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Entendendo Bolsonaro

Alta de Boulos desafia estratégia centrista para 2022

Entendendo Bolsonaro

24/11/2020 12h57

Ilusão de um debate programático durou poucos dias e, daqui para frente, o alegado centro não terá outra saída senão partir para uma tática de 'briga de rua' caso queira se manter no poder na cidade de São Paulo e conquistar o Planalto em 2022.

Vinícius Rodrigues Vieira

A subida consistente de Guilherme Boulos (PSOL) nas intenções de voto para a prefeitura de São Paulo indica que as leituras iniciais sobre as consequências das eleições deste ano para a política nacional foram apressadas. Fala-se em vitória da centro-direita ou mesmo da direita, tal como o filósofo Denis Lerrer Rosenfield ousou dizer com rara honestidade no debate político nacional.

Ainda que Boulos não ganhe, sua trajetória sugere que o voto de protesto e candidatos além do espectro da centro-direita e direita são competitivos numa disputa majoritária pós-Bolsonaro. Diante de tal cenário, o tucano Bruno Covas — e, por consequência, os autodenominados centristas  não terá outra saída senão partir para uma tática de "briga de rua" caso queiram se manter no poder na cidade de São Paulo e conquistar o Planalto em 2022.

Como "briga de rua", entende-se deixar o debate programático de lado — que tanto caracterizou o segundo turno em São Paulo durante a primeira semana pós-15 de novembro — para explorar de maneira exagerada as contradições do adversário. Não à toa, já vimos nos últimos dias a candidata do PSL autointitulada "direita-raiz", Joice Hasselmann, agora apoiadora de Covas, servir de estilingue contra Boulos nas redes sociais. Nesta terça (24), em postagem no Facebook, ela publicou arte que inclui os petistas Dilma Rousseff, Fernando Haddad, José Dirceu e Luiz Inácio Lula da Silva num eventual secretariado de Boulos.

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A pancadaria deve aumentar nos próximos dias, à medida que as pesquisas de bastidor mostram uma eleição cada vez mais acirrada. A ilusão durou poucos dias e, ao que tudo indica, seguiremos presos a um passado eterno, sem programas que, à direita ou à esquerda, possam resolver os atuais desafios. Como inspiração para essa nova fase, Covas poderia voltar à infância e adolescência em Santos, cidade onde ele foi candidato a vice-prefeito em 2004 — fato, aliás, ignorado em sua biografia nas redes, talvez por sugerir que seus vínculos com São Paulo são mais recentes que se supõe. A respeito disso, cabe dizer ainda que, nas vezes que se candidatou a deputado, Covas se vendeu no litoral como candidato da região, como na disputa pela Câmara dos Deputados em 2014.

Digo tudo isso porque Covas e eu estudamos no mesmo colégio em Santos entre 1992 e 1994, o Lusíada, mantido pela fundação homônima que até hoje possui um centro universitário. Era um ambiente interessante. Suas mensalidades, acessíveis para os padrões da época, permitiam um corpo discente relativamente diverso, comportando desde filhos de operários do polo industrial de Cubatão (meu caso) até o neto de um senador da República, cargo que Mário Covas, o avô de Bruno, ocupava à época, para o deslumbre de parte do corpo docente.

Não fomos colegas de classe (ele tem 40 anos; eu, 36). Porém, se a política nacional realmente virou uma eterna 5ª série tal como alguns memes afirmam, o prefeito deve se lembrar daqueles tempos. As brigas no pátio do colégio eram um verdadeiro clube da luta em que os desafiados, estimulados pela interjeição "hey, hey, hey!", se desistissem do confronto, eram perseguidos com um grito uníssono: "arregou!"

O verbo era seguido por um adjetivo no aumentativo que os bons modos me impedem de reproduzir aqui. Apenas digo que é um modo chulo de chamar alguém de covarde — nada demais para um bando de estudantes no limiar da adolescência nos anos 1990. Covas vai "arregar" diante da subida de Boulos? Personalismos à parte, cada um representa projetos anti-Bolsonaro para 2022. Da vitória de Covas depende a viabilização de seu padrinho João Doria para a corrida ao Planalto. O atual prefeito pode até se reeleger, mas tudo indica que será por pouco.

Assim, ganhando ou perdendo, Boulos — apoiado pelos petistas de ficha-corrida que parecem ser odiados em São Paulo — já impôs uma derrota aos tucanos paulistas e, particularmente, às pretensões de Doria de se mover ao centro e ser o anti-Bolsonaro de 2020 (aliás, em qualquer outro lugar do mundo, o governador seria inequivocadamente posto pela imprensa na direita do espectro político, dada sua retórica de lei e ordem que ecoa elementos do republicanismo-raiz dos Estados Unidos).

Para a esquerda, Boulos é o respiro necessário para chegar viva na disputa de 2022. Sua mimetização do clima Lula 1989 — uma campanha com poucos recursos, criativa, repleta de artistas e pautada na emoção — é uma verdadeira viagem ao passado. Convido o leitor a acessar o plano de governo da chapa do PSOL. Não há uma menção sequer aos termos que estão na vanguarda da esquerda no mundo desenvolvido: economia verde e economia criativa.

Tampouco identifiquei propostas que se assemelhem a tais conceitos. Há apenas a velha ladainha da economia solidária que, no melhor do meu pobre conhecimento, não gera mudanças estruturais que os mais necessitados numa cidade como São Paulo tanto precisam. Por outro lado, sobram flertes com o populismo — aqui entendido como a arte de satisfazer demandas de curto prazo em detrimento de mudanças estruturais no longo-prazo enquanto se mobiliza o eleitorado em torno de oposições simplistas, como um sentimento anti-elite, característico tanto do lulismo quanto do bolsonarismo.

Aliás, causou-me espécie ver que Boulos quer garantir, com o dinheiro da prefeitura, "eletrodomésticos essenciais" em programas habitacionais que enfrentem a desigualdade — isso sim algo de primeira ordem numa cidade como São Paulo. Vamos voltar aos anos do neodesenvolvimentismo lulo-dilmista que tratou o pobre como consumidor, não como cidadão? Talvez Demetrio Magnoli tenha razão ao dizer que Boulos é a restauração do lulismo. Não à toa ele e sua vice, Luiza Erundina, fizeram, em sua campanha, uma paródia da série "De Volta para o Futuro". Aliás, hoje eu queria ser Marty McFly para, com Doc Brown, armar um plano para mudar o passado e ter uma esquerda (e quiçá direita) mais avançada no século 21.

Enfim, nesse cenário, Covas (e o pretenso centro) parece não ter alternativa senão chamar Boulos (e a esquerda) para a briga de rua, isto é, despertar no eleitorado o medo de ser governado por alguém sem experiência em cargos administrativos e que desperta nos conservadores a apaixonada defesa da propriedade em detrimento da vida.

Em 2022, veremos o centro (ou, melhor dizendo, a direita que quer se livrar de Bolsonaro) fazer o mesmo com uma esquerda que, dado seu anacronismo e pecados cometidos com o Centrão durante a era PT, tinha tudo para estar morta, mas persiste devido à incrível falta de novidades viáveis e consistentes na política brasileira. Em meio a isso, o bolsonarismo pode sair da UTI e dizer que o pleito de 2020 foi apenas uma "gripezinha" que apenas mitigou sua sanha destruidora. Diante disso, será que vamos "arregar"?

Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na pós-graduação da FGV


Este é um blog coletivo que pretende contribuir, sob diversos olhares – da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia –, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco

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Pesquisadores e estudiosos da nova direita e suas consequências em diversos campos: da sociologia à psicanálise, da política à comunicação.

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Uma discussão serena e baseada em evidências sobre a ascensão da extrema direita no mundo.

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