, chilenos, argentinos. Ou seja, basicamente o mundo todo, exceto pelo Donald Trump".

"Claramente, os democratas (estadunidenses) também têm uma visão bastante negativa sobre a gestão Bolsonaro, basta ver a carta que alguns deputados democratas apresentaram ao comitê do Congresso dos Estados Unidos. Então, eu não estou sequer questionando a aproximação do Brasil com os EUA, mas a forma como esse processo foi conduzido: amadora, pedestre, de quem não entende o que está acontecendo no sistema internacional", avalia o doutor em Relações Internacionais.

"No fundo, obtivemos quase nada de concreto (da gestão Trump) e, ainda assim, são vantagens que deverão durar pouco. (…) Essa é uma disputa política entre as duas maiores potências da Terra (e parceiros comerciais do Brasil) não somente nos próximos meses, mas talvez anos e décadas. Assim, não podemos nos posicionar de forma circunstancial a depender de quem está ocupando o poder nos Estados Unidos, porque isso nos coloca refém das escolhas dos estadunidenses. Precisamos ser muito mais estratégicos e cuidadosos com esta questão", conclui Poggio.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).


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