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Entendendo Bolsonaro

Lilia Schwarcz: "O Brasil sempre evitou falar da morte"

Entendendo Bolsonaro

20/11/2020 09h14

A antropóloga Lilia Schwarcz. "A minha maior preocupação não é com o que o Bolsonaro pense e diga, mas com o que ele avaliza" (Foto: Veja).

* Cesar Calejon 

Com o seu novo livro, intitulado "A bailarina da morte: A gripe espanhola no Brasil", lançado no mês passado pela Companhia das Letras, em parceria com a historiadora Heloisa Starling, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz organiza um contundente retrato do Brasil durante a pandemia causada pela gripe espanhola e investiga a doença mortal que há um século assombrou a humanidade, evidenciando trágicas semelhanças e diferenças com a covid-19 e com a gestão bolsonarista no Brasil de 2020.

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Em entrevista ao blog essa semana, Schwarcz ressaltou como os legados coloniais e imperiais do Brasil auxiliaram a ascensão do bolsonarismo em 2018.

"A minha convicção é a de que Jair Bolsonaro é um sintoma. Ele não é a causa. Essas causas são muito mais profundas. (…) O Brasil sempre foi autoritário e o nosso presente está lotado de passado. Eu vou ao passado resgatar esses elementos que ainda fazem sentido na agenda contemporânea e que chegam até o Bolsonaro e à ascensão desse governo", introduz a historiadora, que leciona na Universidade de São Paulo, na Universidade de Princeton (EA) e recebeu a comenda da Ordem Nacional do Mérito Cientifico em 2010.

"Eu analiso a questão racial", prossegue ela, "que para mim é a grande contradição a ser reavaliada na sociabilidade brasileira, a questão do mandonismo e como esse parâmetro vem do Brasil colonial, quando havia muita terra e pouca população com um sistema de hierarquia forçada e naturalizada, o patrimonialismo, que é outro aspecto que eu localizo como fundamental nesse sentido, ou seja, essa mistura fácil entre as esferas pública e privada e a desigualdade social, a violência e a corrupção como os pontos centrais desse processo histórico".

Para apresentar o seu novo livro, Schwarcz cita a escritora estadunidense Susan Sontag e aponta que "uma doença só existe para a população quando ela pode ser redigida, explicada e sentida. (…) Não existiam relatos de época sobre a gripe espanhola. O que eu encontrei foi uma troca de cartas, na qual o Monteiro Lobato diz ao Lima Barreto: 'Lima, tu não vai escrever sobre a espanhola?', ao que o Lima responde: 'Eu não. Eu sou mais carnavalesco'. Isso me tocou o sinal de como é difícil falar da morte. Isso era complicado em 1918 e também vale para 2020".

Enquanto antropóloga e historiadora, a acadêmica avalia que o simbolismo presidencial avançado por Jair Bolsonaro agravou a crise sanitária no Brasil em 2020 e estabelece algumas comparações metafóricas com o passado.

"Nós vivemos em um país no qual o chefe do (Poder) Executivo é incapaz de render qualquer homenagem às famílias enlutadas. Isso caracteriza uma espécie de 'sequestro da morte', assim como aconteceu na pandemia de 1918. Nós vamos pagar caro por isso. (…) Outra semelhança dessa crise com a do século passado é que as autoridades brasileiras responderam com muito negacionismo em ambos os casos. A diferença é que, no caso da gripe espanhola, as autoridades assumiram as medidas de profilaxia determinadas na época. Em 1918, nós não conhecíamos as causas, mas sabíamos os sintomas. Passado o primeiro susto, todas as autoridades, com mais ou menos agilidade, assumiram o perigo e seguiram as orientações científicas: adotaram as máscaras de forma institucional, as escolas e igrejas foram fechadas, o comércio foi fechado, teatros etc. Em São Paulo, por exemplo, o diretor do Teatro Municipal disse que não fecharia e foi obrigado a ceder, porque a principal cantora da época ficou 'espanholada', que era o termo usado para dizer que a pessoa havia sido infectada pela doença", conta Schwarcz.

Em 1918, não havia o Ministério da Saúde do Brasil, que só foi criado na década de 1930. "Hoje, nós temos esse ministério sendo liderado por um general que não é especialista na área da saúde, e um presidente (da República) absolutamente negacionista, que ataca a ciência e até o desenvolvimento da própria vacina. Isso não havia em 1918", pondera ela.

A gripe espanhola chegou ao Brasil por meio de navio e com a pecha de democrática, que atingia a todas as pessoas. Na prática, contudo, quem morreu, de fato, foram os ex-escravos que viviam na periferia das cidades, os imigrantes e a população pobre. O cenário atual mostra semelhanças contundentes.

"Em 2020, a covid-19 chegou de avião e a primeira notícia foi a de que ela seria democrática, o que novamente provou-se uma falácia, porque quem está morrendo, sobretudo, são as populações negras e das periferias mais vulneráveis nas grandes capitais do país", complementa a professora.

Ainda de acordo com ela, o pensamento da cura mágica é outro paralelo entre as duas pandemias. "Na gripe espanhola de 1918 foi muito utilizado um medicamento chamado sal de quinino, que era adotado para combater a malária. Já naquela ocasião, os médicos diziam que não era bom tomar esse remédio, porque ele causava, inclusive, problemas cardíacos. (…) O sal de quinino tem a mesma composição da cloroquina, ou seja, o presidente (Bolsonaro) tornou-se garoto propaganda de um produto advertido pela ciência desde o começo do século passado".

Nesse sentido, o jornalismo, tanto em 1918 como em 2020, teve um papel fundamental. "Em alguns estados, como no Rio Grande do Sul, tentaram maquiar os números da pandemia por conta de processos eleitorais. Foram os jornalistas que trouxeram esses dados à população", garante Schwarcz, lembrando as semelhanças com o que fez o consórcio formado pelos veículos de imprensa em 2020.

"No Brasil, em 2020, a política de combate à doença por parte do governo federal foi vergonhosa, mesmo quando comparada com o que foi feito na nação um século atrás. Eu costumo inverter a máxima do (sociólogo Émile) Durkheim, que fala sobre a eficácia simbólica do poder político. Eu digo que existe a eficácia política do poder simbólico. A minha maior preocupação não é com o que o Bolsonaro pense e diga, mas com o que ele avaliza. Ele tenta transmitir essa imagem de virilidade, dos séculos passados, montando cavalos de forma imponente mesmo demonstrando que não tem intimidade com a montaria. Existe uma foto clássica do Mussolini, no qual os assessores deles seguram o animal para o ditador pousar em cima da cela segurando a sua espada para cima, que lembra muito essa imagem do Bolsonaro. Essa linguagem bélica que ele utiliza o tempo todo, com símbolos fálicos e que usa a violência como forma de governar", lamenta a antropóloga.

Em termos de imagens do poder, os dirigentes com frequência evocam a questão da infância para se representar, porque as crianças simbolizam a continuidade e o futuro. "O Bolsonaro foi fotografado fazendo 'arminha' com as mãos das crianças. Esse é um símbolo muito forte do bolsonarismo, que visa sempre transformar adversários políticos em inimigos pessoais, principalmente por meio da disseminação de teorias conspiratórias, todas pautadas em notícias falsas e na construção de realidades paralelas. (…) A polarização potencializada pelo bolsonarismo é muito organizada ao redor de subjetividade, afeto e simbolismo. (…) A lógica da alteridade faz muito parte da base das mensagens avançadas pelo discurso bolsonarista e dos símbolos que eles alimentam a todo o momento", ressalta Schwarcz, que para concluir relembra o escritor e intelectual Mário Pedrosa.

"Ele diz que, em tempo de crise, devemos sempre ficar próximos aos artistas. Essa ideia nunca foi tão forte e pertinente como neste momento. A cultura de um povo não somente reflete certo contexto, mas também ajudar a moldar este cenário sociopolítico. (…) Em momentos de crise, as narrativas históricas ganham uma importância tremenda. Todo novo governo que ascende pretende começar do zero. Governos autoritários, sobretudo, sempre tentam se aproveitar de momentos calamitosos para tentar reescrever a história da forma mais conveniente. A narrativa histórica nunca foi tão importante quanto nesse momento, porque o governo (Bolsonaro) tem atuado, fundamentalmente, com base em dois grandes episódios fundamentais para a história presente do Brasil: a escravidão e a ditadura militar", conclui.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).


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