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Entendendo Bolsonaro

Campanha de Boulos tenta esconder suas tendências autoritárias

Entendendo Bolsonaro

23/11/2020 12h46

Existem entre os eleitores de Guilherme Boulos aqueles que alimentam o ideal da radicalidade democrática. Mas, infelizmente, eles escolheram como representante um líder e um partido que não representam esta causa (Crédito: Nadja Kouchi).

* Bruno Frederico Müller

Desde que foi oficializada a disputa do segundo turno na cidade de São Paulo, tenho sentido entre amigos, intelectuais, formadores de opinião e militantes de esquerda um clima de empolgação do qual, sinceramente, não me recordo desde a eleição presidencial de 1989: como se São Paulo (e, na esteira, o Brasil) estivesse no limiar de uma mudança genuína e radical, o começo da virada contra a extrema-direita e o neofascismo, tendo como contraponto o povo no poder e uma "revolução solidária" – mote do candidato Guilherme Boulos. Confesso que não só não compartilho desta emoção, como vejo com preocupação a ascensão do líder do MTST e a política que ele representa.

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Antes de ir direto ao ponto, gostaria de afastar algumas falácias que costumam ser plantadas, como minas terrestres, pelo caminho de quem faz perguntas incômodas, tendo em vista matar ou mutilar o debate: ao dizer que me preocupa a ascensão de Boulos, não estou personalizando o debate, como pode parecer à primeira vista; nem estou, com isso, defendendo a candidatura de Bruno Covas.

A discussão que proponho é sobre o futuro da esquerda, um tipo de discussão que se costuma tentar esmagar pelo imediatismo da conjuntura política ("mas precisamos derrotar X", "não é hora de criticar Y"). Há muito sendo dito sobre a importância da eleição municipal em São Paulo para 2022, mas a verdade é que tudo não passa de especulação: se a vitória de um ou outro vai ajudar a Bolsonaro, João Doria ou um candidato da esquerda (do eixo PT-PSOL-PCdoB, provavelmente, já que Marina Silva e Ciro Gomes têm sido deixados de fora do debate por não serem considerados "esquerda de verdade"), isso vai depender primeiro do sucesso ou fracasso da administração de um ou de outro.

Mas, sobretudo, o que haverá de preponderar em 2022 serão a saúde pública, a economia e temas políticos de alcance nacional. Então não se deve blindar a candidatura de Boulos de críticas tendo em vista a sucessão presidencial, nem se pode admitir que criticá-la signifique "fazer o jogo da direita". É, antes, tentar abrir um debate na esquerda.

Passada essa introdução, vamos direto ao ponto. Há sim eleitores "pragmáticos" que votam em Boulos porque "é o que tem pra hoje", é o que "sobrou" na esquerda ou pelo "programa de governo". Esses argumentos têm suas próprias falhas. O pragmatismo tem limites. A eleição municipal de São Paulo nem de perto se compara em gravidade e excepcionalidade com a eleição presidencial de 2018, para exigir uma ampla coalizão baseada num programa mínimo para conter um mal maior – que foi o cálculo de muitos eleitores, de esquerda e até da direita democrática, para votar em Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro.

Fora dessas situações emergenciais, o voto nulo tem sim seu papel na política e, não, não é antidemocrático. Quem insiste e se contenta eternamente com o voto útil contribui para manter o baixo nível da política – sem serem responsabilizados por suas trajetórias, histórico, ideologia, aliados, os políticos e os partidos sentem-se livres para repetir os erros do passado e perpetuar práticas e ideias daninhas sem se sentirem incomodados. Ainda mais preocupante, entretanto, é ver o voto, mais que convicto, apaixonado e entusiasmado na candidatura do PSOL, como se ela representasse uma mudança de paradigmas na política. Longe disso. E aqui entra a minha preocupação.

Em primeiro lugar, cabe destacar a trajetória pessoal de Guilherme Boulos. Ele já era coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (um movimento absolutamente legítimo, diga-se de passagem, para que as críticas aqui formuladas não respinguem nele), mas emergiu para a política mesmo como "herói da resistência" contra o "golpe" de 2016 e defensor do legado (e da libertação) do ex-presidente Lula.

Em manifestações populares, para garantir a "legalidade", não hesitou em entregar manifestantes black bloc para a polícia. Como candidato a presidente em 2018, serviu basicamente de força auxiliar do PT. Era aparente – e essa aparência vem se confirmando – que estava de fato de olho no posto de herdeiro político de Lula. Depois da eleição, astutamente descolou-se da figura do ex-presidente.

Sua postura e sua conduta, porém, não poderiam ser mais parecidas com a de seu mentor: seu discurso é populista; sua ideologia, incerta; sem história no PSOL, paira acima do partido e, se consagrado politicamente, o partido pode se tornar dependente dele como o PT foi de Lula, em prejuízo de um programa político e em favor do personalismo; seu faro para o oportunismo o faz buscar aliados e eleitores nas tendências em voga dentro da esquerda; e, mais importante, Boulos tem um vínculo histórico com o autoritaritarismo de esquerda que a sua campanha, de maneira habilidosa, tem conseguido esconder.

Em meio à campanha deu plataforma e se valeu do apoio do historiador e youtuber stalinista Jones Manoel; gravou vídeo apologético da ditadura cubana no qual, claro, não fez quaisquer menções às violações de direitos humanos no país, à supressão das liberdades fundamentais, à perseguição de opositores e aos privilégios da classe dirigente e política que faz dos cubanos cidadãos de segunda classe em seu próprio país.

Mas, então, por que exatamente os seus eleitores veem em Boulos uma "alternativa democrática" ao clima autoritário em que vivemos?

Feitas essas críticas, é importante destacar que o que está em jogo aqui não é a figura pessoal de Boulos. Não é personalismo que estou discutindo, é o oposto, princípios. Não me preocupam tanto Boulos quanto seus eleitores e seu partido, que, como o nome sugere, nasceu de uma dissidência do PT, em 2003, que criticava o arcaísmo, autoritarismo e assistencialismo da legenda, e se pretendia ser uma nova esquerda, radical mas democrática.

Dezessete anos depois, o PSOL tem bolsões que, como o PT, prestam reverência às ditaduras cubana e venezuelana, e depois do impeachment se contentaram em virar força auxiliar do partido ao qual um dia fizeram oposição. É essa corrente que Boulos representa, e é ela que haverá de predominar se ele (elegendo-se ou não) se consagrar como líder da legenda.

Mas, além do partido, o que me preocupa é a miopia da esquerda como um todo, desde a academia, passando pela imprensa até a militância, sobre o que aconteceu entre 2013 e 2020 e o que isso representa para os progressistas.
Em 2013, um movimento espontâneo, democrático e majoritariamente de esquerda foi reprimido e deslegitimado por uma esquerda institucionalizada, corrupta, sem outro projeto que não perpetuar-se no poder, e que para tanto abandonou quaisquer propostas de reforma social em favor de políticas assistencialistas.

Em 2016, a aliança popular e política que sustentava essa esquerda no poder rompeu, e a nova esquerda de 2013 ou estava desarticulada ou foi cooptada para a esquerda tradicional, fazendo com que a única alternativa de oposição viesse da direita. Em 2018, a versão mais radical dessa direita chegou ao poder contra uma esquerda fragmentada e dependente de um líder – Lula – que colocou a própria liderança acima de um projeto de esquerda democrática contra o neofascismo emergente.

E, contra esse neofascismo emergente, prevaleceu a resposta instintiva, porém comprovadamente refutada pela história: que, ao autoritarismo da direita, era preciso "radicalizar", saindo do assistencialismo petista para o idealismo revolucionário que grassa nas redes sociais e na voz de parte da intelectualidade e dos formadores de opinião, culminando na inacreditável tentativa de reabilitar a figura de Stalin e sua ditadura genocida.

Pode-se ainda argumentar (como é comum) que o autoritarismo de esquerda não é tão ruim quanto o de direita, pois não tem chance de vingar no Brasil. A premissa é verdadeira, mas esquece as implicações de seguir alimentando políticos, partidos, ideologias e projetos autoritários: a promoção de ideias autoritárias mina a confiança na democracia, corrói o ambiente político e alimenta o monstro da extrema-direita. Isso não é retórica, é história, verificável tanto na era do fascismo clássico (anos 1920-1930) quanto na do neofascismo (2016 até o presente).

Diante do perigo real que Bolsonaro posa à democracia, chegou o momento da esquerda entender que o único radicalismo conhecido para promover a paz, justiça, liberdade e igualdade é o da radicalidade democrática, da rejeição radical de qualquer forma de autoritarismo, da defesa radical dos direitos humanos e das reformas sociais que transformem o Brasil numa democracia plena, mais justa, igualitária, e livre.

Existem entre os eleitores de Guilherme Boulos aqueles que alimentam esse ideal. Infelizmente, eles escolheram como representante um líder e um partido que não esposam esta causa. Nesse momento de tentativa de reconstrução da democracia brasileira, é importante que a esquerda não se iluda com lideranças cujo trabalho, de modo direto ou indireto, opera contra este caminho.

* Bruno Frederico Müller é doutor em História pela UERJ, escritor e tradutor.


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Sobre os autores

Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

Sobre o Blog

Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.

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