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Entendendo Bolsonaro

Lula-Ciro à parte, obstáculos à frente ampla ainda são grandes

Entendendo Bolsonaro

29/10/2020 23h40

A eventual reaproximação de Lula e Ciro, atualmente os dois maiores nomes da esquerda a nível nacional, é apenas um pequeno passo de um caminho tortuoso para enfrentar o bolsonarismo em 2022. (Crédito: Reprodução)

* Igor Tadeu Camilo Rocha 

Numa ironia do destino, após conselho do famoso marqueteiro João Santana, em entrevista ao Roda Viva, a semana terminará com a notícia de que Lula e Ciro Gomes, depois de uma ruptura em 2018 que foi seguida de constantes trocas de farpas, acertaram uma trégua.

Não que seja possível fazer relação direta entre a fala de Santana e a reunião do ex-presidente com o ex-governador do Ceará, afinal, o encontro aconteceu em agosto. Contudo, cabe ressaltar a fala do presidente do PDT, Carlos Lupi. Em entrevista à Veja, Lupi avaliou que a opinião do marqueteiro – em favor de uma chapa Ciro-Lula para 2022 – poderia "mexer o tabuleiro" da disputa política.

Uma chapa encabeçada por Ciro Gomes com Lula de vice seria "imbatível", como disse Santana? A meu ver, tal previsão é bastante difícil de ser feita. Contudo, é possível pensar alguns rumos da oposição, recorrentemente discutidos e que agora podem ganhar novo fôlego. A pergunta central é sobre se isso indica ser factível a tão sonhada por muitos "frente de esquerda".

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Um ponto que merece atenção é sobre o quanto e como essa trégua repercutirá entre militâncias petistas e aquelas que de 2018 para cá têm sido comumente chamadas de ciristas, mas que cobrem um espectro mais heterogêneo de uma oposição ao bolsonarismo que, ao mesmo tempo, rejeita o PT. Acrescentarei no meu texto uma breve consideração sobre grupos à esquerda de ambos.

Dito isso, primeiramente lembro, e não é novidade a ninguém que acompanha esse debate, ser bastante comum a repetição entre militâncias cirista e petista das acusações mútuas dos dois líderes: trocam-se acusações de personalismo ou quanto a alianças e aproximações de PT e PDT com grupos, interesses e partidos à direita ou atrelados aos vícios fisiológicos mais arcaicos da história republicana do Brasil. Isso é algo no qual, convenhamos, ambos têm alguma razão, ainda que por questões distintas, questão essa que não cabe aprofundar nessa análise.

Soma-se a isso questões referentes às suas identidades políticas, tradições e projetos, que em parte são conciliáveis, mas, em expressiva parte, não. Contudo, politicamente, uma trégua entre lados políticos antagônicos contra um alvo identificado como um mal maior é perfeitamente possível, em que pese a precariedade em mantê-lo depois do dito inimigo ser vencido. Isso, de fato, não parece ser a questão posta nessa trégua.

Há um arcabouço enorme, em termos históricos, de alianças entre grupos antagônicos contra inimigos em comum. A história do século XX mostra isso com clareza. Menciono aqui, por exemplo, a mobilização de intelectuais comunistas, anarquistas e liberais, feita no contexto da guerra civil espanhola (1936-39), contra o fascismo, analisada em recente dissertação defendida pelo historiador Douglas de Freitas Pereira.

Há vários outros exemplos históricos envolvendo grupos cujas diferenças são muito mais profundas que quaisquer que possam existir entre PT e PDT. Inclusive, os mesmos partidos já estiveram juntos em eleições presidenciais, em 1998, quando Lula saiu tendo Leonel Brizola como vice, tentando impedir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Mas aqui, parafraseando Lupi, o tabuleiro político de 2020 é outro, com agentes diferentes e outros interesses em disputa. Pensando na oposição de esquerda ao atual governo, podemos pensar em pelo menos três grupos diferentes que compõem essem campo.

Penso, primeiramente, no próprio PDT e a ideia, fomentada desde que saíram os resultados da eleição em 2018, de se formar uma frente de esquerda antibolsonarista que excluísse dela o PT. Além da própria ruptura de fato entre os partidos e lideranças, existe um cálculo político do PDT e de partidos próximos que leva em consideração que o antipetismo foi fator decisivo ao avanço da extrema direita e que, em grande medida, o antipetismo foi produzido pelos erros do próprio PT enquanto governo.

Outro grupo é formado, obviamente, pelo PT e partidos próximos a ele. Sendo, hoje, oposição sistemática ao bolsonarismo, o PT historicamente ocupa um espaço de protagonismo na esquerda brasileira. Além de vencer quatro eleições presidenciais, conquista vitórias eleitorais importantes desde os anos 1980 e 90 e, hoje, reivindica sua posição como principal força de resistência ao atual governo.

Mais que isso, o PT sustenta a narrativa de que o próprio bolsonarismo é um produto de projetos mais profundos das elites políticas e econômicas do Brasil, de natureza neoliberal, autoritária e golpista, materializado no lavajatismo, no golpe parlamentar de 2016 e na própria criminalização do partido, das esquerdas, e dos movimentos políticos de origem popular.

Orbitando esses partidos, poderíamos ver Rede e PSB mais próximos de PDT, além de PC do B mais próximo do PT, dentre outros. Mas quando observamos partidos como o PSOL – muitos de seus setores e quadros, no caso – além de muitos outros partidos, grupos ou quadros sem representação parlamentar, mas com atuação no debate político e nos movimentos sociais diversos, notamos que existe uma outra agenda de oposição à esquerda. Neste caso, à esquerda tanto do bolsonarismo, por óbvio, mas também dessas frentes de esquerda em torno de PT e PDT.

Simplificando bastante as linhas gerais desses grupos à esquerda de PT e PDT, o bolsonarismo, para eles, seria algo mais próximo de um projeto de sociedade brasileira que é podre na sua gênese, e como tal deve ser destruído pelo avanço civilizatório do próprio país. Nessa perspectiva, um país de herança escravista e com bases oligárquicas como o nosso, teve, quando muito, lampejos de modernidade com os projetos encabeçados pelas tradições políticas das quais PT e PDT advém. Nessa linha, o bolsonarismo seria nada mais do que produto das insuficiências e contradições de um projeto de sociedade, e vencê-lo sem processos mais profundos que PT ou PDT pretendem levar à frente seria nada mais que vitória de Pirro.

Considerando a heterogeneidade desses grupos, pergunto novamente se podemos pensar numa frente de esquerda viável antibolsonarista. Como disse, um exame histórico diz que sim, até porque é relativamente simples se unir em torno do negativo, ainda que o depois de uma hipotética vitória vinda dessa frente configure outro problema. Dizendo de outra maneira, a rejeição a algo, em termos políticos, tem o poder de atuar como fator de coesão, ainda que precário e com duração que só deverá ir até aquilo rejeitado ser derrotado.

Nesse sentido, para formar uma frente com grupos de campos distintos e antagônicos da esquerda contra o atual governo e estado das coisas, ainda que sob agendas e perspectivas completamente diferentes e pouco ou nada conciliáveis, vejo alguns pontos que precisem ser levados em consideração.

No caso da ideia de uma frente sem o PT e encabeçada pelo PDT, como já analisei neste espaço, é preciso entender que essa frente nunca crescerá sob o antipetismo. Como disse aqui, dialogando com trabalho do professor Rodrigo Patto de Sá Mota, o antipetismo é uma construção que atiça sensibilidades políticas à direita. Isso porque, nas suas linhas gerais (conservadorismo, liberalismo, cristianismo nas vertentes mais reacionárias, nacionalismo), o antipetismo apenas reformula um vocabulário político, segundo elementos contemporâneos, argumentos cujas raízes estão nas tradições profundas das direitas brasileiras.

No caso do PT, reitero aqui uma crítica que repercutiu bastante nas lideranças e militâncias petistas no último mês, feita pelo sociólogo Rudá Ricci, sobre o envelhecimento de sua militância, bases e lideranças. O partido deve renovar seus quadros, absorver críticas e olhar para frente, e não para um mundo existente entre 2003 e 2015, sendo isso fundamental para retirar o PT de um imobilismo que tem levado o partido a se converter de referência às esquerdas latino-americanas a mais um partido tradicional, burocratizado, engessado e excessivamente preso às estruturas institucionais, de atuação no Estado.

A essa outra esquerda, à esquerda dessa possível frente PT-PDT, pode ser que muitos de seus quadros ou mesmo partidos possam ser parte dessa grande frente, mas é mais provável que a maior parte dos mesmos não se sintam contemplados por ela. A reação mais esperada a esses grupos, creio, deva ser acusações de sectarismo ou purismo ideológico, o que considero também um problema.

A importância desses partidos a essa ideia de frente de esquerda é substantiva, sobretudo quando observamos que muito da "autocrítica" de hoje exigida a partidos como PT e PDT foram, exatamente, o que levaram a esquerda dita "sectária" a se separar desses partidos algumas décadas atrás. A importância desses grupos para uma oxigenação do campo da esquerda, nesse sentido, deve ser reconhecida, ainda que, de fato, parte deles incorra com frequência em sectarismos bastante problemáticos.

Concluindo, há diversos pontos em aberto, e acredito que a maior parte deles envolva processos complexos o bastante para sequer estarem próximos de serem resolvidos até 2022. Contudo, isso não impede que dentro do campo da esquerda se construa um quadro competitivo até lá. Ele pode ser Ciro Gomes mais Lula de vice, ou algum outro arranjo – plausível, sobretudo se o último estiver inelegível até lá.

Sem dúvidas, a possibilidade dessa frente aumenta quando as maiores lideranças que conquistam votos desse campo anunciam uma trégua, ainda que sob bases aparentemente frágeis. Digo aparentemente porque ainda faltam detalhes para qualquer avaliação mais profunda do que for acontecer. Por isso, há desafios profundos a serem enfrentados pelos agentes à esquerda, junto às suas militâncias e liderança, sobretudo tendo-se em vista que os problemas para as esquerdas no Brasil não acabam no bolsonarismo. A formação de uma frente ampla não será uma solução em si mesma.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

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