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"Lula livre" na Argentina serve ao bolsonarismo e sua gramática da guerra

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28/10/2019 23h42

O então candidato à presidência argentina Alberto Fernández faz gesto de "Lula livre" enquanto aguarda apuração do pleito que lhe garantiria vitória nas eleições de domingo (Crédito: Reprodução)

*Rafael Burgos

As eleições argentinas do último domingo (27) chancelaram o retorno ao poder da esquerda kirchnerista, representada pela chapa de Alberto Fernández, presidente eleito, e Cristina Kirchner, ex-presidente que retornará ao poder, agora como vice.

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No país vizinho, que vive enorme crise econômica e social, a transição de governo se iniciou da maneira mais civilizada possível, com o atual presidente Maurício Macri, de centro-direita, posando para foto ao lado do esquerdista Fernández, após convidá-lo para um café da manhã.

É sinal de um país ainda imune ao ar dos tempos, ou, em outras palavras, de nação que, mesmo em profunda crise, resiste à degradação institucional.

Embora de situação econômica muito menos dramática que a Argentina, não se pode, infelizmente, observar a mesma resistência em território brasileiro. O presidente Jair Bolsonaro lamentou o resultado das eleições no país vizinho e se recusou a cumprimentar o presidente eleito, a quem já havia chamado de "bandido de esquerda".

Foi neste ambiente que, por aqui, ganhou ares de inusitado alarme uma declaração de Fernández no dia do pleito. O domingo era, também, aniversário do ex-presidente Lula, assim, o então candidato não perdeu a oportunidade de aderir publicamente ao "Lula livre", se aproveitando da boa imagem que o petista ainda preserva no continente.

Foi gesto suficiente para mobilizar o bolsonarismo, que, como de hábito, deixou de lado o bom senso para ganhar de presente a verossimilhança.

Em viagem ao Oriente Médio, Bolsonaro chamou de "afronto [sic] à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro" o gesto de solidariedade de Fernández ao ex-presidente Lula.

No Twitter, o chanceler Ernesto Araújo aproveitou para lembrar os argentinos, desavisados, de que será sempre possível trilhar o caminho da incivilidade e fazer das relações entre países vizinhos um eterno campo de disputa entre o "bem" e o "mal".

A linguagem de cunho maniqueísta, própria à religião, expressa a contaminação da política pela gramática da guerra, algo que muito serve ao bolsonarismo e suas pretensões de uso arbitrário da máquina do Estado.

Na obra "Nervous States – Democracy and the Decline of Reason" ("Estados Nervosos – Democracia e o Declínio da Razão", em tradução livre), publicada neste ano, o sociólogo William Davies examina um novo contexto global de crescente predomínio dos instintos sobre as mediações institucionais que caracterizam, ou caracterizavam, as democracias liberais.

Um mundo que privilegiava a lógica e os fatos estaria dando lugar a outro dirigido por emoções como o medo e a ansiedade, que transcendem o âmbito privado para compor uma esfera pública acelerada e que nos convida a decisões imediatas, garantindo à democracia um aspecto de combate.

Em artigo para o jornal New York Times, Davies chama atenção para a presença crescente das metáforas de guerra no discurso político contemporâneo:

Uma maneira de entender os levantes da década passada, manifestados no populismo político e no aumento das conversas sobre "pós-verdade" e "notícias falsas", é como fruto da penetração da mobilização e da propaganda bélica em nossas democracias

William Davies, sociólogo britânico 

Há um padrão na retórica da extrema direita que hoje disputa o poder por vias democráticas em variados países do globo, e este é o de apelar a caricaturas para descrever o adversário enquanto um radical extremista.

E, nessa disputa pela validade de caricaturas, seria difícil imaginar um cenário mais propenso ao discurso bélico do bolsonarismo do que a volta do velho kirchnerismo ao poder do outro lado da fronteira, com uma pitada de "Lula livre" para atiçar os ânimos da base.

Na tarde desta segunda, o ex-astrólogo e youtuber Olavo de Carvalho, ideólogo do governo, publicou breve vídeo para falar do Foro de São Paulo, acusando o ex-presidente Lula de roubar para "salvar da destruição o movimento político mais homicida, mais monstruoso, mais inumano que a humanidade já conheceu".

É esta mesma ideia do Foro que fundamenta a hostilidade de Bolsonaro ao kirchnerismo, temente de novas ações para a formação de uma "grande pátria bolivariana", em suas palavras.

Em conversa com o blog, o diplomata Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Europa e ex-ministro da Fazenda (1994) e do Meio Ambiente (1993-1994), demonstrou preocupação com o cenário entre os dois países, ressaltando que "a relação com a Argentina é seguramente uma das mais importantes do Brasil".

Ricupero disse ainda que, no atrito com o país vizinho, é o Brasil que tem mais a perder:

"A maior parte da exportação brasileira de manufaturados, justamente os de maior valor agregado, se destinam ao mercado argentino. No caso dos automóveis, a porcentagem supera os 60%. Salvo raros períodos, o Brasil tem sempre mantido saldo superavitário no comércio com a Argentina, por isso mesmo tem mais a perder do que o país, que apresenta déficit", destacou.

Ainda assim, não parece haver interesse nacional capaz de frear a disposição do bolsonarismo para se aproveitar da eleição de Fernández, um presente que o destino lhe oferece enquanto caricatura, como oportunidade para investir na paranoia e no isolamento internacional pretendido por sua diplomacia.

A força do discurso junto à sua base será sempre tanto maior quanto mais verossímil for o cenário que pinta ameaças desestabilizadoras. É de "Lula livre" que precisa o bolsonarismo para alimentar a sua gramática da guerra e para validar os memes catastrofistas que pintam, com sinal trocado, aquilo que mais se deseja ao país: caos para prosperar.

*Rafael Burgos é jornalista, autor do TCC "Donald Trump: a redenção pelo regresso".

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