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Entendendo Bolsonaro

Na base do 'vai que cola', Bolsonaro começa 2021 à frente de adversários

Entendendo Bolsonaro

04/01/2021 00h26

O presidente Jair Bolsonaro. Mesmo que para tanto precise de 'saliva e pólvora', ele tem tudo para começar 2021 em céu de brigadeiro, enquanto assiste às promessas fracassadas de adversários como o governador de São Paulo, João Doria. (Crédito: José Cruz/Agência Brasil)

Vinícius Rodrigues Vieira

Do alto de suas atitudes negacionistas em relação à pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) correu o risco de terminar 2020 com um pé fora do poder. Um golpe do destino, porém, deve fazer de 2021 um ano melhor para o (des)governo que ele lidera. Isso porque a vacina do consórcio formado pela Universidade de Oxford e a AstraZeneca obteve nos últimos dias do ano passado autorização emergencial para ser aplicada no Reino Unido e na Índia.

O imunizante é até agora a única aposta do governo federal para proteger a população da pandemia e vai ser fabricado no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que já conseguiu, junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aprovação para importar 2 milhões de doses da vacina. A expectativa é de que a permissão para o uso emergencial seja solicitada até o dia 15 de janeiro.

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Enquanto isso, o principal adversário de Bolsonaro na política nacional, o governador João Doria (PSDB-SP), enfrentou uma série de reveses, a começar pelo adiamento da publicação dos resultados dos testes com a Coronavac, de origem chinesa, já em produção no Brasil pelo Instituto Butantan, mantido pelo Estado de São Paulo. O Butantan agora promete publicar os dados dos testes da vacina em 7 de janeiro, o que torna pouco plausível a manutenção de 25 de janeiro como data inicial para sua aplicação.

Já a Oxford-AstraZeneca pode ser aplicada a partir de 20 de janeiro, cenário bastante lógico haja vista que Bolsonaro aparelhou a Anvisa com militares e quer sair na frente na campanha de imunização. Assim, ele poderá argumentar que estava certo ao ter escolhido jogar todas as fichas numa vacina liderada por um consórcio europeu em vez da "vachina" — alcunha preconceituosa que o bolsonarismo atribuiu à Coronavac.

O presidente já começou o ano nos braços do povo. Em que pese o absurdo epidemiológico de, em meio a uma pandemia, ele ter se jogado ao mar em Praia Grande (SP) e provocado uma aglomeração, precisamos reconhecer que a acolhida do povo em meio aos gritos de "mito" indica uma resistência política que surpreende até mesmo os analistas mais simpáticos ao atual governo.

Para arrematar, Bolsonaro ainda foi amplamente seguido pelos banhistas ao entoar um canto nada lisonjeiro a Doria. Imagino o desespero dos que buscam uma alternativa a Bolsonaro e ao PT em 2022 ao ver tais imagens. Longe de retratar uma elite branca insensível, os eventos do litoral paulista indicam que o povo — inclusive pretos e pardos — hoje vê no presidente o que há de menos pior no mercado político. Assim, se o Brasil terminou 2020 com uma tempestade perfeita, Bolsonaro tem tudo para iniciar o ano em céu de brigadeiro, mesmo que para tanto precise de saliva e pólvora, como escrito neste blog por Rodrigo Ratier.

Neutralizando Doria — já desgastado por ter imposto medidas restritivas aos paulistas para depois embarcar rumo a férias em Miami –, Bolsonaro complica o jogo de seus opositores para 2022. O governador de São Paulo já vinha em articulações avançadas para cacifar seu nome à sucessão presidencial enquanto fazia propaganda da Coronavac, numa tentativa legítima de preencher o vazio deixado por Bolsonaro, que começou a preocupar-se com a vacinação apenas após a ofensiva do adversário.

Com o governo federal na dianteira da imunização, Doria perde a oportunidade de projetar seu nome nacionalmente. Ademais, Bolsonaro passa a ter condições de desenvolver uma narrativa para demonstrar que tinha razão, ecoando, assim, a mística do líder populista que, supostamente iluminado por Deus, guia o povo em meio às trevas contra tudo e todos, podendo, portanto, superar o fato de seu governo ser, na definição ímpar de Igor Nefer, um caso único em que incompetência e fanatismo se encontraram tal e qual a fome e a vontade de comer.

A incompetência do governo federal em assegurar o fornecimento de seringas e agulhas, necessárias para aplicar qualquer vacina, não deve cair no colo de Bolsonaro. Afinal, há municípios e Estados, como Minas Gerais, que já se adiantaram e adquiriram tais insumos, estando, assim, prontos para aplicar imunizantes uma vez que eles sejam disponibilizados por Brasília.

Portanto, tal como ocorreu com o auxílio emergencial — cujo valor de R$ 600 mensais foi conquistado no Congresso –, Bolsonaro ficará com o bônus de uma eventual campanha de vacinação com base no imunizante da Oxford-AstraZeneca. O presidente deve se vangloriar de sua covardia travestida de cautela enquanto ri da ineficiência de Doria, que muito prometeu e nada de consistente entregou até agora.

Essa narrativa potencial encontrará forte eco entre a parcela da população que se esbalda em festas de fim de ano sem máscaras e em aglomerações pornográficas para um contexto de pandemia. Conforme descrito acima, Bolsonaro foi recebido efusivamente por populares durante sua estada no litoral paulista nesta virada de ano. Não importam os mortos ou a saúde alheia, devem pensar os participantes de tais eventos. "Vida que segue", como diria o colunista do UOL Ricardo Kotscho, em outro contexto, ao concluir seus artigos com lógico pessimismo.

Por falar em aforismos populares, cabe ressaltar que Bolsonaro governa com base no "vai que cola" — expressão que traduz o amadorismo que, longe de ser exclusividade do populismo de direita, domina a política brasileira. Ao citar um calendário de vacinação irrealista e ir para Miami imaginando que tal ato não lhe traria custos políticos, Doria se valeu da mesma estratégia.

A diferença é que, por sorte, Bolsonaro foi beneficiado com outra máxima corrente na Terra Brasilis: "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" É nisso que os apoiadores do presidente acreditam. Difícil entender os desígnios do Todo-Poderoso, mas, no momento, os ventos sopram a favor de um presidente que fez (e faz) pouco caso da vida, que segue em 2021 com um gosto amargo de impotência diante do absurdo alheio que ceifa a nação e o que resta de nós.

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na pós-graduação da FGV


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco

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