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Entendendo Bolsonaro

Trump delimita diferença entre um populista e um fascista

Entendendo Bolsonaro

06/11/2020 11h41

À diferença de populistas clássicos, o elo entre Trump e seu séquito é pessoal e baseado em valores, não em ganhos materiais. Como um fascista, ele está disposto a subverter a democracia e fazer o que for necessário para se manter no poder (Crédito: Reprodução).

* Bruno Frederico Müller

Duas vezes Donald Trump foi à frente das câmeras durante a apuração das eleições presidenciais. A primeira, para declarar uma vitória prematura e sem base nos dados, bravateando que sua vantagem de 600 mil votos na Pensilvânia, além de outros estados, como Wisconsin, Michigan e Georgia, estava além do alcance do adversário Joe Biden, lançando, também, acusações de fraude nos votos antecipados (presencialmente ou por correio), que existem há décadas nos Estados Unidos e têm comprovada confiabilidade. Por vinte e quatro horas, retraiu-se para o Twitter, onde postou freneticamente, demandando a interrupção da contagem de votos – um dos pilares intocáveis da democracia.

Sua segunda declaração foi mais infame e insidiosa contra a (incompleta) democracia americana. Foi basicamente uma enxurrada de acusações sem provas de fraude, de inacessibilidade dos fiscais aos postos de contagem de votos, de votos por correio magicamente aparecendo do nada. Chamou Detroit e Filadélfia, duas grandes cidades, bastiões democratas, e com alguns dos maiores percentuais de população negra dos Estados Unidos, de "as duas cidades mais corruptas do país". Urgiu a interrupção da contagem na Georgia e Pensilvânia, contestou os resultados em Michigan e, sem qualquer preocupação com a coerência, defendeu a continuidade da contagem de votos no Arizona, onde a vantagem de Biden caía a cada atualização.

O efeito foi imediato. Pessoas armadas foram protestar num posto de contagem de votos em Phoenix, Arizona. A polícia foi chamada para conter a multidão e selar o prédio, para a segurança dos voluntários e dos fiscais. Em Detroit, trumpistas se aglomeraram em frente a um posto gritando "Parem a contagem!". A rede de tv CNN relatou um plano para atacar um posto em Pittsburgh, Pensilvânia, debelado pela polícia. Trump, como fez ao longo de toda a sua presidência, incitou seus seguidores para testar o limite das instituições.

Não é novidade para ninguém. Ainda em 2016, o então candidato republicano disse que, se perdesse a eleição para Hillary Clinton, não aceitaria o resultado. Ele venceu no Colégio Eleitoral, mas insistiu que a derrota no voto popular foi resultado de fraude. Em 2020, passou meses dizendo que os democratas planejavam roubar a eleição via voto pelo correio, e perguntado sistematicamente se aceitaria o resultado, caso perdesse, ele sistematicamente se negou a se comprometer com uma transição pacífica de poder.

Esse é um padrão idêntico à atitude de Jair Bolsonaro em relação às eleições: mesmo na vitória, acusa os adversários de fraude. E, perante o risco da derrota, incita os seguidores e lhes dá sinais velados de mobilizar-se e agir de modo violento. Tudo embalado num discurso paradoxal e hipócrita de defesa da lisura do processo, da soberania popular e da democracia.

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A primeira lição a tomar disso é algo para o que já chamei atenção: não subestimar as palavras de candidatos a autocratas. Suas ameaças são reais. E os efeitos, potencialmente catastróficos. Nesses quatro anos todos, muitos republicanos e até democratas descartaram os tweets agressivos e ameaças de Trump como bravatas ou impulsividade. No debate entre candidatos a vice-presidente, o vice republicano Mike Pence, perguntado sobre esse ponto da transição, minimizou: "o presidente fala o pensa, e é isso que o faz ser tão querido por milhões de americanos".

A segunda lição é outra para a qual também já chamei a atenção: a importância do rigor conceitual. Por quatro anos, Trump, mais do que seus colegas de extrema direita, tem sido reduzido a um "populista". Mas não há nada de populista no seu pensamento ou na sua conduta, embora sua campanha de 2016 tenha sido, em parte, baseada em discurso populista. Aquilo, contudo, revelou-se um mero estratagema para chegar à Casa Branca. É um grande erro conceitual chamar Trump e seus seguidores de populistas.

Populistas vêm em todas as formas e colorações: de Vargas a Perón, de Brizola a Lula, chegando a Hugo Chávez. Eles podem ser de direita ou de esquerda, podem ser abertamente autoritários e governar como ditadores, ou podem se acomodar à democracia, embora se valendo de retórica antidemocrática de tempos em tempos, atacando a imprensa, atacando os adversários e usando retórica divisiva do tipo "nós" (os bons) contra "eles" (os maus).

Populistas se alimentam de sua relação direta com as massas, às vezes dispensando abertamente a intermediação da imprensa e das instituições, às vezes mantendo uma relação ambígua com elas, no contexto democrático. Mas o ponto distintivo dos populistas é em que base se dá a relação deles com as massas: ela se dá a partir de concessões em termos de direitos ou políticas assistenciais.

O ponto é: não é assim que Trump, ou Bolsonaro, governa. Foi a retórica populista de Trump que alienou alguns típicos republicanos, como Paul Ryan, Ted Cruz e outros típicos conservadores de direita e neoliberais. Na medida em que a atitude de Trump no governo se mostrou igual à de qualquer outro republicano: corte de impostos para os ricos, tentativas de repelir o plano de seguro de saúde de Barack Obama, mantendo a máquina de guerra no Oriente Médio, etc., o presidente americano aos poucos não só conquistou mais e mais aliados no Partido Republicano, mas se tornou seu grande líder, porque deu ao partido algo que ele não tinha: uma base social acirrada, construída por meio de ataques incessantes e desleais à imprensa, e aos adversários, teorias da conspiração e mentira sobre mentira.

Isso responde algumas perguntas que, surpreendentemente, os analistas ainda fazem, nos dois casos, de Trump e Bolsonaro:

Por que eles rejeitam a ciência e as medidas sanitárias contra o coronavírus? Não seria mais inteligente tomar as medidas adequadas e aparecer perante o povo como salvadores de vidas?

Por que antagonizam a imprensa e a oposição? Um governo menos belicoso não teria mais chances de transcorrer com tranquilidade e aprovar projetos importantes?

Por que espalham mentiras e teorias da conspiração que minam sua legitimidade?

Por que atacam a lisura das eleições que os levou ao poder?

A pergunta é dirigida ao público errado. A resposta é que assim eles agem por dois motivos: porque para eles é mais importante manter sua base mobilizada mesmo perdendo apoio entre uma maioria, uma vez que é com essa base que eles contam para se manter no poder; o segundo motivo é estratégico: sem meses e meses marretando que as eleições seriam fraudadas, Trump não teria agora um plano B para roubar uma eleição que, perante a crise do coronavírus, mesmo se bem manejada, traria queda na economia que dificultaria sua reeleição.

O plano B é judicializar a eleição, apelar a todos os tribunais até a Suprema Corte, anular tantos votos quanto possível e permitir que estados-chave que decidirem a eleição para Joe Biden tenham eleitores indicados por representantes estaduais republicanos. Roubar uma eleição alegando fraude.

Trump e Bolsonaro não podem ser moderados porque eles chegaram ao poder e pretendem nele se manter sendo "agentes do caos". Seu objetivo (consciente ou intuitivo) é minar a democracia.

Já escrevi sobre o tópico em detalhe, por isso vou aqui apenas pontuar rapidamente com que tipo de sujeito político estamos lidando: Trump tem uma retórica autoritária e personalista; ele chegou ao limite de, num comício, diante do tradicional grito da multidão em apoio a presidentes perseguindo reeleição de "mais quatro anos", acrescentar: "e mais 8, e mais 12". O que a Constituição dos EUA expressamente proíbe.

Ele não trata a imprensa e a oposição como interlocutores ou adversários legítimos, mas inimigos, contra os quais ele ameaça processos judiciais e prisão simplesmente por fazer perguntas incômodas ou cumprir seu papel de fiscal do poder. Ele se alimenta de uma multidão que não é grata por ganhos materiais, mais movida por valores morais, e está disposta a mobilizar-se e agir violentamente para defender esses valores e seu líder. Leslie Stahl, uma jornalista respeitada de 78 anos, que no programa "60 minutes" fez as perguntas que se faz a um presidente candidato à reeleição – entrevista que Trump abandonou – recebeu ameaças de morte e agora anda com seguranças. Trump é um neofascista.

Neofascistas lidam com um mundo diferente dos fascistas clássicos, e por isso precisam se adaptar. Parte das suas milícias operam no mundo virtual, e essa operação é menos violenta mas não menos eficaz (talvez seja mais). Neofascistas precisam lidar com democracias mais consolidadas e, por isso, seu trabalho de destruição à democracia é mais difícil e demorado – e essa é a esperança de nós, democratas.

Mas há muitas coisas que não mudam entre neofascistas e fascistas: eles mentem mais que os políticos tradicionais, porque para eles a mentira não é um meio de sair de uma situação embaraçosa ou avançar uma agenda em particular, é sua estratégia básica de comunicação e propaganda; eles encapsulam sua mensagem política sob um verniz de patriotismo e nacionalismo; eles se colocam como líderes de massas, que são convocadas a defender a "pátria" (na verdade, o líder) até o fim, e por todos os meios disponíveis, até a violência, se necessário.

Os Estados Unidos (e o Brasil, claro) tiveram governantes autoritários. Richard Nixon espionou os adversários, reprimiu com violência movimentos de esquerda como os Panteras Negras, e declarou em famosa entrevista que o presidente pode tomar atitudes ilegais porque, quando quem o faz é o presidente, não é ilegal. George W. Bush se valeu dos atentados de 11 de Setembro de 2001 para lançar duas guerras de larga escala que desestabilizaram o Oriente Médio até o presente, enquanto aumentou a vigilância sobre a população americana e atacou as liberdades civis de seus concidadãos com a Lei Patriota. Mas eles não eram fascistas. Pressionado por um processo de impeachment, Nixon renunciou. Já Bush, passados seus oito anos na presidência, transferiu o poder, sem atrito, para um adversário democrata.

A diferença entre os políticos autoritários desse tipo é que eles distorcem e deturpam a democracia, mas não a atacam diretamente. Claro, podem enfraquecê-la a ponto de abrir caminho para autoritários clássicos, com aspirações autocráticas.

Trump não é esse tipo de autoritário. Além de disposto a subverter a democracia e fazer o que for necessário para se manter no poder, ele conta com uma massa de apoiadores que o seguem fanaticamente e que estão dispostos a agir com violência para defender seu líder. À diferença de um populista clássico, o elo entre Trump e seu séquito é pessoal e baseado em valores, não em ganhos materiais. Isso é neofascismo e, como já disse, chamar as coisas pelo seu devido nome é crítico para entender contra o que nos defrontamos, e a solução para o problema.

Em conclusão, é fundamental desenhar a estratégia agora para assegurar uma transição de poder tão pacífica quanto possível: primeiro, pressão dos democratas e da esquerda será fundamental, não se deixando intimidar pelos trumpistas, para defender o processo eleitoral e a vitória iminente de Joe Biden. Mas, sobretudo, a independência dos tribunais deve prevalecer, e os correligionários de Trump precisam decidir o que prezam mais: o poder a qualquer custo, ou a democracia.

Quem conhece os republicanos pode achar fácil a resposta, que eles cerrarão suas fileiras em torno de Trump. Mas alguns políticos conservadores já sinalizaram que não seguirão Trump até o ponto da ruptura com a democracia. Seja por princípio, seja por saber qual será o custo político disso no futuro, esperamos que esta seja a posição prevalente no Partido Republicano. É fundamental isolar e cercar Donald Trump por todos os flancos. É a única forma de a democracia americana sobreviver.

* Bruno Frederico Müller é doutor em História pela UERJ, escritor e tradutor.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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